
A perda de protagonismo histórico que outrora marcou a presença de Portugal no sistema internacional não se explica apenas por fenómenos de estagnação económica ou pelo declínio estrutural que o país tem vivido nas últimas décadas. Essa perda resulta também de transformações profundas de natureza cultural, identitária e política, cujo impacto permanece insuficientemente analisado.
1. A desorientação conceptual da sociedade portuguesa
Em primeiro lugar, assistiu-se ao surgimento de um processo de desorientação conceptual que afectou decisivamente a forma como o país se pensa a si próprio.
a) A inversão dos referenciais históricos
Impôs-se uma narrativa segundo a qual os valores, as matrizes culturais e o legado histórico nacionais deveriam ser objeto de retração ou vergonha. Tal leitura projetou critérios morais contemporâneos sobre realidades civilizacionais incomparáveis, gerando uma visão anacrónica do passado português.
b) A transformação da autocrítica em autodenigração
A autocrítica – elemento essencial em sociedades democráticas e maduras – degenerou numa tendência para a desvalorização identitária. Este processo contribuiu para um enfraquecimento do sentimento de pertença e para a desarticulação dos fundamentos simbólicos que sustentam qualquer comunidade política.
c) A erosão da legitimidade da identidade nacional
Qualquer defesa dos elementos estruturantes da identidade portuguesa passou a ser interpretada por parte das elites como manifestação de intolerância ou ameaça aos valores democráticos. Esqueceu-se, porém, que todas as democracias estáveis dependem da capacidade de preservar os seus princípios basilares.
d) A confusão entre valores humanistas e permissividade acrítica
Valores como tolerância, humanismo ou respeito intercultural foram reinterpretados de forma maximalista, alimentando um permissivismo sem ponderação estratégica. Este fenómeno foi acompanhado por uma pressão demográfica significativa e por um discurso de culpa colectiva que fragilizou a autoestima nacional e distorceu perceções de responsabilidade histórica.
2. Consequências: a erosão identitária e a vulnerabilidade sistémica
Como resultado, Portugal tornou-se vulnerável aos efeitos paradoxais dos seus próprios valores. Assistiu-se a uma erosão identitária acelerada e a um sentimento de diluição cultural no próprio espaço sociopolítico. Não se compreendeu que grupos actualmente percepcionados como desfavorecidos poderão, uma vez adquirindo maior influência, promover os seus próprios referenciais normativos — potencialmente distintos daqueles que justificaram a sua integração ou primazia.
3. O contexto histórico mais amplo: ciclos civilizacionais
Historicamente, todas as sociedades e instituições seguem ciclos: emergem, consolidam-se, atingem um auge, entram em declínio e podem eventualmente desaparecer. No caso europeu, torna-se plausível argumentar que vivemos uma fase de definhamento civilizacional, acelerada por factores económicos, mas também por dinâmicas socioculturais internas que fragilizam a coesão e a confiança nas estruturas políticas.
4. É possível inverter a tendência?
A questão central consiste em saber se este processo é reversível. Tal depende, antes de mais, da assunção realista de que o peso de Portugal no sistema internacional se encontra profundamente reduzido. Só a partir desta consciência — que exige simultaneamente humildade e lucidez — será possível corrigir erros estratégicos cometidos ao longo das últimas décadas.
Resta saber se ainda dispomos de tempo histórico para o fazer.
5. Um futuro incerto e o paradoxo das discussões demográficas
O futuro das gerações vindouras está marcado por incerteza estrutural. Neste contexto, os debates sobre natalidade – apesar de relevantes – revelam a sua ironia: discute-se a renovação demográfica num ambiente político, económico e cultural cuja própria sustentabilidade está por resolver.
6. Entre a denúncia e a ação: o que falta?
O crescente descontentamento popular, a insatisfação generalizada e a emergência de discursos anti-sistémicos tornam-se compreensíveis após mais de meio século de decadência. A denúncia das fragilidades é legítima e necessária. Contudo, não basta recorrer a uma política de tábua rasa.
A pergunta fundamental mantém-se: onde estão as propostas estruturantes? Como podemos, de forma realista e estratégica, sair do atoleiro em que nos encontramos?
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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