O X-48B – Um projecto NASA/Boeing

 

Durante as últimas décadas, a NASA tem procurado cada vez mais (ou quase totalmente) o outsourcing para desenvolver as naves espaciais que utiliza na exploração do sistema solar. As missões incluem, por exemplo, os veículos Dragon da SpaceX, que agora podem transportar astronautas de forma fiável para a Estação Espacial Internacional e para além dela.

A ideia amplamente difundida é que os agentes do mercado livre serão capazes de operar de forma mais eficiente do que o próprio quadro de engenheiros da agência, que idealizaram os triunfos do século XX, como as missões Apollo e o Space Shuttle.

Mas será que as corporações são realmente mais eficientes na concretização dos objectivos da NASA? Um paper recente publicado no Journal of Spacecraft and Rockets propôs-se a acertar as contas através de uma análise aprofundada das finanças de 69 projectos espaciais de todas as dimensões, incluindo 22 naves construídas pela NASA e 47 pelo sector privado.

Para os defensores das parcerias empresariais com a NASA, os resultados são deveras embaraçosos: o estudo concluiu que as empresas contratadas eram tão ineficientes como o governo. E, como salientou o Financial Times, em alguns casos a NASA será mais eficiente do que a indústria privada.

O satélite de observação meteorológica, Suomi NPP, por exemplo, foi construído por uma constelação de empresas como a Raytheon e a Ball Aerospace por 922 milhões de dólares em 2012, ajustados à inflação. Em comparação, o satélite de observação de órbita polar FAST, desenvolvido pelo Goddard Space Flight Center da NASA, teve um orçamento de apenas 73 milhões de dólares, ajustado à inflação.

Embora as naves espaciais definidas como classe C e classe D — projectos menos divulgados e de baixo risco — tendam a ser mais baratas quando construídas pelo sector privado, a diferença rapidamente desaparece com projectos mais importantes de classe A e B, como o OSIRIS-REx de 558 milhões de dólares, desenvolvido pela Lockheed. Essencialmente, o paper conclui que as corporações se destacam na construção de naves espaciais onde componentes de menor qualidade podem ser fabricados em massa com “menos supervisão”, mas enfrentam as mesmas restrições que a NASA quando o desenvolvimento se torna mais complexo.

Segundo escrevem os autores do paper,

“Os resultados sugerem que o custo das naves espaciais não depende do tipo de construtor para projetos de Classe A/B.”

Isto contradiz algumas fantasias de mercado livre, repetidas por multimilionários como Elon Musk e Jeff Bezos, que defendem que o mercado privado é naturalmente a opção mais eficiente. Em vez disso, os investigadores concluem que a complexidade das naves espaciais — e não o promotor — foi a principal métrica que influenciou o custo de construção.

 

A Boeing como ilustração do argumento.

Um dos exemplos mais claros da disfunção corporativa que ocorre no sistema de outsourcing entre a NASA e os seus fornecedores industriais é a relação que a agência mantém com a Boeing.

Em Junho de 2024, a divisão aero-espacial da Boeing anunciou que a Starliner, encomendada pela NASA precisamente para transportar tripulações de e para a Estação Espacial Internacional (ISS) e outros destinos em órbita baixa da Terra, tinha avariado, deixando dois astronautas abandonados na ISS. Inicialmente, os astronautas deveriam permanecer na Estação durante uma semana, mas a NASA anunciou que iriam ficar retidos no espaço até 2025, altura em que a Crew Dragon da SpaceX passou por lá para deixar uma nova tripulação e recolher os dois astronautas que tinham sido inicialmente enviados numa missão de oito dias e que ficaram literalmente pendurados em órbita durante oito meses.

O próprio inspector-geral da NASA emitiu em 2024 um relatório muito crítico sobre a divisão de foguetões da Boeing, afirmando que a próxima geração de naves espaciais do gigante aeroespacial está anos atrasada, significativamente acima do orçamento e é operada por “técnicos inexperientes” liderados por gestores ineficazes.

Os auditores da NASA que visitaram as instalações de montagem da Boeing em Michoud, no Louisiana, detectaram “deficiências gritantes na qualidade”, segundo refere o relatório. Os inspectores emitiram 71 Pedidos de Acção Correctiva para remediar estas deficiências, o que, segundo eles, é

“um número elevado… para um sistema de voo espacial nesta fase de desenvolvimento”.

Estas deficiências “devem-se em grande parte à falta de um número suficiente de trabalhadores aeroespaciais com formação e experiência na Boeing”, continuava o relatório, citando um exemplo de como os “técnicos inexperientes” da empresa não conseguiram soldar um tanque de combustível de acordo com as normas da NASA. Esta soldadura de má qualidade levou directamente a um atraso de sete meses no desenvolvimento da fase superior do foguetão.

O relatório afirmava ainda:

“O processo da Boeing para resolver as deficiências até à data tem sido ineficaz e a empresa não tem sido, de um modo geral, reactiva na tomada de medidas correctivas quando os mesmos problemas de controlo de qualidade voltam a ocorrer”.

A Boeing prometeu inicialmente entregar a secção superior do foguetão em Fevereiro de 2021, mas o prazo de conclusão que propõe agora é o de Abril de 2027 (!). Os custos subiram entretanto, com a NASA a estimar que a produção do sistema custará 2,8 mil milhões de dólares até 2028, mais do dobro da estimativa da Boeing em 2017, que era de 962 milhões de dólares.

O gabinete do inspector-geral recomendou que a Boeing fosse multada por “não cumprir as normas de controlo de qualidade.” Mas nem a multa foi emitida nem o relatório do inspector-geral e respectivas auditorias tiveram quaisquer consequências.

 

A NASA como instrumento da política e não da ciência.

Acontece que a NASA, na verdade, não abdicou do seu papel de construtor por razões económicas, mas por destruição política da sua missão central. E não tem hoje recursos humanos, técnicos e financeiros para mais do que aquilo que está a fazer, que é manifestamente insuficiente.

Desde que Barak Obama iniciou o seu desastroso percurso de dois mandatos como Presidente dos Estados Unidos da América, a NASA tem sido sucessivamente destituída de competências e de financiamento. O encerramento do programa Space Shuttle, sem qualquer alternativa em agenda, o despedimento de milhares de funcionários, a irresponsável condução da exploração espacial para o sector privado e a infame politização da actividade da agência, criaram um vazio miserável que trai e corrompe em grande medida a sua missão, e no sentido lato, o velho e praticamente extinto ‘sonho americano’.

Neste clip de 2010, podemos testemunhar o desastre: Charles Bolden, o administrador que Obama nomeou para a NASA, confessa que a sua principal missão, conforme solicitado pelo então presidente dos EUA, era o de envolver a agência com o mundo islâmico, de forma a que os muçulmanos “se sentissem melhor com eles próprios e com as suas contribuições para a ciência e a engenharia.”

 

 

E de facto, quem tem a ideia disparatada que a missão da NASA deve ser a de explorar o espaço, contratar os melhores engenheiros disponíveis para construírem belas e gloriosas naves espaciais e descobrir e treinar os mais dotados astronautas para as pilotarem rumo ao infinito, está redondamente equivocado. A missão da agência espacial americana não tem nada a ver com isso. A missão da NASA é a equidade, a diversidade, a inclusão e a manifestação de poder das elites em Washington. A missão da NASA não é a de conquistar o sistema solar, mas sim a de construir a distopia na Terra. Não é a de recrutar os seus quadros em função da competência mas sim a de equalizá-los em função da raça e do sexo. A missão da NASA é afinal um mandato leninista-globalista.

A Agência Aero-Espacial funciona hoje à imagem do governo federal: gastadora, disfuncional, woke até à vómito e completamente incapaz de inspirar no público qualquer ideia de transcendência.

E Donald Trump, ao cortar em recursos financeiros, despedir pessoal e nomear para administrador da NASA Jared Isaacman, um bilionário woke amigo de Elon Musk, e depois, quando se zangou com o patrão da Space X, ter oferecido o cargo ao seu Secretario dos transportes, Sean Duffy, um homem que não tem qualquer preparação técnica para liderar a agência, não alterou de todo o deprimente registo.

E por estas e por outras que o Contra considera o recente anúncio feito por  Duffy, de que os Estados Unidos terão uma base permanente na Lua em 2035, uma promessa completamente delirante e falaciosa, proclamada apenas para sublinhar a fanfarronice que hoje domina o discurso público da Casa Branca.

Porque a NASA, como agência de exploração e conquista do espaço sideral, não existe.