O CEO do Telegram publicou na quarta-feira passada um poderoso e arrepiante manifesto, por ocasião do seu 41º aniversário, que pode ficar para a história como uma espécie de ‘célebres e últimas palavras’; uma elegia por um modelo civilizacional que está claramente em estado comático.

Durov diz que estamos a ficar sem tempo. Mas será que ainda vamos a tempo?

 

 

Pavel Durov foi detido em 2024 pelas autoridades francesas, que o acusaram, de forma draconiana, de potenciais crimes que ele não cometeu, mas que, cometidos por outros, possam ter sido auxiliados pela utilização do Telegram. Para percebermos a bestialidade desta acusação basta pensarmos que os patrões de plataformas conhecidas por promoverem e permitirem a actividade pedófila, como o Instagram e o Tik Tok, nunca foram incomodados pelas autoridades francesas.

Durov foi perseguido pelo regime Macron pelo simples facto de se recusar a quebrar a confidencialidade que a sua plataforma promete aos utilizadores, permitindo que as forças de segurança do Estado francês censurassem e acedessem a conversas privadas que ocorrem no Telegram, sem mandato judicial.

A mensagem, se bem que breve, é poderosa, e se bem que sombria, é clarividente, abrangendo até a ameaça do transhumanismo, quando sugere que o caminho que agora percorremos nos poderá levar até à extinção biológica. Pelo seu impulso dramático e lúcido, o texto merece o destaque do Contra e uma versão em português.

 

Faço 41 anos, mas não estou com vontade de celebrar.

A nossa geração está a ficar sem tempo para salvar a internet livre que os nossos pais construíram para nós.

O que antes era a promessa de livre troca de informação está a transformar-se na ferramenta suprema de controlo.

Países anteriormente livres estão a introduzir medidas distópicas, como identidades digitais (Reino Unido), verificações de idade online (Austrália) e vigilância em massa de mensagens privadas (UE).

A Alemanha está a perseguir qualquer pessoa que ouse criticar as autoridades na internet. O Reino Unido está a prender milhares pelos seus tweets. A França está a investigar criminalmente os líderes tecnológicos que defendem a liberdade e a privacidade.

Um mundo sombrio e distópico aproxima-se rapidamente, enquanto dormimos. A nossa geração corre o risco de ficar para a história como a última que teve liberdades — e permitiu que elas fossem retiradas.

Fomos alimentados com uma mentira.

Fomos levados a acreditar que a maior luta da nossa geração é destruir tudo o que os nossos antepassados ​​nos deixaram: tradição, privacidade, soberania, mercado livre e liberdade de expressão.

Ao trairmos o legado dos nossos antepassados, colocamo-nos no caminho da autodestruição — moral, intelectual, económica e, em última análise, biológica.

Por isso, não, não vou celebrar hoje. Estou a ficar sem tempo. NÓS estamos a ficar sem tempo.