Há um mito persistente — e lucrativo — em torno da juventude: a ideia de que ela encarna a rebeldia, a independência e a liberdade. Nunca acreditei nisso, nem quando jovem. O adolescente não é um Prometeu insurgente contra os deuses, mas um animal de rebanho disposto a pagar qualquer preço — humilhação, servidão, anulação da própria identidade — em troca de um lugar na tribo dos “descolados”.
A rebeldia contra pais e professores nunca passa de teatro. Desafia-se quem, por amor, não retaliará com força total. Mas diante dos pares, a submissão é integral. É ali que o jovem conhece o poder em sua versão mais cruel: a tirania do mais cínico, do mais forte, do mais debochado, que transforma o novato em súdito antes de reconhecê-lo como membro.
Daí nasce o ciclo descrito por René Girard: o desejo mimético, no qual não se quer algo pelo que ele é, mas porque outro já o quer. A imitação se torna a lei secreta da tribo, e a personalidade se dissolve no código coletivo de gestos, palavras, símbolos e senhas.
E como todo ressentimento exige um alvo, o adolescente raramente se volta contra o grupo que o oprime. O ódio é projetado sobre a família, o último espaço de amor incondicional. A rebeldia juvenil nada mais é do que uma inversão cruel: desprezo pelos que acolhem, adoração servil pelos que desprezam.
Não espanta, portanto, que as juventudes tenham sido vanguarda dos piores desastres do século — do nazismo ao comunismo, das seitas às drogas. Sempre marcharam à frente da catástrofe, embaladas por um fervor que os adultos cansados preferem romantizar a confrontar.
O episódio mais recente confirma a regra. Após o assassinato de Charlie Kirk, estudantes de esquerda comemoraram em campus universitários, celebrando a execução como quem exibe um troféu moral. Essa é a tal “rebeldia”: transformar a crueldade em rito de pertencimento, a morte em espetáculo tribal.
Um mundo que entrega seu destino à juventude não é jovem: é velho, exausto, incapaz de transmitir sabedoria. Por isso, terceiriza o futuro aos que menos sabem discernir.
MARCOS PAULO CANDELORO
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Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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