Com base nos desenvolvimentos mais recentes — incluindo a reunião entre Trump e Zelensky na Casa Branca a 17 de outubro de 2025, e a conversa prévia entre Trump e Putin —, podem aprofundar-se alguns pontos, confirmando e contextualizando a situação tal como a conhecemos e interpretando os factos mais recentes

Esta fase marca, de facto, no nosso entender, uma inflexão, onde a diplomacia de alto nível parece dar prioridade ao desanuviamento sobre o reforço militar imediato.

 

A Mudança de Trump: Da Ameaça à Prudência

Inicialmente, Trump flutuou em relação ao apoio à Ucrânia, sugerindo inclusive a possibilidade de fornecer mísseis Tomahawk de longo alcance (i.e., com alcance superior a 1.600 km) para pressionar Putin a negociar. Numa declaração a bordo do Air Force One, a 12 de outubro, Trump indicou que poderia dar um “ultimato” a Putin: retomar negociações sérias ou enfrentar o envio desses mísseis, que permitiriam à Ucrânia atingir alvos profundos na Rússia, como infraestruturas energéticas.

Esta retórica alinhava-se com a estratégia inicial: vendas indirectas de armamento aos aliados europeus, beneficiando a indústria de defesa dos EUA (que gerou milhares de milhões de dólares em contratos desde 2022).No entanto, a conversa surpresa com Putin a 16 de outubro alterou o tom. Putin argumentou que os Tomahawk representariam uma “escalada qualitativamente nova”, danificando as relações EUA-Rússia e exigindo possivelmente operação por americanos — um risco que Trump, atento aos perigos nucleares, parece ter internalizado. Por outras palavras, Putin invocou o risco existencial para a Rússia do emprego desses mísseis.

Na reunião com Zelensky, Trump não fechou a porta, mas sublinhou: “É melhor acabar com esta guerra sem Tomahawks. Acho que estamos perto disso.”

Instou ambas as partes a “parar o combate imediatamente”, mesmo que isso implique concessões territoriais ucranianas, e confirmou um encontro com Putin em Budapeste nas próximas semanas para discutir o fim do conflito.

Esta reviravolta consiste no fundo numa “reconsideração estratégica”: Trump, apesar da imagem errática, quer, acima de tudo, evitar um envolvimento directo dos EUA, alinhando-se involuntariamente à doutrina Biden de não cruzar “linhas vermelhas” russas. O Pentágono reforça esta prudência. Desde agosto, revogou autorizações para ataques profundos com mísseis ATACMS (alcance de 300 km), visando atrair Putin para negociações, embora tenha aprovado vendas de mísseis ERAM de médio alcance (400 km).
Esta contenção reflecte décadas de experiência em gerir potências nucleares.

 

A Apreensão de Zelensky e os Esforços Diplomáticos

Zelensky, de facto, enfrenta um dilema agudo. Na Casa Branca, propôs uma “troca”: drones ucranianos por Tomahawks, argumentando que esses mísseis poderiam “virar a maré” contra a economia de guerra russa.

Todavia, saiu sem compromissos firmes, admitindo ser “realista” sobre a escalada.

Após a reunião, Zelensky ligou a líderes europeus, reiterando as suas “apreensões” ou seja: sem o apoio inabalável dos EUA, o presidente ucraniano teme negociações que legitimem perdas territoriais (como o Donbass e a Crimeia) – o que, realisticamente é, em termos práticos, um dado adquirido. Os seus esforços diplomáticos multiplicam-se. Em entrevistas recentes, Zelensky elogiou o sucesso de Trump no Médio Oriente (o cessar-fogo Israel-Hamas) como modelo para a Ucrânia, sugerindo até nomeá-lo para o Nobel da Paz se pressionar Putin efectivamente.

Em paralelo, intensifica contactos em Bruxelas e Londres, onde líderes como Keir Starmer e Emmanuel Macron prometem um pacote de ajuda europeia de dezenas de milhares de milhões de euros, incluindo a produção conjunta de munições.

No entanto, é sempre de realçar, que a Europa permanece dividida: a Alemanha hesita em envios massivos, e a Hungria de Orbán bloqueia consensos na UE. Nas redes como o X (antigo Twitter), reações a estes eventos são polarizadas. Os críticos acusam Trump de ser “manipulado” por Putin, com posts como: “Putin disse não aos mísseis, Trump obedeceu — o que ele tem sobre ele?”

Outros veem uma ironia cruel no encontro Trump-Putin em Budapeste, local do memorando de 1994 que “garantia” a segurança ucraniana em troca de desnuclearização.

 

A Europa: Reactividade e Limites

Afirmar que a Europa tem pouca influência e apresenta-se dividida é exacta, a bem dizer uma verdade de La Palice. Apesar de retórica forte — Macron fala em “Europa poderosa, agora mais do que nunca” —, a dependência da NATO limita ações autónomas.

A UE discute aumentar a produção de defesas aéreas e artilharia, mas os stocks europeus esgotam-se, e economias como a alemã lutam com a recessão. Ainda assim, espera-se algum “protagonismo simbólico”: cimeiras em Londres e Paris visam apresentar um plano de paz conjunto aos EUA, forçando Trump a considerar concessões mínimas a Kiev. Mas será que pesam na balança?

 

Trump e o Horizonte Mais Amplo: a China como Prioridade

O cálculo de Trump — encerrar “dossiês sensíveis” como a Ucrânia e Gaza antes do encontro com Xi Jinping — alinha-se perfeitamente com a doutrina “América Primeiro”. Libertar recursos para conter a China (económica, tecnológica e militar) é, para ele, a “prioridade absoluta”. Isto transforma o conflito ucraniano num peão num “tabuleiro mais vasto”, como diz: não só Kiev vs. Moscovo, mas um equilíbrio global onde a Rússia serve de contrapeso à ascensão chinesa. Putin sabe disto e usa-o, adiando negociações enquanto avança no terreno (captura de três aldeias no Donbass em outubro).

Em resumo, a “nova fase” é real e frágil: uma janela para a diplomacia, mas com risco de concessões ucranianas que perpetuem a instabilidade. Zelensky joga com cartas limitadas, apostando na pressão europeia e no ego de Trump por “vitórias rápidas”. Se o encontro em Budapeste falhar, poderemos ver uma reversão — talvez os Tomahawks como “chantagem final”. O que pensa: será esta prudência de Trump uma vitória estratégica ou um sinal de fraqueza face a Putin?

 

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.