O traficante de menores barra pedófilo barra gestor de fundos Jeffrey Epstein aconselhou um alto quadro do JPMorgan, Jes Staley, sobre a sua carreira e relações com figuras influentes do sector financeiro na Grã-Bretanha, China e Médio Oriente, mesmo enquanto estava preso por aliciar menores na Flórida, segundo revelam novos e-mails caídos no domínio público.

Os documentos — contidos em petições judiciais apresentadas na terça-feira da semana passada no âmbito do processo das Ilhas Virgens Americanas contra o JPMorgan — indicam que Epstein ligou Staley a uma série de amigos de alto perfil, incluindo o Príncipe André da Grã-Bretanha e o empresário do Dubai, Sultan Ahmed bin Sulayem. Convidou-o também para reuniões em Davos com o bilionário da Microsoft, Bill Gates, e o presidente da Universidade de Columbia, Lee Bollinger, que era membro do conselho do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque.

Epstein facilitou também um encontro entre os executivos do JPMorgan e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Em Março de 2011, um funcionário do JPMorgan escreveu a Staley e a outro executivo de alto nível:

“Contra todas as expectativas, conseguimos uma reunião com o primeiro-ministro Netanyahu.”

Staley reencaminhou a mensagem para Epstein e escreveu “Obrigado”, ao que o criminoso sexual condenado respondeu, talvez ironicamente:

“Que surpresa!”.

 

 

As trocas de mensagens fizeram parte da revisão interna do JPMorgan, em 2019, sobre as comunicações de Epstein com Staley e outros funcionários do banco. No seu relatório, a instituição financeira referiu que Staley

“parece ter uma relação próxima com Jeffrey Epstein, comunicando regularmente com ele e procurando os seus conselhos, incluindo enquanto Epstein estava preso. Outros funcionários também comunicam com Epstein intermitentemente sobre diversos assuntos”.

Os próprios funcionários de compliance do JPMorgan observaram, num e-mail de 2019, que Epstein enviou pagamentos a mulheres do seu círculo social na mesma altura em que Staley lhe enviou um e-mail sobre as suas viagens.

 

 

Quando Staley escreveu a Epstein, em Agosto de 2009, a informar que estaria em Londres, Epstein perguntou-lhe se precisaria de alguma coisa enquanto lá estivesse. Staley respondeu: “Sim”. No mesmo dia, e-mails internos do JPMorgan mostram que uma das contas de Epstein transferiu 3.000 dólares para uma mulher que

“parece estar associada a uma companhia de bailado na Lituânia chamada Baltic Ballet”.

A mesma mulher recebeu 2.000 dólares de Epstein em Janeiro de 2009, por volta da altura em que Staley disse que visitaria o criminoso em Palm Beach.

Em Janeiro de 2010 — enquanto Epstein estava em prisão domiciliária na Florida — Staley escreveu:

“Diversão esta noite. O que faremos a seguir?????”

Epstein respondeu pouco depois, dizendo que o seu motorista, que descreveu como “ex-DEA” e “armado”, o iria buscar a St. Thomas, nas Ilhas Virgens.

Epstein continuou:

“helicóptero também disponível para um passeio… lembra-te, eu sou dono das duas grandes marinas… Yacht Haven Grand, em St. Thomas, e da marina em Red Hook… podes usar os meus quadriciclos, jet ski, ginásio etc.”

Mais tarde, nesse mês, Staley escreveu a Epstein: “

Cheguei ao teu porto. Algum dia, temos de fazer isto juntos”.

De acordo com o memorando do JPMorgan, Epstein parece ter ajudado Staley com a admissão da filha na pós-graduação da Universidade de Columbia. Embora o nome da aluna tenha sido omitido no documento, o The Wall Street Journal identificou-a como filha de Staley.

E-mails obtidos pelo The Daily Beast revelam ainda que, em 2015, Staley enviou um e-mail a Epstein a dizer que a sua filha, então com vinte e poucos anos, queria falar com ele “sobre o seu futuro”. Um e-mail subsequente listava um encontro com a jovem.

Em Novembro de 2010, segundo o memorando, Staley enviou o currículo da jovem a Epstein, que lhe respondeu:

“Ela pode falar com Richard Axel quando eu voltar, ele ganhou o Prémio Nobel… é garantido”.

Axel é professor na Universidade de Columbia e biólogo molecular.

Numa mensagem de Fevereiro de 2011, Staley disse a Epstein que “passou uma hora com o Presidente”. O memorando refere que “não é claro se a referência é ao Presidente da Universidade de Columbia, ao Presidente dos Estados Unidos ou a outra pessoa”. Mas o executivo financeiro elogiou Epstein um mês depois, mencionando a sua gratidão e da sua mulher, apesar da punição de Epstein pelos seus crimes sexuais.

“Deby e eu estávamos a falar esta noite sobre o que significas para mim e para [informação omitida]. Pagaste um preço pelo que foste acusado. Mas sabemos o que fizeste por nós. E consideramos-te um dos nossos amigos mais próximos. E uma das pessoas mais honestas. Obrigado, Jes.”

Epstein respondeu de forma lacónica:

“Família”.

Os documentos revelam que Epstein aparentemente tentou usar o seu crescente vínculo com os Staley para conseguir um emprego no JPMorgan para o namorado de uma mulher do seu círculo. Em Abril de 2010, escreveu:

“Agradecia muito se o pudéssemos colocar num programa de formação para a banca privada. Ele é responsável, tem 27 anos e é muito sociável. Pode ser um grande trunfo para o escritório da Florida”.

Epstein mencionava frequentemente amigos ricos nas suas conversas com Staley, e a dupla trocava informações e conselhos por e-mail sobre como os conquistar.

Depois de Staley ter elogiado efusivamente uma visita à ilha de Epstein, em Janeiro de 2011, o criminoso sexual respondeu:

“Queres participar num jantar com Gates em Davos na quarta-feira?”

Logo de seguida, Epstein voltou a perguntar a Staley sobre o magnata da tecnologia:

“Terei Gates sozinho durante dois dias… alguma sugestão?”

Staley respondeu:

“Para começar, gosto muito da ligação entre Gates, a energia nuclear e o Médio Oriente.”

Staley e Epstein também trocaram e-mails sobre o bilionário da cadeia de hotéis Hyatt, Tom Pritzker, que aparentemente estava a preparar um projecto com o JPMorgan. Pritzker escreveu a Epstein em Janeiro de 2011.

“Uma imagem vale mais do que mil palavras. Aqui está a tua fotografia de feliz aniversário. O que é que todas as pessoas nesta fotografia (excepto uma) têm em comum? TJP.”

Epstein reencaminhou a mensagem para Staley.

Na Primavera de 2010, Staley reencaminhou e-mails para Epstein sobre “o que parece ser uma reestruturação de um escritório familiar” relacionada com Pritzker, segundo afirma o memorando.

Epstein também enviou e-mails a Staley ao longo dos anos sobre encontros com David Gergen, antigo conselheiro de presidentes americanos, incluindo Bill Clinton, bem como com o magnata do Grupo Virgin, Richard Branson. Numa mensagem de Janeiro de 2011 dirigida ao político britânico Peter Mandelson e a Staley, Epstein escreveu:

“Tomei o pequeno-almoço com Richard Branson, ele também é um grande fã de África”.

Epstein disse a Staley, em Outubro de 2009, que se tinha encontrado com alguém ligado ao presidente russo, Vladimir Putin.

“Desculpem, não respondi ontem à noite… o sultão e uma pessoa de Putin estavam aqui.”

Entre os outros nomes em destaque estava o Príncipe Andrew. Em Junho de 2009 escreveu a Staley:

“Pergunta ao Andrew sobre a ilha, conta-lhe sobre os teus planos para o barco.” 

No ano seguinte, os e-mails mostram que Epstein tentou marcar vários encontros com o magnata do sector bancário e o príncipe. Em Junho de 2010, Epstein escreveu a Staley:

“O Andrew acabou de se sentar ao meu lado ao jantar. Vamos tentar encontrar-nos esta semana. Alguma notícia sobre o M? Isto é divertido”.

Quem é o “M” permanece incerto.

Epstein também serviu como intermediário entre o Duque de York e o multimilionário financeiro da Ripplewood Holdings, Tim Collins. O traficante de menores escreveu a Staley em Agosto desse ano:

“O Andrew vai ligar ao Tim, se me deres os números”.

A assistente executiva de Epstein escreveu ao seu patrão por essa altura, solicitando coordenadas de actuação:

“O gabinete de Jes Staley ligou a dizer que ontem à noite Jes se encontrou com o Príncipe Andrew e Tim Collins. O gabinete de Tim Collins ligou para o gabinete de Jes a pedir o número de contacto do Príncipe. O gabinete de Jes não tem o número e ligou-nos a solicitá-lo. Por favor, informe-nos.”

Em Setembro de 2010, Epstein informou Staley que

“o Príncipe Andrew gostaria muito mais de representar a Cazenove na China do que Tim Collins”.

O relatório interno do JPMorgan refere que

“isto pode estar relacionado com os negócios da JPMC Cazenove em Londres”.

Três meses depois, Epstein reencaminhou para Staley um e-mail do membro da realeza britânica “com uma consulta que o Príncipe recebeu da Aria Petroleum a solicitar uma linha de crédito de fundo de maneio de 200 milhões de dólares”, segundo refere o relatório, acrescentando:

“Como a empresa está sediada nos EUA, o Príncipe Andrew pareceu sugerir que Epstein os ligasse a um banco americano”.

O Príncipe escreveu a Staley dias antes do feriado de 2010:

“Desejo-lhe um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo. Peço desculpa por não nos termos encontrado esta semana. Tive de ir ao Afeganistão, por isso não pude estar aqui e não lhe posso dizer a razão ou onde estava. Espero que nos possamos encontrar depois do Ano Novo. Estarei em Davos como sempre.”

Staley respondeu:

“Cuide-se por aí. Aposto que a sua presença ajuda as pessoas que lá estão. Vou passar-lhe a programação dos eventos do JP Morgan.”

E continuou:

“Devo dizer que receber uma mensagem de Natal do Duque de York é bastante agradável. Peço desculpa por não nos termos encontrado em Londres. Estive lá para anunciar ou negociar em Canary Wharf. Tivemos uma boa repercussão na imprensa. Talvez da próxima vez que estiver em Londres, possa mostrar-lhe o edifício que comprámos (o antigo edifício do Lehman). O Mayor estava bem disposto como sempre”.

Em Fevereiro de 2011, Epstein disse a Staley:

“O Andrew pediu a sua agenda em Londres”.

Sobre estas revelações, um porta-voz do Procurador-Geral das Ilhas Virgens Americanas disse em comunicado:

“Jeffrey Epstein ligou os executivos do JPMorgan Chase a algumas das pessoas mais ricas e influentes do mundo. A queixa das Ilhas Virgens Americanas alega que, em troca de trazer novos clientes valiosos para o banco, o JPMorgan Chase, através dos seus executivos seniores, incluindo Mary Erdoes, ignorou as provas dos crimes de Jeffrey Epstein e trocou a segurança pública das vítimas pelos seus próprios lucros.”