Never Mind – Nirvana

Cabum: entra em palco o rei suicida, que trocou a guitarra por um lança-chamas e fez disso o seu totem. Disso e da heroína, claro. “Nevermind”, o segundo dos breves 3 discos de estúdio dos Nirvana, vem gravado em aço inoxidável que os ácidos versos de Cobain não conseguem corroer. Não pode ser uma coisa mais desiludida com a existência, mais despreocupada com a conta da electricidade ou mais dentro do cânone grunge que rebentava na altura entre Seattle e São Francisco. É um disco eterno e eu, que sempre tive pancada por bandas de 3 músicos apenas, acho que esta é das melhorzinhas que há.

 

Siamese Dream – Smashing Pumpkins

Este é muito provavelmente o disco de rock que mais amei na vida. E que mantém o poder de me transportar no tempo. Lembro-me por exemplo e como se fosse hoje de uma noite diluviana, na apinhada Praça de Touros de Cascais: Billy Corgan diz que a música pode fazer parar a chuva. Toca os primeiros acordes de “Today” e a chuva cessa. A praça de touros entra em êxtase, numa moche compacta de 15.000 macacos e este foi o mais belo concerto a que alguma vez assisti e eu fui a muitos, mas mesmo muitos concertos. No terceiro encore, a banda começa a tocar sem D’arcy Wretzky-Brown, a baixista, que quando retoma o seu lugar em palco, interrompe toda a gente, furiosa, porque os homens não conseguem entender que ao fim de 3 horas de sublime selvajaria, uma rapariga precisa de ir à casa de banho.
Saí deste concerto a desconfiar que Deus toca guitarra. Eléctrica.
“Siamese Children” não tem comparação com nada. Os Smashing Pumpkins não têm comparação com ninguém. Os meus tímpanos estão sempre com saudades deles. E volto a este disco – e aos outros todos que eles gravaram entre 1991 e 2000 – recorrentemente, para aliviar a dor. Para recuperar a glória.
O Rock é isto e o resto é conversa.

 

Jar of Flies – Alice in Chains

“And yet I find
Repeating in my head
If I can’t be my own
I’d feel better dead”

Mais Grunge porque estamos em 1993 e o que está a dar é isto: Alice no País das Moscas. Alice, nascida e acorrentada em Seattle, muito mais lixada com o destino do que a personagem original, mas, surpreendentemente, com um balanço redentor, que esmaga qualquer bruxa de copas, qualquer varejeira rainha que se apresente à frente de um par de colunas. “Jar of Flies” é uma coisa danada. Como é que criaturas que gostam tão pouco de viver – e de si próprias – conseguem criar música tão fixe? A filosofia não sabe explicar isto e a ciência muito menos. É um mistério. Os Alice In Chains são impossivelmente uma boa dor de cabeça. Impossivelmente uma ressaca agradável. Um suicídio que corre mal, felizmente. E trazem à sua dedicada audiência uma verdade certeira: a música resolve muita coisa. Se calhar e lá muito de vez em quando, até resolve a vida.

 

 

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