Os neoconservadores norte-americanos adoram mudanças de regime, mas parecem nunca planear o que acontecerá depois de removerem do poder o líder estrangeiro que têm como alvo. A Síria é um ótimo exemplo.

Washington passou anos empenhada em derrubar Bashar al-Assad, insistindo que ele tinha de sair porque não odiava Vladimir Putin como Vladimir Putin deve ser odiado. Estavam tão obcecados com o projecto que celebraram a ascensão de um ex-membro da Al-Qaeda como substituto de Assad. Agora, esse o ex-terrorista está prestes a visitar a Casa Branca.

Ahmad al-Sharaa será, segundo consta, o primeiro presidente da Síria a visitar a mansão executiva dos Estados Unidos, no dia 10 de Novembro. Al-Sharaa já tinha conhecido Trump na Arábia Saudita, em Maio, no que foi o primeiro encontro entre os líderes das duas nações em 25 anos.

Manter o diálogo com potências estrangeiras potencialmente hostis é sempre positivo; porque quando a diplomacia cessa, a violência começa. Dito isto, receber um ex-líder da Al-Qaeda no edifício que o grupo tentou atacar em 11 de Setembro de 2001 não deixa de ser chocante. Os neoconservadores até podiam ter as suas razões para detestar Assad, mas será que todos estão realmente convencidos de que substituí-lo por um seguidor de Bin Laden, que já teve uma recompensa de 10 milhões de dólares pela sua cabeça, é uma boa ideia?

Sob o nome de guerra Abu Mohammed al-Golani, al-Sharaa tinha ligações com a Al-Qaeda e juntou-se aos insurgentes que lutavam contra as forças americanas no Iraque antes de entrar na guerra da Síria. Na altura, montava minas e emboscadas nos percursos utilizados pelas tropas do Pentágono, sendo responsável por uma quantidade indefinida de americanos mortos no país.

Já em Outubro deste ano, al-Sharaa tinha sido recebido com todas as honras diplomáticas, em Nova Iorque, pelo ex-director da CIA, David Petraeus. Agora vai ser recebido com pompa e circunstância na Casa Branca.

O genocídio que está a ser cometido pelo novo regime islâmico da Síria sobre a população cristã autóctone, e que é o resultado directo da política externa dos Estados Unidos no Médio Oriente e do financiamento de milícias radicais islâmicas pela CIA e o Pentágono, não deve constar da agenda para este encontro vergonhoso entre os dois líderes políticos.