Marcel Chamoun, um cristão maronita libanês, cofundador e presidente da Associação São Charbel Connosco, e que vive actualmente em Portugal, veio ao D. Carlos oferecer uma perspectiva dos desafios que se colocam a um cidadão de um país que, no hiato de um século, sofreu uma alteração demográfica radical, que trouxe tremendas implicações culturais, religiosas e sociais.
A rápida substituição da maioria cristã por populações muçulmanas, que transformou o Líbano num país muçulmano, onde a lei da Sharia é tolerada pelas autoridades, conduziu à limpeza étnica, ao total desrespeito pelas leis da propriedade e ao caos, num assustador prenúncio daquilo que pode acontecer na Europa, se não soubermos proteger os valores civilizacionais do Ocidente.
Sinopse da palestra*
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Um Cristão no Próximo-Oriente.
A perspectiva de um libanês de Sarin Tahta.
As causas da guerra.
Num mundo que testemunha constantes conflitos militares e civis, quais as principais causas das guerras?
– Poder e Política
– Território e Recursos
– Identidade e Crença
– Vingança e Medo
Estes quatro grandes motores dos confrontos entre povos e nações ao longo da história, derivam em muitos casos de uma razão mais profunda: a religião. E, em muitos casos, as guerras têm como objectivo último a “limpeza religiosa” ou a remoção, eliminação ou supressão de um grupo religioso numa determinada área geográfica ou unidade social.
A fé num barril de pólvora.
E porque é que os conflitos no Próximo-Oriente têm um impacto tão grande nos media, na opinião pública e na avaliação geo-estratégica das nações e dos seus Estados?
Convivem nesta região do mundo vários factores determinantes para a mecânica global: a massiva produção energética, o Canal do Suez e o Mar vermelho, por onde circulam importantes eixos da marinha mercante, constantes fluxos migratórios e crescente radicalização política e religiosa inflamam um cenário de agitação permanente.
Porém, povos que partilham valores fundamentais podem combater por defesa dos seus próprios territórios, mas não mostram sinais de ódio mortal quando extrapolados desse contexto. Russos e ucranianos que vivem no estrangeiro não se envolvem em confrontos de rua. Fora da Irlanda do Norte, irlandeses e ingleses não manifestam hostilidade entre si.
O problema complica-se quando povos com valores diferentes são aglomerados numa mesma região do mundo, ou – pior ainda -, num mesmo perímetro geo-político, como se uma nação fosse possível quando assim constituída.

É na verdade a religião que agrava os conflitos entre as populações desta região do mundo. E a proeminência destes conflitos no palco global decorre sobretudo dessas divisões, porque a guerra religiosa tem, estruturalmente, maior probabilidade de se disseminar globalmente.

O caso libanês.
O que aconteceu no Líbano foi precisamente isso. Num país que tem um décimo da extensão territorial de Portugal convivem agora muçulmanos xiitas, sunitas e alauitas; cristãos ortodoxos, maronitas, católicos e protestantes; drusos e assírios, num caldo cultural e religioso assimétrico e incoerente.

Em 1920, quando o Líbano foi criado, o mosaico era bem diferente, com uma maioria cristã que estabilizava a sociedade e tolerava outros credos, assente num Estado de direito, ocidentalizado e regido por um conjunto de princípios fundamentais que recolhiam o acordo das populações.
Actualmente, com um peso demográfico e político dominante, a maioria muçulmana faz e desfaz nos direitos, liberdades e garantias dos libaneses, impondo o seu modo de vida e o seu sistema de valores sobre os princípios básicos da cidadania, ao ponto da lei da Sharia governar grande parte do território, circustância que invalida axiomas universalmente consagrados, como o da propriedade privada, e fomenta chocantes injustiças de ordem social e religiosa.
Ainda hoje, o processo de substituição demográfica e limpeza étnica que entretanto ocorreu no país é de tal forma sensível e encoberto, que o último censo realizado no Líbano ocorreu em… 1932.
O domínio totalitário muçulmano sobre uma população muito diversificada em termos étnicos, religiosos e culturais conduz a episódios ridículos como aquele que ocorreu quando o Primeiro-Ministro interino Najib Mikati (sunita), após um pedido do Presidente do Parlamento Nabih Berri (xiita), que pretendia ajudar os muçulmanos a quebrar o jejum do Ramadão uma hora mais cedo, suspendeu a transição para o horário de Verão durante 24 horas. O caos instalou-se: muitas instituições recusaram-se a seguir a decisão do governo. As estações de TV, escolas, empresas e instituições cristãs mudaram para o horário de Verão, como originalmente planeado. Os organismos governamentais e algumas companhias aéreas mantiveram o atraso. O caos instalou-se no país.
O peso da fé.
E porque será a religião tão importante? Porque está, antes da política, antes da nacionalidade, antes da cultura, nos fundamentos primordiais da nossa identidade. Faz parte do passado, mas também do futuro, porque incorpora os valores que herdamos, mas também os que queremos deixar aos nossos filhos.
A religião é uma âncora que nos agarra a um sistema de valores, mas também uma rampa de lançamento que nos liberta o sistema onírico. Toda a ética deriva de um quadro metafísico. E a vida espiritual, como a mecânica psicológica, dependem de específicos sistemas de crença.
Não é por acaso que as pessoas recorrem à sua fé, ou regressam à sua igreja, em momentos de crise.

O país impossível.
Da mesma forma que uma empresa dificilmente prosperará se tiver sócios com valores, credos, estilos de vida, objectivos e ambições completamente diferentes, o mesmo acontecerá, necessariamente, com um país (para evitarmos até o termo nação, que exige uma integração social ainda mais coerente).
O cenário fica ainda mais sombrio quando uma das tribos, comandada por extremistas, ascende ao poder político para levantar um regime opressor sobre as restantes populações, forçando o seu credo e o seu estilo de vida e abusando da inacção da polícia e da cumplicidade das instituições judiciárias.
Enquanto a lógica secular do Estado libanês, apoiada pela maioria cristã, se baseava na empatia, na justiça, na ética, e em leis sociais que minimizavam danos, o projecto de governação islâmico tem outras prioridades, relacionadas com a forma que os muçulmanos têm de ver o mundo e a religião, que é bem mais impositiva e bem menos dialéctica.
Esta dualidade deriva de diferenças fundamentais entre as escrituras sagradas de cristãos e muçulmanos. Enquanto o Novo Testamento sublinha o amor, o perdão, a misericórdia e a paz e não presta instruções directas para a violência física, nem oferece justificações para a guerra, o Alcorão abre contextos para a legítima defesa, o primado da protecção da comunidade, a imposição da justiça divina e a iniciativa das armas, em nome da fé.
Agora no Líbano, a seguir na Europa.
Marcel Chamoun sofreu na pele a transformação do Líbano numa espécie de estado islâmico, de tal forma que a aldeia onde nasceu e foi criado é hoje irreconhecível para ele próprio. A sua família foi desavergonhadamente expropriada e os cristãos locais foram quase completamente irradicados.
O que é verdade na aldeia de Marcel, é verdade no Líbano e será, a curto prazo, verdade no Reino Unido, na Bélgica, em França, na Alemanha e em Portugal. A ideia dos parisienses nativos não poderem, por exemplo, comer ou beber em público durante o jejum do Ramadão pode parecer excessivamente distópica, mas também assim pareciaaos cristãos libaneses, há cinquenta anos atrás.
É na verdade uma questão de tempo: Se nada for feito, o poder da demografia derrubará os valores ocidentais.
É bom que os povos europeus ajam agora para proteger os seus valores, os seus credos, as suas nações. A civilização que os seus avós erigiram. O legado que desejam deixar aos seus netos.
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* Sinopse da responsabilidade do editor
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