Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de seguir uma sequência (mais ou menos) cronológica, escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico.

 

Mainstream – Loyd Cole and The Commotions

“Guess you were born lucky mister
ain’t life sweet?
All you have to do is crawl.”

Entre 1984 e 1987 Loyd Cole viajou, meteoricamente, do anonimato ao estrelato, com 3 discos de rajada. No entretanto deixou uma marca na minha vida. O seu terceiro trabalho, o mais comercial, mas também o mais irónico (Cole goza que se farta com a própria fama), não se chama “Mainstream” por acaso. E também não por coincidência foi produzido por um rapaz que sabia atingir picos de vendas: Ian Stanley, dos Tears for Fears. Ainda assim, é o álbum que destaco porque me parece, sinceramente, o mais maduro, em termos técnicos e criativos.

 

Children – The Mission

Um passo à frente, para 1988. Não é um passo de dança porque os The Mission não são uma banda de Cabaret e “Children” não foi criado para entreter os tornozelos. O poder épico desta banda está todo direccionado para um árduo mas glorioso trajecto rumo ao olho da tempestade. Ou ao fulgor de uma batalha. E este disco é uma torre inexpugnável na formidável fortaleza do rock.
Sim, também gostava bastante dos Sisters of Mercy, experiência prévia de onde saíram Wayne Hussey e Craig Adams. Sim, também fui fã dos Fields of the Nephilim, banda gémea em forma e conteúdo. Mas é desta missão que gosto mais. É esta missão gótica e grandiosa, sem medo de ninguém e apontada para o abismo, que ficou comigo para sempre.
Mais a mais, a capa deste disco é absolutamente linda.

 

Doolittle – Pixies

“If man is five, if man is five, if man is five
Then the devil is six, then the devil is six
The devil is six, the devil is six and if the devil is six
Then God is seven , then God is seven, the God is seven
This monkey’s gone to Heaven”

Pixies, 1989. Guitarras e numerologia e heresia num grito maluco, transcendente, embrulhado na métrica pós-punk de uma banda eterna. É ouvi-los sem acrescentar mais nada a não ser isto: “Doolittle” inicia a intrusão da lendária editora 4AD nas minhas membranas timpânicas.

 

New York – Lou Reed

Este é o disco que fecha, na discoteca da minha vida, os anos 80. Nada mais, nada menos que o décimo quinto álbum de Lou Reed: “New York”, de 1989. Sim, à sua décima quinta tentativa – sem contar com as 4 esquizofrénicas experiências dos Velvet Underground – o rapazinho consegue acertar em cheio na minha pobre sensibilidade musical. Não que os outros 14 prévios redondinhos fossem de deitar para o lixo, nem pouco mais ou menos – Lou Reed é autor de uma boa mão cheia de hinos rock que são equitativamente distribuídos por essa interminável discografia, mas este é o momento em que a maturidade, e o abandono dos ácidos, cobra os seus dividendos. “New York” é uma masterclass em rock urbano, Brooklyn em vinil, sarjeta e boulevard da cidade com insónias; opereta falada, quase falhada e completamente triunfante, como um poema de Alan Ginsberg. Um solene epílogo para a mais exuberante e escaganifobética década da história da música.

 

 

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