Escrevi que Deus não usa relógio. Tentei até explicar amores. Muita gente não entendeu. Eu não me entendi. Muitos não sabem. Eu também não – mas sou teimoso. Por isso piso, repiso, bato no mesmo prego e esmurro a mesma ponta de faca.

Eu tento.

 

O AMOR, O RELÓGIO E ALGUM TROCADO PRA DAR GARANTIA

Muito já se disse sobre o amor, mas quase tudo foi ruído de ferida. Poetas o cantaram, santos o ofereceram, filósofos o desconfiaram – e no fim ninguém saiu ileso. Porque o amor, quando é verdadeiro, não é um sentimento: é uma ferida aberta por onde o eterno tenta entrar.

Amar é sempre sofrer um pouco – não por castigo, mas por grandeza. Só o que ultrapassa os limites da carne pode doer assim. O amor é o peso do infinito sobre um coração finito.

Santo Agostinho, que sabia mais de lágrimas do que de definições, dizia que “amamos para não morrer”. E estava certo: o amor é a recusa da morte. É o protesto do espírito contra o relógio. Todo amante, no fundo, quer que o instante dure para sempre – e é por isso que ele se desespera.

Mas Deus, com sua ironia amorosa, fez o tempo para ensinar-nos a esperar. E é aí que o amor se torna mais divino: quando aprende a ser paciente sem deixar de arder.

As almas certas nem sempre se encontram na hora certa. Às vezes o amor chega tarde, como uma bênção fora de sincronia. Um está preso a deveres, o outro a feridas; um está pronto, o outro já cansado. E o mundo, cruelmente pontual, fecha as portas que o coração abriu.

Não é tragédia – é liturgia. O amor humano é sacramento imperfeito do Amor divino: contém a forma da eternidade, mas dentro de um vaso que se quebra. E cada desencontro é um lembrete de que o Céu ainda não começou.

Pascal escreveu que “o coração tem razões que a razão ignora”.

Talvez a razão do amor seja justamente essa ignorância: amar é aceitar o mistério de não entender, e ainda assim permanecer.

C.S. Lewis via no amor a escola da renúncia: não para sufocar o desejo, mas para purificá-lo. Ele dizia que o amor só é pleno quando suporta o risco da perda.

E esse é o ponto em que o humano se toca com o divino – quando amamos não para possuir, mas para servir, para permanecer mesmo na ausência.

Há quem diga que o amor é só uma ilusão biológica. Pobre ilusão essa, que atravessa séculos, destrói impérios e consola moribundos.

Rilke, que sabia das solidões humanas, dizia que amar é “guardar o outro no coração como uma tarefa”. E é isso: uma tarefa. Sagrada, cansativa, luminosa.

O amor não é um consolo, é convocação.

Não é uma pausa na vida, é o próprio campo de batalha onde alma e tempo duelam pelo direito de permanecer.

Deus não nos quer anestesiados de felicidade, mas maduros de esperança.

E maturidade, neste mundo, é saber sofrer com elegância, sem se embrutecer.

Porque o cinismo é a apostasia dos que amaram mal.

No fim, o amor é a pedagogia mais sublime da perda. Ensina-nos a morrer um pouco a cada dia – e ainda assim agradecer pela vida.

Chorar é rezar com os olhos.

E o amor, mesmo quando falha, não é um fracasso – é um ensaio da eternidade.

Que ele doa, sim. Mas que doa como um coração crescendo.

 

O AMOR TEM SEDE DE SANGUE

O amor entrou no quarto com botas de chuva, pisou o tapete da inocência e estourou o vidro da janela. Se vestia de riso, trouxe a cicuta, o sono leve e o pensamento pesado.

Você quis um alguém para sempre – imbecil de fé – que veio como espelho quebrado, te refletindo mil vezes e devolvendo metade com cortes, com sangue e rotina. Sussurrou juras de amor e você engoliu, sorrindo, sem ver o limo da promessa.

E você virou mesa posta, prato servido, a comida que gosta – e o garfo tremeu antes do brinde.

Porque amar é isso: domar o fogo com as mãos nuas, servir a ceia e ter sede no meio da festa.

O amor dói quando nos joga na cara: imortais só quando sonhamos – e quando a chama apaga, sobra a fuligem da pele desejada, só as gotas da vela fumegante são testemunhas.

Se deite no colo, encontre abrigo, e acorde no abismo da própria ausência.

Sangue escorre, não só da carne, mas da alma que se jurou indestrutível.

O tempo é carrasco e amante, vestido de sonho, fez ar condicionado no inferno, cantou “amor, amor” e fechou a porta.

Almas certas chegam tarde – uma tombou, outra foi embora. Uma traz o alforje, a outra os grilhões.

E o amor humano, esse pobre idólatra, sempre perde contra o relógio.

Mas eu digo verdades, o amor vale mesmo assim. Vale porque é o bom combate, vale porque, no fim, sobreviver ao amor não é fugir da dor – é dançar com ela, olhar nos olhos e dizer: “sou teu espelho quebrado, ainda assim me refaço”.

Então sim: o amor tem sede de sangue, que só se sacia na febre.

O amor bebe ternura – e no fel, na ferida, encontra-se o resíduo de divino: todo amor que houver nessa vida.

Porque amar é morrer todos os dias, querer levantar para o café da manhã com o outro.

E algum trocado, pra dar garantia.

 

 

WALTER BIANCARDINE

 

Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.