As operações mais letais do país voltam a expor o mesmo impasse, quando o Estado entra em guerra com o crime, quem paga o preço é sempre o cidadão comum.

Entre os complexos do Alemão e da Penha, o som dos helicópteros mistura-se com o dos tiros. A operação de 28 de outubro de 2025 deixou pelo menos 121 mortos e 81 presos, tornando-se a mais letal da história recente do Rio de Janeiro. Mas, para quem vive ali, o número não é estatística, é rotina. Como disse uma moradora da Penha,

“bala perdida não interessa de onde vem, meu filho. O resultado é o mesmo.”

 

De onde vieram as facções

As facções criminosas brasileiras nasceram no mesmo laboratório social onde muitos regimes autoritários fabricaram os seus próprios monstros, as prisões políticas. Durante a ditadura militar (1964–1985) o Estado encarcerou militantes de esquerda, sindicalistas e opositores, misturando-os deliberadamente com criminosos comuns em celas superlotadas.  A intenção era degradar os presos políticos, mas o resultado foi o inverso.  Os criminosos aprenderam com os militantes organização, disciplina e discurso coletivo. Os militantes, por sua vez, absorveram estratégias de resistência e o pragmatismo da sobrevivência.

Dessa convivência nasceu uma estrutura que uniu o ideal intervencionista: a crença de que o grupo pode governar o espaço que ocupa através do exercício armado do poder, típico das milícias. Já não era apenas criminalidade, mas poder com vocação administrativa, capaz de controlar, arrecadar, punir e proteger.

Nos anos 1970 o presídio da Ilha Grande tornou-se o berço do Comando Vermelho. Nos anos 1990 o massacre do Carandiru deu origem ao PCC. Enquanto isso, ex-policiais e militares criavam milícias sob o pretexto de proteger comunidades, impondo o mesmo modelo de extorsão. O resultado foi que o crime aprendeu a linguagem da política e o Estado assimilou a lógica do crime.

 

Como operam hoje os governos paralelos

Décadas depois, as facções aprenderam a governar territórios inteiros. Em muitas comunidades o gás, a eletricidade e a internet são fornecidos através de intermediários ligados às facções ou às milícias. O serviço é clandestino, mas a cobrança é regular, com valores fixos, datas de pagamento e punição para quem atrasa. O comércio local funciona por regras próprias, donos de bares e mercados pagam taxas de segurança, moto-taxistas precisam de autorização e até um velório exige permissão.

Nas áreas dominadas por milícias muda o uniforme, mas não a regra. Quem não paga não vive. Essas estruturas tornaram-se gestores informais de serviços e da ordem, impondo uma estabilidade à força. Em muitas zonas do Rio de Janeiro o mapa real do poder já não coincide com o mapa oficial.

Enquanto o Estado se ausenta e o crime administra, o resto do país financia seminários sobre inclusão.

 

Saber onde estão não é o mesmo que conseguir chegar lá. 

As forças de segurança conhecem o terreno, mas a informação raramente se transforma em estratégia. Os mapas existem, os relatórios também, o que falta é inteligência integrada, planeamento e condições operacionais para agir.

O território é uma fortaleza, onde cada beco é vigiado, cada entrada tem olhos e cada movimento é antecipado. As facções montam barricadas com pinos de aço para travar veículos, colocam fios elétricos em becos e instalam câmaras e olheiros nas esquinas.  Nos últimos anos surgiram drones com granadas artesanais, usados tanto para observação como para ataque. Os confrontos começam antes da chegada das viaturas e a guerra instala-se em segundos.

Nessas condições é praticamente impossível realizar uma intervenção de identificação ou de apreensão. A polícia entra sob fogo cruzado, com atiradores em pontos altos e civis encurralados entre paredes.
Cada casa é um risco e cada avanço, uma perda. O resultado habitual são combates breves e de alto custo humano.

Não se trata apenas de falta de planeamento, mas da ausência de inteligência real e da precariedade de um Estado que responde a problemas complexos com força bruta. O território é conhecido, mas continua inatingível. E o país habitua-se à violência como quem se resigna a uma paisagem.

 

O que as megaoperações entregam e não entregam

A Operação Contenção reuniu cerca de 2 500 agentes e apreendeu 93 fuzis. O impacto foi imediato, rotas de tráfico interrompidas, armas recolhidas e uma sensação de vitória.

Mas se observarmos o histórico de outras operações semelhantes, destaca-se a megaoperação de 2010. no mesmo local e com apoio operacional do Exército, autorizada pela Presidente Dilma Roussef. Em 2010, a polícia e o exército ocuparam o território por algum tempo (naquele ano ocorreria o Campeonato Mundial de Futebol, e o Rio de Janeiro era a principal sede), porém, passado a urgência de pacificar o território para o Mundial, a ocupação arrefeceu e aos poucos tudo voltou a ser como era antes.

Na operação atual, nenhuma liderança relevante foi capturada e muitos corpos continuam por identificar. O morador já está acostumado a ver blindados e helicópteros, assim como está acostumado a pagar o gás e as taxas ao mesmo intermediário.

Se a lógica for “apareço, atiro e saio”, o combate ficará sempre a meio caminho. Se for “apareço, ocupo e permaneço”, talvez comece a mudar.

 

A voz dos moradores

Durante um encontro informal, uma senhora da Penha conversava com um grupo de estudantes universitários. Um deles, num tom cheio de convicção, comentou como devia ser horrível ver a polícia matar pessoas dentro da comunidade. Ela esperou um instante e respondeu, com uma serenidade quase desconcertante:

“Bala perdida não interessa de onde vem, meu filho. O resultado é o mesmo.”

A mesa ficou em silêncio. Para quem vive entre duas guerras a bala não tem lado, tem destino. Famílias reconhecem o som dos tiros, sabem onde se esconder e aprendem a jantar no silêncio das paredes finas. O morador comum não tem ideologia, tem sobrevivência.

 

O dilema da intervenção policial

A presença policial é inevitável e, muitas vezes, desejada. Quando o poder armado das facções impõe regras e decide quem vive ou morre, a ausência do Estado equivale a abandono completo. Intervir é obrigação, não opção.

Mas o modo dessa intervenção é o impasse. Em 2024 morreram 6.400 pessoas em ações policiais, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A maioria das vítimas estava em áreas pobres e densamente povoadas. No mesmo ano, centenas de agentes também morreram em serviço. São vidas ceifadas dos dois lados, vidas humanas antes de qualquer farda.

A polícia precisa entrar, mas tem de saber por que, para quê e o que fazer depois.

 

O ciclo que não se rompe

A violência não é apenas resultado da pobreza ou da ausência do Estado. É também o produto de um sistema que se alimenta do próprio conflito. Há interesses que lucram com a guerra permanente e há estruturas políticas que se mantêm porque a violência serve de argumento para a sua própria existência. O Estado entra com fuzis, sai com estatísticas e volta, meses depois, com outro nome de operação. Nada se transforma, apenas muda o uniforme.

Enquanto isso, o morador continua preso ao mesmo território e à mesma escolha impossível: confiar num Estado ausente ou num poder paralelo armado. No fim, ambos cobram o mesmo preço, apenas em moedas diferentes.

 

Conclusão

O que se passa nas favelas do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades brasileiras não é exceção, é espelho. A mesma lógica repete-se em diferentes estados, com outros nomes e sotaques, mas com as mesmas ausências. O Estado e o crime disputam o mesmo território, e entre os dois há apenas o morador comum, o agente que não regressa, a criança que aprende a reconhecer tiros antes de sílabas.

A frase daquela senhora, “Bala perdida não interessa de onde vem, meu filho”, resume o país. É a lucidez de quem vive no meio da guerra e sabe que a violência já deixou de ser exceção.

 

 

SILVANA LAGOAS

 

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Silvana Lagoas é mãe a tempo inteiro, autodidata, livre pensadora.
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.