O tão esperado inquérito nacional do governo britânico sobre os gangues de aliciamento mergulhou na desordem, com quatro sobreviventes de abusos sexuais a demitirem-se do seu painel de ligação entre vítimas e procuradores.
A decisão surgiu no meio de acusações de “pressão política”, um “ambiente tóxico” e suspeitas de encobrimento deliberado.
As demissões, que começaram a 20 de Outubro, expuseram profundas divergências entre as vítimas e o Ministério do Interior, ameaçando inviabilizar a investigação anunciada pelo primeiro-ministro Keir Starmer em Junho.
Fiona Goddard, uma sobrevivente de Bradford que renunciou ao anonimato, e Ellie-Ann Reynolds, vítima de abusos em Rotherham, foram as primeiras a demitir-se, criticando duramente as autoridades por “linguagem condescendente e controladora” em relação às vítimas e por alegadas tentativas de alargar o âmbito do inquérito para além da exploração sexual infantil em grupo, praticada por gangues predominantemente de origem paquistanesa.
Goddard descreveu o painel como um espaço “assustador”, onde as sobreviventes se sentiam silenciadas, enquanto Reynolds denunciou a “manipulação e o gaslighting” nos esforços para minimizar as motivações raciais e religiosas por detrás do abuso.
Goddard falou sobre “conduta secreta”, com casos de “linguagem condescendente e controladora” usada em relação às sobreviventes.
Posteriormente, mais duas vítimas também abandonaram o painel.
“Elizabeth”, falando anonimamente devido às protecções judiciais, citou frustrações semelhantes, enquanto “Jessica” – também um nome fictício – disse à GB News que a investigação corria o risco de ser diluída ao abranger questões mais amplas de abuso sexual infantil, contrariando a recomendação da Baronesa Louise Casey para um inquérito específico sobre os gangues de violadores paquistaneses.
Segundo as vítimas, o governo trabalhista não só desvalorizou a origem étnica dos agressores, como procurou desviar a atenção dos conselhos laborais implicados nos abusos.
O painel, gerido pela organização de caridade anti-grooming NWG e composto por cerca de 30 vítimas, tinha como objectivo moldar os termos de referência do inquérito e a selecção da sua presidência.
Em vez disso, tornou-se um ponto crítico, com as vítimas a afirmarem que foram impedidas de entrevistar os candidatos pré-selecionados para a presidência e que as vítimas de violações não relacionadas com gangues de muçulmanos dominaram as discussões, pressionando para a expansão do processo.
Para agravar a crise, a assistente social Annie Hudson desistiu também da candidatura à presidência, culpando a “intensa cobertura mediática”.
Jess Phillips, Subsecretária de Estado Parlamentar para a Salvaguarda e Violência contra Mulheres e Raparigas, enfrentou pedidos de demissão depois das vítimas terem classificado as suas negações de diluição do processo como “mentiras descaradas”.
A 20 de Outubro, Phillips enviou uma carta à Comissão Especial de Assuntos Internos da Câmara dos Comuns, insistindo que era “mentira” que os procuradores estivessem a tentar alargar o âmbito do inquérito.
Os meios de comunicação social, no entanto, divulgaram novas provas que mostram que os membros do painel de ligação foram explicitamente solicitados pelas autoridades a alargar esse espectro, o que é visto como uma tentativa de diluir todo o processo.
O Secretário-sombra do Interior, Chris Philp, acusou o governo de “sabotar” o inquérito, enquanto a líder conservadora Kemi Badenoch exigiu uma alternativa totalmente independente e liderada por juízes.
A Secretária do Interior, Shabana Mahmood, insistiu que o inquérito “nunca será diluído” e continuará “focado” na nos gangues paquistaneses, prometendo “não haver esconderijo” para os perpetradores ou para as instituições moralmente falidas.
A colega de gabinete Emma Reynolds pediu desculpa por qualquer sentimento de decepção entre as vítimas, enfatizando o seu papel central, enquanto um porta-voz do Ministério do Interior reiterou o compromisso com uma revisão “robusta”.
O escândalo atraiu um escrutínio renovado graças às intervenções vocais de Elon Musk no início deste ano.
Em Janeiro, o dono do X, alavancando os seus 211 milhões de seguidores, lançou uma enxurrada de posts acusando Starmer de cumplicidade em situações de abuso durante o seu mandato como Procurador do Ministério Público (2008-2013), alegando que ignorou “violações em massa” para obter votos.
Musk rotulou Jess Phillips de “apologista da violação genocida” após a rejeição inicial do Partido Trabalhista de um inquérito nacional. Os seus posts inflamados obrigaram Starmer a defender o seu historial – incluindo o de ser pioneiro nos primeiros grandes processos contra gangues de violadores.
Sobre o inquérito em curso, Goddard pediu uma acção rápida:
“Isto deve confrontar verdades incómodas, não evitá-las.”
Porém, com o caderno de encargos ainda indefinido, quatro meses depois do início do processo, aumentam as dúvidas sobre a capacidade – e a vontade – do Partido Trabalhista salvar um inquérito já marcado por feridas auto-infligidas.
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