Revejo-me, ainda hoje, num texto que escrevi há seis anos — que aqui retomo com algumas (bastantes) adaptações, mas cuja essência permanece intacta.
Na tensão entre globalismo e nacionalismo persiste uma clivagem profunda, ideológica e estrutural. Durante décadas, o pensamento dominante — político, económico e mediático — apostou no globalismo como solução universal, a suposta panaceia capaz de resolver todos os males da humanidade. Falava-se em “aldeia global”, em “mercados abertos”, em “governação supranacional”. Parecia o futuro inevitável.
Mas a realidade acabou por desmentir essa utopia. As crises sucessivas — a financeira de 2008 (subprime), a das dívidas soberanas a partir de 2011, a instabilidade e apreensão derivadas das guerras na Ucrânia e Médio oriente, a desindustrialização acelerada, a perda de coesão social , o advento da inteligência artificial, o descontrolo da imigração, os problemas securitários — revelaram as fragilidades desse modelo.
No Sul da Europa, os efeitos foram devastadores: economias asfixiadas, jovens forçados a emigrar, Estados endividados e sociedades exaustas.
Presente um pouco por toda a parte, mas com especial ênfase na Europa Central e de Leste, o nacionalismo nunca deixou de pulsar. Submetido durante décadas ao jugo soviético, manteve-se latente, pronto a ressurgir assim que a oportunidade o permitisse. E regressou com força. Acompanhado, é certo, de populismos e demagogias, mas também de um sentimento profundo de pertença e de defesa da soberania nacional — uma reação natural à arrogância e ao distanciamento das elites globalistas ocidentais.
A União Europeia, por seu lado, escolheu o caminho errado. Apostou numa integração excessiva, ignorando as especificidades e as soberanias nacionais. Em vez de uma “Europa das Nações”, optou por uma “Europa sem nações” — uma tecnocracia centralizadora, desconectada dos povos que a compõem. Os resultados estão à vista: descrédito das instituições, ascensão de forças anti-sistema, fragmentação política e desconfiança generalizada.
Hoje, figuras como Donald Trump, Recep Erdogan, Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Robert Fico, Andrej Babiš, Krzysztof Nawrocki, Marine Le Pen, Santiago Abascal, André Ventura e Geert Wilders, entre outros, não são acidentes de percurso. São sintomas — e, para muitos, respostas — a um mal-estar global. Representam a rejeição do cosmopolitismo abstrato e da governação distante, em nome do regresso à identidade, à soberania e à autodeterminação.
Não se trata aqui de exaltar nem de condenar, mas de compreender: estes fenómenos têm causas reais. São a reação natural a décadas de desilusão e impotência.
Não pretendo alongar-me — o tema é complexo e polissémico —, mas deixo o alerta: o ciclo do globalismo acrítico chegou ao fim. Entrámos num novo tempo político, em que as nações reclamam novamente o direito de ser donas do seu destino.
Os sinais estão por todo o lado. Cabe-nos apenas saber interpretá-los — e, sobretudo, agir antes que o pêndulo balance demasiado para o outro extremo.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
____________
Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
Relacionados
13 Jul 26
Proteger as Crianças: Os Perigos Reais da Transição Social e da Medicalização da Disforia de Género.
Maria Helena Costa traz ao debate sobre a transição de género uma questão central e urgente: existe uma categoria de “crianças verdadeiramente trans” que justifique intervenções médicas precoces?
13 Jul 26
Não há virtude nem alegria, na morte de alguém.
É deprimente que aqueles que se mostram ultrajados quando os leninistas-globalistas festejam, despudoradamente, homicídios e falecimentos de adversários políticos, estejam agora a celebrar a morte de Lindsey Graham. Deus amava-o, por muito luciferino que ele fosse.
10 Jul 26
Mark Rutte como auto-corrector.
De uma forma que é em absoluto perversa, O Secretário-Geral da NATO ajuda-nos a encontrar a verdade, porque essa residirá, inevitável e simetricamente, no inverso daquilo que ele diz.
10 Jul 26
O Corpo Não se Apaga: O Grito de Scott Newgent contra o Negócio da Mutilação de Menores.
A verdade é desconfortável, mas simples: não se muda de sexo. E Scott Newgent não pede ódio; pede protecção. Pede que a verdade — homem e mulher são categorias biológicas — volte a guiar a medicina e a educação. A crónica de Maria Helena Costa.
8 Jul 26
Paróquias Vivas
Ousem transformar a sacristia numa sala de ensaios. Ousem abençoar os campos de desporto como se abençoam os altares. Ousem misturar o sagrado e o profano, porque, para Jesus, o que era "profano" tornou-se o lugar privilegiado da Revelação. A crónica de António Justo.
7 Jul 26
A Sabotagem do Nord Stream 1 e 2: Responsabilidades, Impactos e a Erosão da Ordem Europeia.
A destruição dos gasodutos Nord Stream em 2022 não foi um mero incidente de percurso num conflito regional; foi a demolição controlada do modelo industrial alemão e, por extensão, da estabilidade económica europeia. A análise de Francisco Henriques da Silva.






