
Convenhamos: não é por acaso que os críticos não gozam, regra geral, de boa fama. O ofício, mesmo que amador, é ingrato e implica inevitavelmente o dom da pretensão. Vem isto a propósito do opus de Hélder Macedo – poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário -, um dos vultos vivos da literatura de língua portuguesa.
“Romance” (Editorial Presença, 2015) é um longo poema erudito e bucólico, de vocação romanesca, inspirado noutra composição lírica, “Ao longo de uma ribeira”, de Bernardim Ribeiro, o célebre trovador renascentista que um dia começou uma novela com estas imortais palavras:
Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.
Helder Macedo, ele próprio um estudioso da obra de Bernardim Ribeiro2, assume frontal e inequivocamente essa influência, que salta aos olhos da sensibilidade do leitor: o romantismo pessimista e o saudosismo místico, características do notável autor de corte, fazem de “Romance” uma obra soturna e etérea, é certo, mas também – e estranhamente – um objecto corpóreo de emoções que, sendo emanescentes da ficção, colidem com o granito do real.

A narrativa, elíptica e torturada, sacudida pelo ritmo despontuado e corrido dos versos breves e da arritmia das estrofes (às vezes é muito difícil parar para respirar), eleva-se numa espécie fantasmática de cantiga de amigo a duas vozes, que desafia as leis da gravidade e a normal configuração do espaço-tempo. Namorado e namorada enleiam-se num amor que já está condenado na sua génese, que já é morte no nascimento.
Porque no presente o amor é um derradeiro afastamento da vida, a história que Helder Macedo tem para contar é a da saudade de um futuro em que o romance pleno, imortal, possa eventualmente fazer sentido. E é nessa hipótese, talvez remota; e é nessa derrota, talvez vitória, que está a razão de ser do poema.
encontrada
a fronteira inalcançada
da materna morte
primeva
eucarística
redentora
que já não procuravaem si
se cada um tem o passado
do futuro que merece
não sendo o merecimento
possível
apenas finalsentar-se
à porta duma pastelaria
comendo torradas
de pão de forma
com manteiga a mais
engordurando o futuro
dum passado que não há
por nunca mais ir ter havido
manhã
nas brechas
abertas
da noite
As torradas, como os chocolates que a pequena heroína de Álvaro de Campos devora com aflição ávida5, são afinal o que sobra do romance que é a vida. Tudo o mais é a ficção ou a morte. A morte que condena os amantes. A ficção que os salva.
Porém – e voltando ao princípio -, há que ressalvar um detalhe do tamanho do mundo: “Romance” é um poema complexo, cifrado pela erudição e pela ambição lírica do seu autor. Podemos lê-lo e senti-lo e cantá-lo, até, de muitas e diversas maneiras. É um poema para ler dez vezes e tirar dele dez humildes apontamentos críticos. É sobretudo um exercício complexo de emoções que se copulam para gerar poesia. Ou melhor, para gerar o mistério da poesia. E uma coisa é certa: não é de certeza este pequenino texto que vai agora decifrar esse supremo enigma.
______________
1 Bernardim Ribeiro – Saudades (ou Menina e Moça)
2 Helder Macedo – Do Significado Oculto da Menina e Moça
3 Aleksandr Púchkin – Eugene Oneguine – O Romance da Vida Russa em Verso
4 Gonçalo M. Tavares – Uma Viagem à Índia
5 Álvaro de Campos – Tabacaria
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Artigo publicado originalmente no Deus Me Livro
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