Nota do publisher: as flutuações eleitorais não nascem no vácuo. São amiúde produto do descontentamento das bases em relação à cristalização das elites e dos arcos regimentais, que vão progressivamente traindo os seus princípios em função de lógicas de poder e recusando a defesa dos interesses dos eleitores, privilegiando ao invés a imposição de agendas não ratificadas nas urnas. Em Portugal, o crescimento eleitoral dos partidos populistas confirma essa crise de representação que testemunhamos no Ocidente, e o caso específico desta série de 3 textos, publicados no Público e no Observador entre 2018 e 2020 por Luís Gagliardini Graça, na altura Conselheiro Nacional do CDS, explicam esse trânsito de quadros e eleitores dos partidos de centro direita para o populismo, de forma eloquente.
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Foi em Fevereiro de 2009 que tive a minha primeira intervenção num Congresso, no Centro de Congressos das Caldas da Rainha, lembro-me como se fosse hoje, eu e um grupo de gente em quem confiava irrompeu pela sala, inscreveu-se e começou a discursar pela ordem certa de inscrições, no tempo devido.
Os meus três minutos de glória resumiram-se a isto – a votação que o CDS tem nas urnas é inversamente proporcional ao respeito que o povo português sente pelos valores fundacionais do Partido, de que foram exemplo as votações no período pós-revolucionário.
Esta enorme décalage deve-se, acima de tudo, a um problema de credibilidade e olhei para a minha direita onde estava a Direcção de então e rematei com a necessidade de uma mudança de pessoas, de estratégia política e de pensamento filosófico.
Hoje, volvidos onze anos, sinto que o problema se agudizou ainda mais, não tem necessariamente a ver com o Scruton, Burke, ou Adam Smith, aqueles que defendem o mesmo modelo falido, a perpetuação dos mesmos nos mesmos cargos ou em diferentes, mas com a mesma entidade pagadora, ou um catch all Party onde se troca facilmente o valor supremo da Vida, pela Liberdade iluminista, fazem-me lembrar António Costa, número dois de um primeiro-ministro que nos levou, literalmente, à bancarrota e à intervenção da Troika em Portugal, que para ganhar votos e nos governar, passou uma esponja sobre a incompetência, a má gestão, a corrupção, o enriquecimento ilícito, a descredibilização da palavra honrada, os lugares de influência, o aumento da abstenção, da desconfiança, da política power-point que tudo promete e pouco realiza.
Estes Costas da actual Direcção não deram ouvidos à Tendência Esperança em Movimento que, através do seu líder e Porta-voz, Abel Matos Santos, e de todos os Conselheiros Nacionais que, como eu, se fartaram de emitir alertas à navegação, nomeadamente no que concerne à falta de transparência das contas do Partido, às imposições das quotas de Lisboa nas listas distritais de candidatos a deputados, que provocou uma quebra de confiança entre o Caldas e as Distritais e Concelhias, bem como à perda de bandeiras e causas que desviaram os eleitores da previsibilidade, segurança e credibilidade que precisam para nos conceder o seu voto.
Penso, em conclusão, que neste Congresso se vai decidir se queremos a eternização dos Costas no CDS ou se, pelo contrário nos bateremos pela Esperança de novas caras, de um novo pensamento, de uma nova forma transparente e lícita de estar e fazer política, verdadeiro motor de reformas há muito anunciadas e sempre adiadas.
Obrigado, Abel Matos Santos, estimado Amigo, por travares o bom combate e por me dares a honra de caminhar a teu lado, obrigado também a todos os que tudo nos dão, sem o mínimo exigir em troca, obrigado povo português porque um dia serás ouvido e nos darás a tua confiança.
LUÍS GAGLIARDINI GRAÇA
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Gestor e Consultor de Empresas . Ex-Conselheiro Nacional do CDS
Artigo publicado no Observador a 21 de Janeiro de 2020
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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