A França enfrenta uma impressionante “explosão da dívida” de 3 triliões de euros e poderá em breve ser forçada à humilhação de um resgate do Fundo Monetário Internacional (FMI), enquanto o governo de Emmanuel Macron oscila à beira do colapso.
Eric Lombard, Ministro da Economia e Finanças, emitiu um aviso severo de que “existe o risco” de o FMI ser obrigado a socorrer Paris.
A revelação surge no meio de previsões generalizadas de que o Governo francês poderá ser derrubado numa questão de semanas, depois de o primeiro-ministro François Bayrou, de 74 anos, ter dito que iria procurar um voto de confiança no Parlamento.
Os partidos da oposição, desde o partido de esquerda radical La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, ao partido nacionalista Rassemblement National de Marine Le Pen, prometeram derrubar Bayrou. Até mesmo membros da própria bancada de Bayrou classificaram o plano de votação como imprudente, com a deputada Nicole Dubre-Chirat a apelidá-lo de “suicida”.
Se o governo cair (é o quarto executivo desde 2002 e o terceiro no espaço de dois anos), o país ficará sem rumo e sem orçamento, numa altura em que a França se afunda numa dívida monstruosa e enfrenta um défice de 5,4% do PIB.
Olivier Blanchard, antigo economista-chefe francês do FMI, disse que uma “explosão da dívida” seria “catastrófica” para uma economia que não regista um excedente orçamental desde 1974.
Eric Lombard afirmou que o governo ” deve evitar” um acontecimento semelhante ao que atingiu a Grã-Bretanha na década de 1970.

A iminente crise económica representa uma humilhação para o presidente francês, Emmanuel Macron, que um dia afirmou ser o “Mozart das finanças”. É a segunda vez num ano que os efeitos da precipitada dissolução parlamentar promovida pelo Presidente francês, em Julho de 2024, ameaçam o caos institucional e até a agitação civil.
Bayrou admitiu que a nação enfrenta uma dura “escolha entre o caos e a responsabilidade”, dizendo aos parlamentares que a crise financeira era um “momento da verdade” numa altura em que “a força e o desrespeito pela lei estão a triunfar” em todo o mundo.
Não se percebe bem o que é que “a força e o desrespeito pela lei” que triunfam em todo o mundo têm a ver com a desgovernação globalista, que está a levar a França à ruína, mas alguns comentadores sugerem que Bayrou desencadeou propositadamente a votação para ficar na história como um mártir por enfrentar a crise da dívida. Outros afirmam que ainda nutre ténues esperanças de se manter no poder.
Num congresso sindical na terça-feira, Bayrou declarou:
“O peso da dívida, com a qual sobrecarregamos os trabalhadores franceses e as gerações futuras, vai esmagar as iniciativas e, somado ao colapso demográfico, põe em risco o contrato social do país.”
Numa tentativa desesperada de obter o apoio dos parlamentares de esquerda, propôs um ataque fiscal aos ricos:
“As isenções fiscais que beneficiam principalmente as famílias mais ricas e os grandes grupos serão abolidas sempre que forem consideradas injustas ou inúteis.”
Leia-se: Sempre que for preciso mais e mais dinheiro para colmatar a dívida pública.
Os apelos desesperados do primeiro-ministro foram ignorados. Jordan Bardella, o jovem líder do Rassemblement National, disse que o partido
“nunca apoiaria um voto de confiança num governo cujas escolhas fazem sofrer os franceses”.
Os mercados estão assustados. As acções das empresas franceses e dos bancos com forte exposição à dívida pública caíram a pique e o rendimento dos títulos franceses a dez anos disparou para mais de 3,5%.
Lombard admitiu:
“Aposto que, dentro de duas semanas, a nossa dívida estará a custar mais do que a de Itália.”
Vale a pena destacar que o rendimento sobre os títulos de tesouro portugueses, como o mesmo prazo, caiu para 3,15% em Agosto deste ano. Os investidores estão agora a confiar mais na capacidade de endividamento de Portugal do que de França. O “Mozart das finanças” fez isto acontecer.
Anne-Sophie Alsif, economista-chefe da consultora BDO, disse ao Le Parisien que desde a década de 1960 que o juro da dívida francesa não era superior ao equivalente italiano.
De forma ainda mais dramática, Lombard alertou que “existe o risco de o FMI intervir”, acrescentando que o governo “espera e deve evitar” um cenário que ecoe o resgate do FMI à Grã-Bretanha na década de 1970.
Bayrou propôs um pacote brutal, superior a 40 biliões de euros em cortes e aumentos de impostos, incluindo a supressão de dois feriados e reduções drásticas nas despesas com a saúde. O orçamento provocou indignação e ira em toda a esfera política.
O seu voto de confiança, agendado para 8 de Setembro, é agora visto como a última aposta desesperada de um primeiro-ministro cujos dias parecem contados. Boris Vallaud, do Partido Socialista, disse que Bayrou já se tinha efectivamente demitido. Até mesmo os membros da coligação governamental estão a ignorar o seu líder.
O deputado Nicolas Metzdorf comentou:
“Espero que um novo governo seja nomeado muito rapidamente”.
Como se a crise financeira fosse resolvida por alterações na nomenclatura governamental.
Marine Le Pen pediu novas eleições. Mélenchon quer a demissão do próprio Macron, abrindo caminho a uma eleição presidencial antecipada. Mas o presidente, em dificuldades, insiste que não repetirá o erro do ano passado, quando antecipou as legislativas só para mergulhar o país num impasse. Esta decisão já lhe custou um primeiro-ministro — Michel Barnier, que caiu ao fim de três meses — e ameaça agora derrubar Bayrou ao fim de apenas nove.
Para agravar a situação, um movimento popular está a mobilizar uma campanha de greves e bloqueios de estradas, com o lema “vamos bloquear tudo”, a partir de 10 de Setembro.
O movimento, nascido em círculos populistas, mas rapidamente adoptado pelos sindicatos e pela esquerda, tornou-se viral. Os grupos do Telegram estão a fervilhar com planos para “redes de resistência cidadã” e disrupção nacional.
Os eleitores comuns parecem apoiar o movimento – uma sondagem da Harris Interactive para a rede de rádio RTL revelou que 63% do público apoia o movimento.
Num aceso encontro de activistas em Orleães, um orador declarou:
“Não conseguimos repelir os patrões, a burguesia e a sua classe política porque não bloqueamos o país.”
Outro foi mais longe:
“Precisam de sentir as balas de canhão. Precisam de ter medo.”
Longe de oferecer a “clareza” que Macron desejava após a sua derrota nas eleições europeias em Junho de 2024, a recém-eleita Assembleia Nacional está dividida em três partes: os centristas, a direita populista e a esquerda – o que significa que nenhum governo, de qualquer tipo, pode visar a maioria.
O próprio Macron foi excluído da política interna e forçado a concentrar-se nos assuntos internacionais, ou seja, na russofobia desvairada.
No ano passado, os agricultores franceses bloquearam as principais auto-estradas em redor de Paris e ameaçaram bloquear a capital durante um impasse cada vez maior com o governo sobre as condições de trabalho, rendimentos, burocracia e políticas ambientais. Os agricultores afirmaram que as políticas globalistas minaram a sua capacidade de competir com outros países e Macron ofereceu-lhes uma série de concessões, que incluíram o abandono de um aumento planeado dos impostos sobre o gasóleo, a oferta de 60 milhões de euros para explorações agrícolas biológicas e a imposição de multas aos supermercados que não pagassem o suficiente pelos produtos franceses.
Embora o movimento de protesto se tenha dissipado desde então, a frustração continua a ser palpável em França.
Décadas de globalismo-leninismo na Europa começam a mostrar, em carne viva, os seus deprimentes resultados económicos e, como o Contra já documentou, a falência técnica da ideologia neo-liberal está a atingir também brutalmente a Alemanha e o Reino Unido.
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