Muito graças aos esforços de propaganda do Ocidente, e à cegueira acrítica de certos sectores populistas, ou que fingem o populismo, está a ser cada vez mais difícil recolher os inputs de que precisamos para equacionar a realidade no terreno e as consequências apocalípticas da intensificação das hostilidades por parte do bloco ocidental, agora que Donald Trump parece definitivamente capturado pelo ideário globalista (embora até sobre esse facto evidente haja tanta gente em negação).
A retórica do presidente norte-americano, intoxicante e falaciosa, é absolutamente nefasta. Dá a sensação de que Trump, por não ter conseguido a paz, fez uma espécie de birra e está agora decidido a envolver-se directamente na guerra, aproveitando o seu palco mediático para menorizar a capacidade operacional russa, ao afirmar que “uma verdadeira potência militar tinha ganho a guerra na Ucrânia em três semanas” e sugerindo, de forma delirante, que a Ucrânia pode, com o apoio ocidental, recuperar os territórios perdidos e até a Crimeia.
Todos sabemos, e o presidente americano tem a maior obrigação de saber, que seria necessária uma guerra total, com inescapável incidência nuclear, para que Moscovo abdicasse da Crimeia.
A afirmação é risível de muitas formas. Primeiro: a Rússia não está a lutar contra a Ucrânia. Está a lutar contra o Ocidente que arma e financia a Ucrânia. Depois: A Ucrânia é uma potência militar regional, com um exército altamente equipado e treinado, tropas de elite do melhor que há no mundo e com forte sentimento nacionalista. A Ucrânia, em termos militares, é um adversário muito mais qualificado que o Iraque, ou o Yémen, por exemplo, adversários que os Estados Unidos, essa “verdadeira potência militar” tantas dificuldades tiveram e têm para levar de vencida.
Moscovo optou estrategicamente por uma guerra longa, de atrito, porque não quer matar milhões de civis e destruir um país que considera irmão, e sempre pretendeu minimizar as baixas, dos dois lados da contenda. Foi precisamente a intervenção ocidental que levou ao número tenebroso que agora se regista de perda de vidas humanas.
Acresce que a “verdadeira potência militar” de que Trump fala, não seria humilhada como os EUA foram humilhados no Afeganistão, na Líbia, na Somália e no Vietname. E já teria resolvido favoravelmente, por ser assim magnificente, a guerra por procuração que está a alimentar contra a Rússia.
Uma “verdadeira potência militar” não admitiria ser manipulada por Telavive nem suportaria genocídios na Palestina ou a ascensão ao poder de líderes da Al Qaeda, na Síria.
Mas enfim, Trump será Trump e Trump é um fanfarrão sem nome.
Mais preocupante ainda, é o anúncio da reunião mandatada por Pete Hegseth da totalidade dos oficiais de topo do Pentágono num quartel dos marines em Virgínia, cujo motivo ficou por esclarecer, já que não será por certo o que está a ser anunciado pela imprensa corporativa – uma risível sessão de motivação de 800 generais de 4 e 5 estrelas.
Mas uma coisa é certa: o Ocidente não tem maneira de levar de vencida os russos, a não ser através da guerra nuclear, que por definição será perdida por toda a gente. É uma espécie de Jogo da Glória, invertido, que a cada lançar dos dados mais perto fica do armagedão.
E é para essa extinção holística, neste momento aparentemente inevitável, que nos devemos preparar.
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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