Neste domingo não desejo falar sobre política ou quaisquer assuntos que estejam encabeçando os trending tops das redes sociais, o que já é um indicativo do caminho que pretendo tomar. Na verdade, meu desejo é refletir – e levar o leitor comigo, caso disposto – sobre a eventualidade do sucesso profissional ser fator determinante para que enxerguemos algum sentido nesta porca vida que levamos.

Sendo mais específico: algumas almas tortuosas escolhem o caminho da comunicação – seja através do jornalismo, da escrita de romances, poesias ou mesmo músicas – tomados pela estranhíssima necessidade interna de dizer ao mundo o que pensam, como enxergam a vida e, alguns mais soberbos, no afã de corromper a filosofia para que a mesma endosse seus desvios particulares – são os chamados “ideólogos” ou “filósofos inovadores”.

Quem nasce com esta compulsão pela escrita quer ser lido, não há outra intenção. Declarações de que “estão pouco se importando” ou que desejam somente “deixar um aviso” não passam de rematada falsidade, na maioria das vezes um mero anestésico a justificar para si mesmo seu fracasso, assim pintado de “glorioso” ou, até, estoico. Sim, eu quero ser lido, desejo que me escutem, que discutam meus pontos de vista, que haja polêmica – senão, para quê escrever? E este é o ponto central.

O sentido da vida é uma missão? Algo que, uma vez cumprido, coloca todas as peças em seus devidos lugares e torna nossa existência compreensível, aceitável e digerível? Um encargo que, ao seu término – ou mesmo a meio caminho – podemos fazer um balanço e concluir que obtivemos sucesso? Mas, se não fomos vitoriosos? E se fracassamos – um escritor que vende meia-dúzia de livros, por exemplo? Poderemos concluir que a vida não faz sentido? O sentido da vida, para quem vive da comunicação, da escrita, é ter sucesso e ser lido, debatido, discutido?

O diabo tem a vaidade em alta conta, na sua lista de pecados prediletos. Tudo se resumiria, deste modo, ao mais mesquinho desejo de glória?

Um engenheiro constrói uma casa e, por mais que sua venda demore, um dia será feita – missão cumprida, ainda que com eventuais prejuízos. Já um escritor que escreve um romance ou se perde em investigações filosóficas e é ignorado, se sentirá como um ator que, encerrada a peça e fechadas as cortinas, ouve somente o silêncio: fracasso, derrota, rejeição. Este último vive do público, da interação, de algo que não é automático e, muito menos, obrigatório – como arranjar uma casa para morar.

E, de rejeição em rejeição, de indiferença em indiferença, o tal balanço da vida será inevitavelmente feito e coroado pela dúvida: por quê? Qual o sentido de ter tentado tudo isso? De quê adiantou minha vida? O quê fiz pelo próximo se o próximo manteve-se, cautelosamente, tão distante?

O leitor – se chegou até aqui já enxergo como um sucesso – não deve esperar nenhuma conclusão brilhante ou bombástica, neste final de artigo. Estas linhas não são baseadas em especulações sobre o fracasso alheio mas, sim, sobre o meu próprio – e isto me dá a necessária autoridade sobre o tema, ainda reforçada por não atrever-me a tirar nenhuma lógica explicativa de toda esta mixórdia.

Na verdade, a cada fracasso de meus livros sinto um misto de vaidade ofendida – sempre auto-justificada pelo fato do brasileiro médio ser incompatível com a leitura – com um abissal sentimento de solidão, como se estivesse eu falando com as paredes e esperando resposta – quase um caso clínico.

Ao fim e ao cabo, é inevitável que o sujeito escritor termine por se tornar um estereótipo – uns o fazem como último recurso da vaidade; já outros assim se transformam sem, sequer, perceberem. E o estereótipo de um escritor como eu acaba sendo, infelizmente, algo próximo da imundície de um Charles Bukowski – algo que nem de longe me envaidece, rende suspiros femininos de admiração ou, muito menos, dinheiro no bolso.

Se o amigo leitor exerce uma profissão normal – médico, engenheiro, advogado, vendedor, eletricista ou qualquer outra coisa útil – agradeça a Deus: neste meu ponto de vista doentio, creio que Ele o presenteou, de nascença, com o sentido de toda esta porca vida que vivemos.

Tudo o mais é o personagem que nós, vaidosos escribas, tentamos vender ao público como autêntico.

E, se fracassamos, a vida desaba para dentro de uma garrafa de Jack Daniel’s.

 

 

WALTER BIANCARDINE
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Walter Biancardine foi aluno de Olavo de Carvalho, é analista político, jornalista (Diário Cabofriense, Rede Lagos TV, Rádio Ondas Fm) e blogger; foi funcionário da OEA – Organização dos Estados Americanos.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.