Ractificação do Tratado de Münster . Gerard Terborch . 1648 . Wikipedia

 

 

A Europa parece estar a defrontar-se com uma convergência perigosa de crises, que expõe as fragilidades do seu projecto e questiona a sua capacidade de resposta. A paisagem política e económica do continente está a ser abalada por terramotos simultâneos:

Em França, o Presidente Emmanuel Macron, outrora símbolo de um renovado europeísmo, vê-se encurralado. A sua autoridade está minada por um governo frágil e por uma assembleia profundamente dividida, incapaz de governar eficazmente. As tensões sociais, latentes desde os “coletes amarelos”, permanecem como um brasa prestes a reacender-se perante qualquer reforma impopular. Esta paralisia política ocorre sobre um abismo financeiro: uma dívida pública que ascende a 115% do PIB, limitando drasticamente o margem de manobra do Estado para investir, estimular a economia ou amortecer novos choques.

Do outro lado do Reno, na aparentemente sólida Alemanha, o tombo da realidade é igualmente severo. O chanceler democrata-cristão, Friedrich Merz, fez uma confissão chocante: o país já não dispõe dos fundos necessários para manter o seu generoso sistema de segurança social perante uma população que envelhece. A menção, mesmo que hipotética, de uma potencial intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) – outrora um recurso para economias emergentes em crise – é um sinal alarmante do desespero que se instala perante a estagnação económica e o peso das crises energéticas.

No Reino Unido, a crise de liderança assume outra forma. Sir Keir Starmer, apesar de ter conduzido o Partido Trabalhista à vitória, atinge paradoxalmente o nadir da popularidade, vítima da expectativa desmedida e da percepção de hesitação. Este vazio de confiança é preenchido pela ascensão meteórica de Nigel Farage e do seu Reform Party, que capitaliza o descontentamento popular e projecta-se não como mera voz de protesto, mas como a primeira força política do país. O seu eurocepticismo radical e retórica populista ameaçam desestabilizar ainda mais o cenário político britânico.

Neste contexto de fragilidade interna generalizada – económica, social e política –, a atmosfera na Europa torna-se cada vez mais carregada. A ameaça de um conflito alargado, alimentada pela guerra na Ucrânia, paira no horizonte como um espectro. Perante este quadro, a atitude das instituições europeias e dos seus principais líderes parece paradoxal: em vez de recorrerem ao seu histórico diplomático – afinal, foi a Europa que inventou e codificou a diplomacia moderna –, a tendência tem sido a de rejeitar o diálogo e a negociação em favor de uma postura intransigente e beligerante.

Este caminho, que privilegia a escalada de retórica bélica e sanções, é justificado com base nas pretensões territoriais da Rússia, sejam elas reais ou percebidas. No entanto, a questão que se coloca é se esta estratégia, divorciada de uma tentativa séria e persistente de mediação, não é um sintoma da própria crise interna europeia. Será a busca por um inimigo externo uma forma de unir uma União desunida? Estará a Europa, enfraquecida por dentro, a optar pelo caminho da força precisely porque sente que já não possui a solidez interna necessária para o paciente e complexo trabalho da diplomacia?

Em suma, a Europa enfrenta uma tempestade perfeita: as suas fundações económicas e a coesão dos seus estados-membros estão a abanar, enquanto, no exterior, escolhe trilhar o caminho mais perigoso e menos característico da sua própria história. O continente que outrora escreveu os manuais da arte da negociação parece tê-los fechado, optando por uma narrativa de confronto que pode, ironicamente, acelerar as crises que tanto receia.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.