
Não é, ou não deve ser, novidade nenhuma que as pessoas que lideram a indústria da Inteligência Artificial (IA) não tenham os melhores interesses da humanidade em mente. Mas algumas delas, na verdade, não se preocupam sequer com o facto de podermos ser subjugados, substituídos ou extintos pelas máquinas que estão a criar.
Num ensaio para o Wall Street Journal, o autor David A. Price chama às figuras da tecnologia neste campo “alegres apocalípticos”. E a sua filosofia parece ser a de que, aconteça o que acontecer, as formas de vida artificiais avançadas devem ser libertadas — e se nos superarem ou suprimirem, que assim seja.
Price escreve:
“Estava habituado a pensar nos líderes e investigadores de IA em termos de dois grupos: de um lado, optimistas que acreditavam que não havia problema em ‘alinhar’ os modelos de IA com os interesses humanos e, do outro, pessimistas que queriam fazer uma pausa antes que as IA superinteligentes e rebeldes nos exterminassem. Ora, aqui está este terceiro tipo de pessoa, a perguntar: qual é o problema, afinal?”
Os alegres apocalípticos têm um defensor distinto (ou retardado, dependendo da perspectiva): Richard Sutton, um dos principais investigadores na área da IA e vencedor do Prémio Turing do ano passado, o mais prestigiado prémio da ciência da computação.
Numa entrevista, Sutton comparou a educação de IA a ter filhos.
“Quando tem um filho, gostaria de ter um botão que, se ele fizer algo de errado, possa desligá-lo? Essa é grande parte da discussão sobre a IA. Presume-se que queremos ser capazes de o controlar”.
Nenhum pai são de cabeça e consciência quer esse botão que Sutton julga desejável, talvez porque o tecnólogo não tem filhos. Mas adiante:
Sutton defende que não há nada de “sagrado” na humanidade e na nossa forma de vida biológica e frágil. A maioria das espécies extingue-se, e os humanos não são excepção.
“Somos a parte mais interessante do universo agora. Mas pode chegar um momento em que já não seremos a parte mais interessante. Se é realmente verdade que estamos a impedir o universo de ser o melhor universo possível, acho que está tudo bem”.
Só um ateu de alma completamente obliterada, só um homem realmente desesperado e quebrado, sem um vestígio de plataforma moral, pode dizer uma coisa destas.
Sutton é uma figura venerada na área, mas não é alguém que dê as ordens às grandes empresas tecnológicas ou que desenha os seus modelos de IA. Graças a Deus.
Mas para espreitar os bastidores desta área tecnológica, podemos recorrer a Jaron Lanier, uma figura fundadora no campo da tecnologia de Realidade Virtual e um crítico acérrimo de Silicon Valley. Como alguém profundamente inserido nos círculos de Silicon Valley, Lanier disse ao WSJ que muitos investigadores de IA se queixam de que as pessoas estão demasiado comprometidas com a espécie humana.
“Em Silicon Valley há um sentimento de que as pessoas não são de confiança neste tópico porque estão infestadas por um vírus mental repreensível, que as leva a favorecer a humanidade em detrimento da IA, quando claramente o que deveríamos fazer é sair do caminho”.
Lanier acrescenta:
“O número de pessoas que defendem esta crença é pequeno, mas estão em posições de grande influência. Portanto, não é algo que se possa ignorar”.
Outro defensor da supremacia das máquinas é Larry Page, cofundador e ex-CEO da Google. Numa festa de aniversário de Elon Musk, em 2015, defendeu que “a vida digital é o próximo passo natural e desejável na evolução cósmica”, segundo recordou o professor do MIT, Max Tegmark, no seu livro “Vida 3.0”.
O prúprio Musk testemunhou em conversa com Tucker Carlson que Larry Page o tinha acusado de ser um “especista” (ou seja, de defender a espécie humana), apenas porque o patrão da Tesla estava preocupado com potenciais ameaças ao bem estar da humanidade que a Inteligência artificial poderia representar (entretanto, também ele já mudou de ideias).
Outros são ainda mais directos na sua posição pró-algoritmo. Veja-se Daniel Faggella, um tresloucado empreendedor de IA que defende que o propósito do desenvolvimento da tecnologia deve ser criar um “sucessor digno” para a humanidade, até porque:
“A origem eterna de todo o valor moral até à morte térmica do universo não será a porcaria dos polegares opostos.”
Outro ateu com um profundo desprezo pela humanidade.
Há um problema crítico em tudo isto: os proponentes retratam o Sapiens como um trampolim descartável em direcção a formas de vida artificiais superiores, sem saberem na verdade que género de criatura é que estão a criar e muito menos tendo consciência de que reais imperativos presidem à grande dinâmica cósmica. Esta gente sabe escrever linhas de código, ponto. Não são propriamente sábios, filósofos, profetas ou coisa que o valha. E uma vez que o panorama actual de como a indústria da IA está a moldar o mundo é incrivelmente sombrio, desde o seu desastroso impacto ambiental e energético até à distópica indústria de vigilância massiva que estão a criar, se calhar o melhor era termos cuidado com eles. Muito cuidado mesmo.
E para percebermos a ameaça, basta fazer este exercício intelectual: se dissermos que um determinado grupo de pessoas deve morrer, com base na sua etnia, religião ou cultura, seremos, muito justamente, acusados de um perigoso e deplorável extremismo. Mas então, se dissermos que, não um grupo específico, mas toda a humanidade deve perecer, não devemos também ser condenados por loucura genocida?
O ContraCultura tem advertido repetidamente os seus gentis e pacientes leitores que o transhumanismo é o último passo do globalismo: a solução final. Os testemunhos destes tecnólogos destituídos de qualquer senso ético e profundamente carregados de um luciferino desprezo pelo ser humano, dão a prova provada que nos devemos preocupar deveras com aquilo que nos corredores de Silicon Valley nos estão a reservar para um futuro a curto e médio prazo.
Porque é, de facto e declaradamente, a sobrevivência da humanidade que está em jogo.
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