Retrato de Alexis de Tocqueville . Théodore Chassériau . 1850 . Wikipedia

 

Jiang Xueqin, nascido na China e criado no Canadá, é um educador e autor, sediado em Pequim. Jiang é licenciado em Literatura Inglesa pela Faculdade de Yale, universidade a que acedeu através de uma bolsa de estudos e onde se licenciou com distinção em 1999. É especialista em assessorar as escolas chinesas para que integrem a criatividade e o pensamento crítico nos seus currículos e contribui regularmente para os meios de comunicação chineses e internacionais sobre educação e inovação. Jiang palestrou em importantes fóruns internacionais, incluindo o Fórum Global de Educação e Competências (GESF) no Dubai, a Cimeira Mundial de Inovação para a Educação (WISE) em Doha, o Fórum de Inovação dos Alunos para a Educação (LIFE) em Pequim e o Education 360 no Rio de Janeiro.  É membro da Royal Society of Arts (RSA). Lliderou o desenvolvimento de programas inovadores de estudo no estrangeiro em duas das principais escolas públicas da China, a Escola Secundária de Shenzhen e a Escola Secundária da Universidade de Pequim, com foco no desenvolvimento da cidadania global e do pensamento independente entre os estudantes chineses. Em 2014, publicou “China Criativa”, um livro que relata os seus esforços e a sua visão para transformar a educação na China. No seu canal no Youtube, Predictive History, “analisa o passado para prever o futuro”.
O segmento que aqui reproduzimos e sintetizamos foi tirado de uma lição mais ampla sobre democracia e a história dos Estados Unidos que pode ser encontrada aqui.

 

__________

 

“A América é o único país que passou da barbárie à decadência sem civilização pelo meio.”
Oscar Wilde

 

A América, de muitas maneiras, foi concebida como  anti-civilização. Os ‘pais fundadores’ reconheceram as falhas e os problemas da civilização e projectaram uma nova forma de governo baseada nos princípios do Iluminismo, com o fim de redimir a humanidade dos preconceitos e das atrocidades da civilização.

Esse é o mito que o professor Jiang Xueqin analisa criticamente neste clip.

 

 

Para compreender o ideário dos ‘pais fundadores’ e como esse ideário pode ser desmontado, aconselha-se a leitura de Alexis de Tocqueville e da sua obra Da Democracia na América. Apesar de ter sido escrito por um francês, este será o mais famoso livro alguma vez escrito sobre a América. Tocqueville visitou a federação durante oito meses em 1835 e, no seu trabalho, tenta explicar por que a democracia americana funcionava, por que razão existia e estaria destinada eventualmente a conquistar o mundo.

Mas Tocqueville mostra-se em última análise céptico em relação à democracia liberal americana, temendo pelo que que a expansão do modelo iluminista significaria para o mundo.

 

A tirania do homem médio.

A América é realmente o primeiro país dominado pela classe média, a primeira democracia de massas na história universal. Mas, por causa disso, o autor francês desconfiava que as pessoas seriam conduzidas por princípios egoístas, conformistas e deficitários em criatividade. Com a expansão que considerava inevitável deste axioma político, o mundo tornar-se-ia atomizado, uniforme e medíocre. Atomizado porque os cidadãos viveriam na sua própria bolha, não se preocupando realmente com questões transcendentes à esfera da sua burguesia. Uniforme porque todos são formatados a pensar da mesma maneira. Medíocre porque assim ninguém está a esforçar-se para alcançar a grandeza.

Se pensarmos bem sobre as palavras do politólogo francês, o mundo em que vivemos hoje, no ano de 2025, bate muito certo com as suspeitas dele. É um mundo atomizado, uniforme e medíocre. Mas como é que isso aconteceu?

Para entendermos o processo é importante escarafunchar sobre o que significa ser da classe média. A classe média é distinta porque cria ansiedade, incerteza e competição na vida dos indivíduos. A ansiedade vem do facto de a sua situação nunca ser estável. Podemos ser ricos amanhã, mas podemos ser pobres no dia seguinte. Esta circunstância é diferente do que aconteceu na maior parte da história das sociedades em que aqueles que nasciam pobres permaneciam pobres e os que nasciam ricos, ricos se mantinham.

Um nobre até podia descer à falência material, mas o seu estatuto social permanecia praticamente inalterado e esse indivíduo sabia até que podia transmiti-lo para os seus filhos e netos. Neste contexto, há certezas no mundo. Mas se o sistema social for dominado pela classe média, um proprietário de uma fábrica pode ser acabar na destituição. Um novo rico, pode perder tudo na bolsa e voltar a ser pobre: é uma aflição constante.

Isto cria ansiedade e incerteza também porque o estatuto não é dado, mas deve ser conquistado. Há competição entre os membros da classe média para lutar pelo status. E isso cria transtornos obsessivo-compulsivos e leva a um controlo maníaco de si mesmo, e a um desejo de acumular e realizar.

Basta pensar num dos pais da federação americana: Benjamin Franklin passou a vida concentrado em ganhar dinheiro e acumular sucesso. E por que razão era ele obcecado com essas conquistas materiais? Por causa da ansiedade de ser da classe média. Nasce-se pobre. Ganha-se muito dinheiro. Mas como saber que não se regressa à miséria? Como saber que os nossos filhos não vão tornar a ser pobres? Afinal, tudo é possível. Se alguém que nasce pobre pode vir a ser rico, um rico pode com a mesma naturalidade perder a sua fortuna.

A única forma de resolver esta ansiedade é acumulando cada vez mais. Em teoria, uma sociedade tão democrática poderia até ser menos brilhante do que uma aristocracia, mas teria necessariamente menos atormentada pela miséria. Os prazeres seriam menos extremos, a prosperidade mais geral, a erudição seria menos exaltada, mas a ignorância mais rara. Os sentimentos seriam menos apaixonados e os hábitos mais suaves. Haveria mais vícios, mas menos crimes. Mais hobbys, mas menos perversões. Portanto, numa sociedade dominada pela classe média, ninguém é desmesuradamente rico, mas também ninguém é insustentavelmente pobre. Os cidadãos não são tão talentosos, mas também não são assim tão medíocres. Se nascemos numa sociedade democrática, temos muito mais probabilidade de viver uma vida feliz do que se tivéssemos nascido numa sociedade aristocrática. Essa é a teoria da democracia. E em teoria, soa melhor. Mas na prática as coisas não são exactamente assim.

De facto, Tocqueville passou muito tempo a analisar a América e concluiu que não foi isto que aconteceu. Ao rejeitar o modelo político e social e económico do antigo regime ​​e deixar de lado essas instituições, ideias e princípios morais, o que é que foi colocado no seu lugar? A Revolução Americana destruiu a tradição, em certo sentido – o epistemológico – destruiu a civilização, mas falhou em construir novas tradições e nova civilização. O prestígio do poder evaporou-se, mas a majestade da lei falhou em ocupar o seu lugar. O rei fez-nos obedientes à sua lei. Mas quando nos livramos do rei e dizemos “vamos manter a lei” sobra um problema: é que as pessoas respeitam e reverenciam aqueles que são superiores a elas. Elas não respeitam e reverenciam ideias, coisas e leis.

Assim, em teoria, a América é uma nação de Estado de Direito, mas as pessoas não compreendem realmente estas leis e não as reverenciam tanto como a um homem superior. Tocqueville calcula que ao erradicar aqueles indivíduos que tinham a coragem de lutar contra a tirania por conta própria, aquilo com que ficamos é com uma sociedade entregue à ditadura da maioria. Na democracia, o que acontece é que os grandes indivíduos, capazes de acções transcendentes, são oprimidos pelo conformismo que reina em vez do rei.

Na sociedade da classe média média não nos é permitido questionar a opinião popular e, por isso, nenhum grande homem pode surgir. E se pensarmos bem, na história americana não há muitos grandes indivíduos. É um grande país. É muito rico. Mas não proliferam os grandes homens. O que também é único na América é que as pessoas que são veneradas não são generais, não são líderes políticos, mas sim empresários. Henry Ford, Thomas Edison, J.P. Morgan. Todos são empresários. E se pensarmos em Jeff Bezos, Mark Zuckerberg ou Elon Musk, podemos considerar que são grandes empresários. Mas dificilmente podemos classificá-los como grandes homens.

 

A profecia e a tragédia.

No Antigo Regime, o homem pobre agarrava-se ao seu Deus, às virtudes cristalizadas por um esquema moral inalterável, aos valores iniciáticos da nação, da história e de uma cultura partilhada, aos seus antepassados e ao seu legado para o futuro – a prole. A Igreja Católica era problemática. A Europa Medieval era problemática. Mas pelo menos as pessoas sabiam como viver a vida e o que esperar dela, sendo que o cristianismo lhes garantia a redenção. Agora, uma pessoa pobre está completamente perdida no sistema. Espera-se que tenha as suas próprias virtudes. Espera-se que descubra o seu próprio propósito na vida. Mas numa sociedade sem Deus, sem pátria, sem tradição, com virtudes subjectivas e famílias em desintegração, o destino é a alienação.

Neste contexto, Tocqueville descreve uma América que podia ser a contemporânea:

Vejo pessoas que, em nome do progresso, procuram reduzir os homens a seres materiais. Procuram o que é útil sem preocupação com o que é justo. Buscam a ciência separada da fé e a prosperidade separada da virtude. Tendo-se auto-denominado como campeões da civilização moderna, colocaram-se arrogantemente à sua frente, usurpando uma posição abandonada por outros, a qual eles próprios são totalmente indignos de ocupar.”

Este é o problema supremo da América. Antes, na civilização, as pessoas eram convidadas a morrer pela sua nação. Agora são convidadas a ganhar dinheiro, a comprar coisas e a experimentar prazeres. Neste sistema, os piores ascendem ao poder, os melhores são espezinhados pelo conformismo. O politólogo adivinha assim um novo modelo totalitário, interpretado por homens menores, preocupados apenas em satisfazer os desejos espúrios que a sociedade promove:

“Estou a tentar imaginar que novas características o despotismo pode ter no mundo de hoje. Vejo uma inumerável multidão de homens, todos semelhantes e iguais, correndo incessantemente atrás de prazeres mesquinhos e vulgares com que enchem as suas almas. Sobre estes homens está um imenso poder tutelar que assume a responsabilidade exclusiva de garantir os seus prazeres e zelar pelo seu destino.”

Pense na sociedade em que vivemos hoje. Ninguém nos pede para nos sacrificarmos pela civilização. Para trabalharmos em favor do bem comum. Agora espera-se de nós apenas o consumo e a obediência às leis do mercado (que são muito próximas das leis da própria democracia). E se a felicidade foi determinada em função de índices de consumo, é responsabilidade do governo garantir que podemos comprar coisas. Esse é o mundo em que vivemos hoje.

Achamos que vivemos em democracia e que a democracia é o melhor sistema de governação possível. Acreditamos que temos uma voz, e que o nosso voto, como as coisas que compramos, têm a sua influência na forma como somos governados e como somos apetrechados de artefactos. Mas na verdade é a burocracia imperial, monstruosa e volátil, que está aos comandos dos nossos desejos e das nossas projecções oníricas.

“É impossível acreditar que um governo liberal, enérgico e sábio possa emergir do equilíbrio de uma nação de servos. Se é um consumidor, se tudo o que lhe importa é comprar coisas, é apenas um escravo. A possibilidade de uma constituição ser republicana na sua essência e ultra monárquica em todas as suas outras partes sempre me pareceu monstruosa e efémera. O vício dos que governam e a imbecilidade dos governados rapidamente trariam a sua ruína e o povo cansado dos seus representantes e de si mesmo criaria instituições livres ou logo voltaria a prostrar-se diante do destino aos pés de um único senhor.”

Esta passagem é claramente profética. A América, da forma que está estruturada, da forma que é concebida, não é sustentável a longo prazo. Desintegrar-se-á numa guerra civil ou um tirano surgirá. Tornar-se-á uma monarquia. Essa é a profecia negra de Tocqueville para os Estados Unidos.

 

Civilização, anti-civilização e jogo.

Mas afinal de contas, o que é a civilização? É história, cultura e valores de tal forma partilhados por um povo que todos entendem que o propósito da sua vida é manter, proteger e defender o sistema. Um legionário romano, por exemplo, estava preparado psicologicamente para entregar à defesa do império 20 anos da sua vida, na melhor das hipóteses e se sobrevivesse à brutal experiência militar.

Mas há certos problemas com a civilização que surgem com o tempo. O primeiro, claro, é a ideia de preconceito. Acreditamos que a nossa civilização é superior às outras civilizações.

Esse preconceito leva à guerra, à violência e a índices deficitários de inovação. Leva também e naturalmente a uma firme guarda das fronteiras e a limites à imigração. Mas isso é um problema para a América. Porquê? Porque a América foi fundada por imigrantes. É e sempre foi bem diversa, um melting pot onde se misturam diferentes religiões, etnias e culturas. O que implica também uma diversidade de pontos de vista sobre o que é e o que deve ser a nação, bem como quais são e quais devem ser os seus princípios fundamentais.

A diversidade e uma política de fronteiras permissiva é uma das características fundamentais dos Estados Unidos. Dado o seu carácter cosmopolita, a sua extensão territorial e a riqueza dos seus recursos naturais, a federação esteve sempre, e está ainda hoje, a tentar receber imigrantes para desenvolver o seu potencial. É e sempre foi uma nação aberta porque precisou e precisa de roubar ideias e pessoas da Europa, primeiro, da Ásia, depois.

Esta filosofia traz inevitavelmente problemas graves em termos de unidade nacional e coesão cultural que o velho conceito de civilização não pode resolver. Então, o que fazer para criar uma sociedade? Em vez de construir uma civilização, cria-se um jogo.

A anti-civilivilização americana é um jogo, cujas regras são descritas na Constituição. Primeiro, o jogo precisa de ter um júri. O jurí é o governo federal. Mas para o jogo funcionar, ele tem de ser justo. Tem de ser limpo. Tem de ser possível que seja ganho por qualquer jogador. Só jogamos jogos se acharmos que a sua mecânica é justa, compensadora e transparente. Portanto, o nosso governo deve ser justo, transparente e democrático para que o maior número possível de pessoas jogue este jogo. Uma vez que o governo está no poder, agora o que fazemos é criar as regras para que o júri seja justo e imparcial.

O objectivo deste jogo é ganhar o máximo de dinheiro possível. O dinheiro ganho é seu porque uma das regras básicas do jogo é a protecção da propriedade privada. Este é um jogo que a América construiu. Se pensarmos bem, isto é óptimo porque agora podemos trazer quantos imigrantes quisermos, porque tudo o que eles fazem é jogar este jogo e toda a gente está de acordo sobre os seu princípios básicos, independentemente da etnia, da cultura, da língua, da religião. Todo o mundo quer jogar este jogo. É isto que a América é.

 

Os dados viciados do monopólio globalista.

A América vê-se como uma nova civilização, mas é na verdade uma anti-civilização porque não passa realmente de um jogo e de um jogo que tem como objectivo apenas a aquisição de valores materiais. Com o tempo, a federação tornou-se cada vez mais rica e influente, capaz de levar todo o mundo a jogar o jogo que propõe. Até na China contemporânea, a última das civilizações, se joga o jogo norte-americano.

O problema deste jogo é que, eventualmente, e contra a sua própria promessa, uns poucos ganharão tudo. O jogo da América é afinal uma réplica à escala global do Monopólio, que aumenta massivamente a desigualdade no mundo e privilegia uma elite de ambições globalistas. E quando as pessoas percebem que é isso que acontece, pensam:

“Este jogo é uma merda. O que é que vamos fazer agora?”

E concluem:

“Sabes que mais? Sinto falta da civilização. Tenho saudades de quando a minha identidade era clara e os meus valores permaneciam sobre o tempo. Quando sabia bem o que tinha de fazer na vida, quando me pediam para fazer sacrifícios pelo bem maior. Sinto falta disso.”

O resultado é MAGA, certo? Em última análise, o movimento MAGA visa tentar restaurar a ideia de civilização na América. Tornar a América grande outra vez. Transformar a América numa nação cristã, novamente. Restaurar a visão de Thomas Jefferson.

Acontece que a América, como Tocqueville bem notou, nunca foi nada disso.