Vista aérea do Monte do Templo . Vertente sul .  Wikipedia

 

Jerusalém / Washington, 29 de setembro de 2025 — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que não permitirá a anexação da Cisjordânia por Israel, numa posição que representa uma viragem face ao histórico de forte alinhamento com o governo de Benjamin Netanyahu. Ao mesmo tempo, intensificam-se em Jerusalém as tensões em torno do Monte do Templo, local sagrado para judeus e muçulmanos, onde movimentos radicais defendem a construção de um Terceiro Templo.

 

O veto de Trump à anexação

Em declarações a jornalistas em Nova Iorque, Trump revelou ter transmitido a Netanyahu que era “hora de parar”, rejeitando planos de anexação de vastas áreas da Cisjordânia. Analistas sublinham que esta decisão visa preservar espaço diplomático com países árabes que se opõem a mudanças territoriais unilaterais e manter margem de manobra para futuras negociações de paz.

A posição surge em paralelo com a apresentação, na Assembleia Geral da ONU, de um plano de 21 pontos para Gaza, que inclui cessar-fogo, libertação de reféns e uma nova administração internacional do território. O projeto, contudo, enfrenta resistência de grupos palestinianos e de setores do governo israelita que defendem a expansão de colonatos e a anexação parcial da Cisjordânia.

 

Monte do Templo: um ponto de fricção religioso e político

O Monte do Templo, conhecido no mundo islâmico como Haram al-Sharif, é considerado o local mais sagrado do judaísmo e abriga hoje a mesquita de al-Aqsa e a Cúpula da Rocha, dois dos espaços mais importantes para o islamismo. Pelo acordo de status quo estabelecido após 1967, apenas muçulmanos podem rezar dentro do recinto, embora sejam permitidas visitas de não muçulmanos.

Nos últimos anos, contudo, visitas organizadas por grupos judaicos aumentaram significativamente, sendo vistas por líderes palestinianos como uma erosão gradual do estatuto vigente. Em 2025, mais de 54 mil judeus ascenderam ao local, o número mais elevado já registado.

A visita do ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, em agosto, foi condenada internacionalmente como uma provocação. Paralelamente, movimentos conhecidos como Temple Mount movement defendem abertamente a construção de um Terceiro Templo no local, proposta que é considerada inaceitável para o mundo islâmico.

 

Reacções diplomáticas

A eventual alteração do status quo religioso em Jerusalém é vista como linha vermelha por países árabes e por organizações internacionais. O Egito, a Jordânia e os Emirados Árabes Unidos advertiram que qualquer passo nesse sentido pode desencadear uma escalada de violência regional.

Fontes diplomáticas em Nova Iorque interpretam a posição de Trump contra a anexação como tentativa de estabilizar este ponto sensível, evitando que mudanças territoriais alimentem também reivindicações religiosas que possam transformar Jerusalém no epicentro de um conflito de maiores dimensões.

 

Perspectivas

Apesar do veto norte-americano, a coligação governamental em Israel continua dividida, com ministros a pressionar pela anexação e expansão de colonatos. Já a Autoridade Palestina insiste em que apenas a criação de um Estado soberano poderá travar a escalada.

O Conselho de Segurança da ONU deverá voltar a discutir o dossiê no início de outubro, com foco tanto na suspensão da expansão de colonatos como na preservação do status quo em Jerusalém.

 

 

SILVANA LAGOAS