O CEO do Telegram publicou na quarta-feira passada um poderoso e arrepiante manifesto, por ocasião do seu 41º aniversário, que pode ficar para a história como uma espécie de ‘célebres e últimas palavras’; uma elegia por um modelo civilizacional que está claramente em estado comático.
Durov diz que estamos a ficar sem tempo. Mas será que ainda vamos a tempo?
I’m turning 41, but I don’t feel like celebrating.
Our generation is running out of time to save the free Internet built for us by our fathers.
What was once the promise of the free exchange of information is being turned into the ultimate tool of control.
Once-free countries…
— Pavel Durov (@durov) October 9, 2025
Pavel Durov foi detido em 2024 pelas autoridades francesas, que o acusaram, de forma draconiana, de potenciais crimes que ele não cometeu, mas que, cometidos por outros, possam ter sido auxiliados pela utilização do Telegram. Para percebermos a bestialidade desta acusação basta pensarmos que os patrões de plataformas conhecidas por promoverem e permitirem a actividade pedófila, como o Instagram e o Tik Tok, nunca foram incomodados pelas autoridades francesas.
Durov foi perseguido pelo regime Macron pelo simples facto de se recusar a quebrar a confidencialidade que a sua plataforma promete aos utilizadores, permitindo que as forças de segurança do Estado francês censurassem e acedessem a conversas privadas que ocorrem no Telegram, sem mandato judicial.
A mensagem, se bem que breve, é poderosa, e se bem que sombria, é clarividente, abrangendo até a ameaça do transhumanismo, quando sugere que o caminho que agora percorremos nos poderá levar até à extinção biológica. Pelo seu impulso dramático e lúcido, o texto merece o destaque do Contra e uma versão em português.
Faço 41 anos, mas não estou com vontade de celebrar.
A nossa geração está a ficar sem tempo para salvar a internet livre que os nossos pais construíram para nós.
O que antes era a promessa de livre troca de informação está a transformar-se na ferramenta suprema de controlo.
Países anteriormente livres estão a introduzir medidas distópicas, como identidades digitais (Reino Unido), verificações de idade online (Austrália) e vigilância em massa de mensagens privadas (UE).
A Alemanha está a perseguir qualquer pessoa que ouse criticar as autoridades na internet. O Reino Unido está a prender milhares pelos seus tweets. A França está a investigar criminalmente os líderes tecnológicos que defendem a liberdade e a privacidade.
Um mundo sombrio e distópico aproxima-se rapidamente, enquanto dormimos. A nossa geração corre o risco de ficar para a história como a última que teve liberdades — e permitiu que elas fossem retiradas.
Fomos alimentados com uma mentira.
Fomos levados a acreditar que a maior luta da nossa geração é destruir tudo o que os nossos antepassados nos deixaram: tradição, privacidade, soberania, mercado livre e liberdade de expressão.
Ao trairmos o legado dos nossos antepassados, colocamo-nos no caminho da autodestruição — moral, intelectual, económica e, em última análise, biológica.
Por isso, não, não vou celebrar hoje. Estou a ficar sem tempo. NÓS estamos a ficar sem tempo.
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