A polícia de Berlim fez buscas na casa do jornalista e comentador Norbert Bolz por causa de um tweet sarcástico que ridicularizava o título de um artigo de jornal, com os procuradores a afirmarem que ele usou um slogan nazi.
Bolz descreveu o incidente como uma “piada” que foi grosseiramente mal interpretada, afirmando, após a rusga domiciliária:
“A triste e despótica realidade que tenho denunciado nos últimos anos chegou agora até mim. Assustador.”
O Ministério Público de Berlim abriu uma investigação acusando Bolz de utilizar símbolos de organizações inconstitucionais. A acusação decorre de uma publicação de Janeiro na qual escreveu:
“Boa tradução de woke: Alemanha desperta!”.
O tweet era um trocadilho com um artigo publicado no jornal de esquerda Taz, originalmente intitulado “Proibição da AfD e petição de Höcke: Alemanha desperta”. O título foi posteriormente alterado.
Os procuradores argumentam que “Alemanha Desperta” era um slogan utilizado pelo Partido Nazi, tornando o seu uso um potencial crime. No entanto, o mandado de busca teria dado pouca importância ao contexto.
Bolz rejeitou qualquer intenção de promover ideias extremistas:
“Achei que era uma boa piada. O jornal Taz tinha escrito algo sobre Höcke com a conclusão de que ‘a Alemanha está a despertar’. Achei que esta era, na verdade, uma boa definição de ‘woke’, porque ‘woke’ também significa ‘acordado’. A loucura mudou de lado. Não me passou pela cabeça que isto pudesse ser mal interpretado.”
Bolz disse que quatro polícias chegaram a sua casa por volta das 9h00, tiraram uma captura de ecrã da publicação e aconselharam-no a “ser mais cuidadoso no futuro”.
Um porta-voz do Ministério Público de Berlim confirmou que a busca não fazia parte de uma repressão mais ampla das publicações nas redes sociais.
“Apenas um homem de 72 anos é acusado neste caso. A investigação está em curso. Não podem ser fornecidas mais informações para proteger a investigação.”
O mandado teria o logótipo do Departamento Federal de Polícia Criminal (BKA), indicando um possível envolvimento federal. O advogado de Bolz, Joachim Steinhöfel, criticou duramente as acções das autoridades:
“Trata-se de mais uma preocupante perda de controlo do sistema de justiça criminal. A ironia no tweet de Bolz é tão óbvia que seria necessário um mal-entendido deliberado para construir um crime aqui. É inaceitável que os chefes das agências aparentemente já não consigam distinguir entre propaganda punível e expressão de opinião permitida. Esta incompetência não é coisa pouca — mina a confiança no Estado de direito.”
Mais tarde, Bolz recorreu às redes sociais para comentar a operação.
“Uma busca domiciliária por causa de uma publicação. Jovens e simpáticos polícias que me deram o bom conselho de ser mais cuidadoso no futuro. Vou fazê-lo e só falarei sobre árvores a partir de agora.”
Hausdurchsuchung wegen eines Posts. Junge, nette Polizisten, die mir abschließend den guten Rat gegeben haben, in Zukunft vorsichtiger zu sein. Das werde ich tun und nur noch über Bäume sprechen.
— Norbert Bolz (@NorbertBolz) October 23, 2025
O jornalista e autor alemão já publicou livros de crítica à cultura woke, imanente em toda a Europa Ocidental nos dias de hoje. Numa entrevista ao Berliner Zeitung em Junho, Bolz disse:
“Presumo que esta revolução cultural woke tenha sido levada a tais extremos que estamos agora à beira de uma implosão. Durante anos, a wokeness tem vindo a assumir o controlo. Funcionou. O terror foi eficaz. Mas agora há cada vez mais pessoas a gozar com isso e a distanciar-se de todos os rituais associados a isso.”
O jornal Welt, onde também aparece rotineiramente como convidado, teve uma busca domiciliária como a principal notícia da sua primeira página numa edição do mês passado. A equipa editorial também ficou consternada com a invasão domiciliária. O editor-chefe do WELT, Jan Philipp Burgard, disse ao Bild:
“O Welt defende a liberdade de expressão. De acordo com todas as informações que temos actualmente, as ações das autoridades parecem completamente excessivas”.
O editor do WELT, Ulf Poschardt, disse ainda:
“Num estado constitucional, presume-se que tudo o que não é proibido é permitido. A ironia não foi proibida até agora. No entanto, a tendência actual de buscas domiciliárias e processos pelos chamados crimes de opinião é um sinal de alarme para o estado da nossa constituição liberal. A busca domiciliária ao Prof. Dr. Bolz deve abalar todos os democratas liberais. É tempo de a política e a justiça reflectirem e recuarem.”
Escapa a Ulf Poschardt que foram precisamente os “democratas liberais” que acabaram por ressuscitar a Stasi, na Alemanha.
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