A França mergulhou num caos político ainda mais profundo, na segunda-feira, após a demissão do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, que abandonou o cargo apenas 27 dias depois de ter tomado posse, tornando-se o primeiro-ministro com o mandato mais curto na história moderna de França.
O seu governo entrou em colapso poucas horas após ter anunciado as nomeações para o executivo, deixando o Presidente Emmanuel Macron a lutar para restaurar a estabilidade, dados os crescentes apelos para eleições antecipadas.
A saída repentina de Lecornu marca a quinta mudança de primeiro-ministro sob o comando de Macron em apenas dois anos. A sua demissão ocorreu após uma forte reacção negativa ao seu recém-anunciado gabinete, que irritou tanto a esquerda como a direita por ser, dependendo das facções, demasiado conservador ou excessivamente globalista.
Un gouvernement vient d’être nommé.
Conformément à mes engagements, il rassemble et ressemble au socle commun qui nous soutient au Parlement. Pas de surprise.
Ces ministres auront la mission difficile de donner un budget au pays avant le 31 décembre et de servir la France.…
— Sébastien Lecornu (@SebLecornu) October 5, 2025
EN DIRECT | Déclaration du Premier ministre. https://t.co/2pkRDWyuKF
— Gouvernement (@gouvernementFR) October 6, 2025
Numa breve declaração, Lecornu explicou que não poderia continuar nas actuais condições políticas, afirmando:
“Ser primeiro-ministro é uma tarefa difícil. Não se pode ser primeiro-ministro quando as condições não são adequadas.”
Citando os seus esforços falhados para governar sem se basear no artigo 49.3 — uma cláusula constitucional de emergência que permite a aprovação de leis sem votação parlamentar —, acrescentou:
“Certos partidos políticos fingiram não ver a mudança, a ruptura representada pela não utilização do artigo 49.3.”
Apenas 14 horas se passaram entre o anúncio de Lecornu da nomeação dos ministros do seu novo governo e o seu discurso de demissão.
Impressionante.
Após a demissão de Lecornu, o líder do Rassemblement National (RN), Jordan Bardella, exigiu novas eleições, declarando:
“Não pode haver estabilidade restaurada sem o regresso às urnas e sem a dissolução da Assembleia Nacional. O Rassemblement National estará pronto para assumir as suas responsabilidades e governar se o povo francês lhe conceder a maioria.”
Marine Le Pen foi mais longe, dizendo que “não há solução, não haverá amanhã”, e instou Macron a dissolver o parlamento, acrescentando que a demissão do próprio presidente seria “sábia”.
Il n’y a pas de solution, il n’y en aura pas demain : j’appelle le président de la République à dissoudre l’Assemblée nationale. pic.twitter.com/z9TfxNK8ke
— Marine Le Pen (@MLP_officiel) October 6, 2025
Na extrema-esquerda, o líder do La France insoumise (LFI), Jean-Luc Mélenchon, classificou a saída de Lecornu como “a prova final do fracasso de Macron” e exigiu que a Assembleia Nacional aprovasse uma moção para destituir o presidente.
“Após a demissão de Sébastien Lecornu, pedimos a consideração imediata da moção apresentada por 104 parlamentares para a destituição de Emmanuel Macron.”
O deputado da LFI, Louis Boyard, repetiu que “chegou a hora da Sexta República”, alertando ameaçadoramente que “Macron deve demitir-se ou o povo obrigá-lo-á a sair”.
Éric Ciotti, líder da União da Direita e do Centro (LRLC), disse que Macron “precisa de aprender as lições deste caos. Quando há uma crise, a única solução são as eleições”. Acrescentou ainda que “o melhor seria, naturalmente, uma eleição presidencial”, decisão óbvia a que Macron tem resistido.
A crise mais recente deixou a aliança globalista do Anão Napoleão em desordem, com as sondagens a mostrarem que o presidente está a pagar o preço da sua incompetência. De acordo com os dados actuais, o Rassemblement National lidera com 32% das intenções de voto, seguido pela Nouveau Front Populaire, de esquerda, com 25%, pela coligação Enseble de Macron com 15% e pelo Les Républicains com 12%.
O impasse político e a paralisia governamental dos últimos anos têm tido teve um profundo efeito de cascata na economia francesa. A dívida pública disparou para 113,9% do PIB e o seu défice público é quase o dobro do limite de 3% da UE.
É agora óbvio que o problema francês passa pelo inquilino do Palácio do Eliseu e que a solução para o país é a convocação de eleições presidenciais, e não por mais um ronda de legislativas.
_________
Actualização às 23h30:
Já durante a noite de segunda-feira, Lecornu publicou no X uma mensagem ambígua, sugerindo que estará ainda a tentar salvar o seu governo:
“Aceitei o pedido do Presidente da República para realizar as discussões finais com as forças políticas em prol da estabilidade do país. Informarei o Chefe de Estado na quarta-feira à noite se tal é possível ou não, para que possa tirar todas as conclusões necessárias.”
J’ai accepté à la demande du Président de la République de mener d’ultimes discussions avec les forces politiques pour la stabilité du pays.
Je dirai au chef de l’Etat mercredi soir si cela est possible ou non, pour qu’il puisse en tirer toutes les conclusions qui s’imposent.
— Sébastien Lecornu (@SebLecornu) October 6, 2025
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