
As operações de falsa bandeira mudaram o curso da história mundial em inúmeras ocasiões ao longo de centenas de anos. O termo contemporâneo “falsa bandeira” descreve operações secretas lideradas por governos, concebidas para enganar a população em geral do seu próprio país, de tal forma que as operações parecem estar a ser realizadas por outras entidades, grupos ou nações. Historicamente, o termo tem as suas origens na guerra naval, onde o uso de uma bandeira diferente da verdadeira bandeira de batalha do beligerante é exibido como um engano, ou ardil de guerra, antes de enfrentar o inimigo.
Se alguém seguir o dinheiro em qualquer operação de bandeira falsa, verá que as pessoas com mais a ganhar sempre ocuparam as principais posições militares e civis, não só para garantir o sucesso da missão, mas também para encobrir o crime e obter a maior recompensa. Esta é a marca das operações deste género ao longo da história. O líder nazi Hermann Göring declarou um dia:
“Naturalmente, o povo comum não quer a guerra; nem na Rússia, nem em Inglaterra, nem nos Estados Unidos, nem na Alemanha. Isto é compreensível. Mas, afinal, são os líderes do país que determinam a política, e é sempre simples arrastar o povo, seja numa democracia parlamentar, numa ditadura fascista, ou numa ditadura comunista. Com ou sem voz, o povo pode sempre ser levado às ordens dos líderes. Isso é fácil. Tudo o que é preciso fazer é dizer-lhes que estão a ser atacados e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por exporem o país ao perigo.”
Esta cartilha está nitidamente a ser aplicada actualmente pelos líderes europeus em relação à Rússia.
As operações de falsa bandeira mais comuns consistem numa agência governamental encenar um ataque terrorista contra o seu próprio povo, para depois culpar uma entidade não envolvida (país/organização, etc.). A carnificina daí resultante provoca ondas de indignação pública e de opiniões favoráveis ao governo e a qualquer política que este proponha. Pelo menos dois milénios provaram que as operações de bandeira falsa, com doses generosas de propaganda das autoridades e de ignorância das massas, proporcionam um vasto cardápio de guerras sem fim. Durante o século XX, foram tão numerosas quanto insidiosas; do Incidente da Manchúria na China, ao Incêndio do Reichstag em Berlim, do mito do ataque “surpresa” a Pearl Harbor ao incidente do Golfo de Tonkin, já documentado pelo ContraCultura, que conduziu ao envolvimento total dos EUA na Guerra do Vietname.
Uma operação em particular (que felizmente nunca foi implementada) poderia facilmente ter precipitado a Terceira Guerra Mundial: a Operação Northwoods.
Um plano que começava por matar americanos, para depois matar cubanos. E toda a gente, em última análise.
Em 1962, o Estado-Maior Conjunto dos EUA, chefiado pelo General Lyman Lemnitzer, propôs por unanimidade actos de terrorismo patrocinados pelo Estado em solo americano, contra os seus próprios cidadãos. O chefe de cada ramo das Forças Armadas dos EUA deu aprovação por escrito para afundar navios americanos, abater aviões americanos sequestrados e abater e bombardear civis nas ruas de Washington, D.C. e Miami.
O plano só foi impedido quando o Presidente Kennedy se recusou a endossá-lo. O conceito da Operação Northwoods era engendrar uma situação em que a culpa pelo terrorismo (auto-infligido) recairia sobre o líder cubano, Fidel Castro, após o que o público americano imploraria e gritaria para que os fuzileiros invadissem Havana.
Entre outros actos hediondos, a Operação Northwoods propunha simular a queda de um avião comercial americano. O desastre seria realizado através da simulação de um voo comercial dos EUA para a América do Sul. O avião seria embarcado num aeroporto público por agentes da CIA disfarçados de estudantes universitários em excursão de férias. Um clone vazio do jacto comercial, controlado remotamente, trocaria de lugar com o avião que transportava os agentes num determinado ponto de encontro durante o voo, ao deixar a Flórida, e o avião real aterraria numa área segura na base aérea de Eglin. Seria então transmitida uma mensagem referente ao jacto comercial, informando que tinham sido atacados por um caça MIG cubano. O clone vazio, controlado remotamente, seria então explodido e o público seria informado de que todos os cidadãos americanos a bordo tinham morrido.
O documento sugeria ainda inúmeros outros actos de terrorismo doméstico, incluindo a utilização de um possível desastre da NASA (a morte do astronauta John Glenn) como pretexto para iniciar a guerra. O plano previa a
“fabricação de várias provas que comprovassem a interferência electrónica por parte dos cubanos caso algo corresse mal com o terceiro lançamento espacial tripulado da NASA”.
Além disso, edifícios em Washington e Miami seriam minados e explodidos. “Agentes cubanos”, na verdade operacionais da CIA, seriam presos e confessariam os atentados. Além disso, documentos falsos que comprovassem o envolvimento de Castro nos ataques seriam “encontrados” e entregues à imprensa. Outro elemento do plano sugeria atacar uma base militar americana em Guantánamo com recrutas da CIA a fazerem-se passar por mercenários cubanos. Isto implicava explodir o depósito de munições e, obviamente, resultaria em danos materiais e muitas mortes de soldados americanos.
Como último recurso, o Pentágono chegou a considerar a utilização do dinheiros dos contribuintes para subornar militares de outro país, de forma a que estes atacassem tropas americanas, de forma a instigar uma guerra em grande escala. O plano mencionava especificamente o suborno de um dos comandantes de Castro para iniciar o ataque a Guantánamo.
Em baixo representam-se alguns dos documentos desclassificados da operação Northwoods.
A Operação Northwoods foi apenas um dos vários planos sob a égide da Operação Mongoose, uma extensa campanha de ataques terroristas contra civis e operações encobertas, levadas a cabo pela CIA em Cuba.
Pouco depois de o Estado-Maior Conjunto ter assinado e apresentado o plano em Março de 1962, o Presidente Kennedy, ainda ressentido com o fiasco da Baía dos Porcos, declarou que nunca autorizaria uma invasão militar a Cuba e recusou-se a endossar o projecto Northwoods. Graças a Deus, porque se a operação fosse levada a cabo com sucesso conduziria muito provavelmente à III Guerra Mundial e a um conflito nuclear de natureza apocalíptica.
Em Setembro do mesmo ano, Kennedy negou ao chefe do Estado-Maior Conjunto, o general Lyman Lemnitzer, um segundo mandato como oficial militar de mais alta patente do país e, no Inverno de 1963, o presidente norte-americano foi assassinado, alegada mais discutivelmente, por uma actor isolado, Lee Harvey Oswald, em Dallas, Texas.
O público só viria a tomar conhecimento da Operação Northwoods 35 anos depois, quando o documento ultrassecreto foi desclassificado pelo Conselho de Revisão de Registos de Assassinatos de John F. Kennedy.
Quase 40 anos depois, um acontecimento muito semelhante ocorreria em solo americano, com todas as características da Operação Northwoods: a destruição do World Trade Center a 11 de Setembro de 2001.
Mas essa é outra história.
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Outra falsa bandeira do Pentágono: O Incidente Tonkin
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