Peter Thiel, Scott Bessent e Ric Grenell: três dos mais proeminentes, poderosos e assumidos homossexuais do actual estabelecimento republicano

 

 

Ingénuas e desesperadamente solteiras, muitas mulheres republicanas mudaram-se para Washington desde que Trump voltou a residir na Casa Branca, em busca de um cenário de encontros amorosos mais promissor. Achavam que a reeleição do seu líder atrairia uma horda de bons partidos para a capital do país. O plano não está a correr bem.

Porquê? Porque “toda a gente é gay p’ra caramba”.

Foi o que disse Natalie Winters, co-apresentadora do War Room, ao The New York Times, durante uma entrevista para um artigo que saiu na terça-feira, “O Grande Governo Gay de Donald Trump”. O artigo destaca a homossexualidade aparentemente sem precedentes deste governo, detalhando um ambiente onde os conservadores impetuosos se sentem confortáveis ​​a exibir as suas personalidades extravagantes e as suas predilecções carnais para o mundo ver.

O secretário do Tesouro? Gay. O principal técnico de sondagens do presidente? Gay. O chefe do Kennedy Center? Gay. O mais poderoso homem-sombra da administração federal? Gay. O senador com maior influência na sala oval? Gay. A lista é interminável.

 

A homossexualidade é uma “ferramenta”.

Charles Moran, administrador associado para assuntos externos da Administração Nacional de Segurança Nuclear, um gabinete do Departamento de Energia que desenvolve, testa e mantém em segurança o arsenal nuclear dos Estados Unidos, é um dos líderes de uma nova tribo poderosa na capital: os A-Gays. Eles são (na sua maioria) assumidos, orgulhosos (de trabalhar para o presidente Donald Trump) e têm cargos importantes dentro (ou ao lado) deste governo. Eles exercem influência em toda a cidade, desde o Pentágono ao Departamento de Estado, passando pela Casa Branca e pelo Kennedy Center.

“Somos como o Visa”, disse Moran. “Estamos em todos os lugares onde se quer estar.”

O homem gay assumido mais poderoso da administração Trump é Scott Bessent, o Secretário do Tesouro. E há mais alguns no seu Departamento. Outros A-Gays incluem Tony Fabrizio, o antigo técnico de sondagens do presidente; Trent Morse, um extrovertido assessor da West Wing; Richard Grenell, que foi colocado no comando do Kennedy Center; e Jacob Helberg, um subsecretário de Estado. Estes são apenas alguns. Há muitos outros homens menos conhecidos que fazem parte da tribo.

Eles são predominantemente brancos e tendem a ter um certo tipo de aparência. Cortes de cabelo curtos. Fatos tweed. Não são do tipo que dizem a ninguém os seus pronomes ou usam a palavra queer. E não se ofendem nem um pouco com o facto de o líder do seu partido não ser propriamente um fã do movimento LGBT.

São gays. Mas continuam a ser republicanos.

Moran conhece muitos deles porque está “no comboio do Trump”», como ele mesmo diz, desde o início.

Em 2015, quando a cúpula republicana ainda tentava impedir a candidatura de Trump, Moran disse que ele e alguns outros republicanos gays que conhecia ficaram intrigados com o histórico do nova-iorquino impetuoso de dizer coisas positivas sobre os direitos dos gays e viram a ascensão de Trump como algo novo, especialmente após a Convenção Nacional Republicana de 2016, quando Peter Thiel, um outro homossexual e o mais poderoso homem-sombra do actual executivo; usou a sua plataforma para apoiar Trump.

Parte do poder dos A-Gays vem do facto de permanecerem unidos. Moran diz a este propósito:

“Mesmo dentro da burocracia, a burocracia é esmagadora. Adoro ter esta comunidade como recurso. Antigamente, estes grupos tinham de ser fechados e escondidos, mas agora usamo-los como uma ferramenta.”

Mas há uma espécie de paradoxo sobre a existência destes homens em Washington. Vivem na cidade mais gay da América, que é também a cidade que mais odeia Donald Trump.

Os homens gay que trabalham para ele estão plenamente conscientes de que operam em território hostil, rodeados por outros homens gays que os consideram traidores. Nos bares gays da cidade e nas aplicações de encontros, eles são ignorados ou confrontados sobre as coisas que este presidente disse e fez.

Os gays da administração Trump rejeitam tal opróbrio como reclamações exageradas dos liberais. Eles argumentam que a batalha pelos direitos dos homossexuais foi basicamente vencida e que nunca houve um republicano tão favorável aos homossexuais quanto Trump.

 

“Trump é como um drag queen”.

Sempre houve homens homossexuais no poder em Washington, mas raramente assumiam essa tendência. Há alguns anos, um jornalista da capital federal , James Kirchick, publicou “Secret City: The Hidden History of Gay Washington” (Cidade secreta: a história oculta da Washington homossexual), uma história abrangente e definitiva sobre o assunto.

“Ser gay era a pior coisa que se podia ser na política americana”, escreveu Kirchick, que lembrou uma famosa citação, proferida em 1983 pelo ex-deputado Edwin Edwards, democrata da Louisiana:

“A única maneira de eu perder esta eleição é se for apanhado na cama com uma rapariga morta ou um rapaz vivo”.

Kirchick, de 41 anos, disse ao NYT que uma maneira de ver o quanto tudo mudou nos últimos anos é observar como eram as coisas sob o último presidente republicano antes de Trump, George W. Bush.

“Havia pessoas gay de alto escalão naquele governo, mas elas tinham que ser muito discretas sobre isso.”

O jornalista tem sido um crítico ferrenho de Trump, mas observou uma diferença importante quando se trata deste presidente:

“O próprio Trump é obviamente uma grande parte do que mudou. Ele está claramente à vontade com pessoas gay.”

Antes da sua entrada na política, Trump falava publicamente sobre homossexuais da maneira que se poderia esperar de um magnata liberal nova-iorquino. Certa vez, perguntou a um participante do programa ‘The Apprentice’ se ele era homossexual. Quando o homem disse que sim, Trump respondeu:

“Eu gosto de bife; outra pessoa gosta de esparguete. É por isso que os restaurantes têm menus. O mundo é maravilhoso.”

Trump permitiu que pessoas gays se juntassem em Mar-a-Lago e ali realizavam casamentos, quando outros clubes em Palm Beach ainda discriminavam. Um dos seus associados disse que, no período em que Trump considerava a possibilidade de uma candidatura à presidência, ele explicou em particular o seu pensamento sobre questões políticas relacionadas com os gays, como a igualdade no casamento, da seguinte forma:

“Eu adoro os gays. Eles pagam mais pelos casamentos.”

 

 

Mas depois escolheu para vice-presidente o governador de Indiana, Mike Pence, que tinha um longo histórico de oposição aos direitos LGBT. E havia também o facto de que a base política que Trump havia reunido e precisava apaziguar incluía muitos eleitores que não simpatizavam com orgulhos, paradas e travestis na hora do conto; tanto mais que a sua candidatura não iria a lado nenhum sem o apoio das igrejas evangélicas. Assim que assumiu o cargo, proibiu as pessoas transgénero de entrarem para as Forças Armadas. Recentemente, zombou do casamento homossexual de Pete Buttigieg.

Mencione qualquer uma dessas coisas aos A-Gays, e eles riem-se e insistem que ninguém pode dizer com seriedade que o movimento MAGA é homofóbico, criticando os aspectos que consideram excessivos da cultura gay e, referindo até que na véspera da sua tomada de posse este ano, o presidente dançou no palco com os Village People enquanto o grupo tocava “Y.M.C.A.”, um hino tão maricas como a banda.

 

 

Kirchick chega ao ponto hiperbólico de dizer que o presidente norte-americano é um “drag queen” com um ego só comparável ao de Alexandre:

“Ele é como um drag queen. É escandaloso. É transgressor. É malicioso. É um narcisista como não víamos desde Alexandre, o Grande”.

Casey Flores, um gay MAGA de 34 anos que se mudou para Washington em Abril e começou a trabalhar no Kennedy Center como angariador de fundos, afirmou ainda a este propósito:

“A esquerda gay simplesmente não consegue lidar com o facto de que o presidente Trump ama os gays. Essa ideia de que os republicanos odeiam os gays — isso simplesmente não é verdade, como fica claro para todos nós. Estamos cansados disso. Só queremos ajudar o país.”

Flores, que não é casado, disse que “não está particularmente preocupado com a revogação do casamento gay”, principalmente por causa de algumas “protecções” aprovadas por uma coligação bipartidária de legisladores no Congresso, que o presidente Joe Biden sancionou em 2022 e que determina o reconhecimento federal do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Além disso, segundo Flores,

“ninguém é mais cruel com os gays do que outros gays. Os gays de esquerda odeiam os cristãos socialmente conservadores mais do que esse grupo odeia os gays, e acho que isso fica evidente todos os dias nas redes sociais e em outros lugares.”

 

O “bife ou o esparguete” não interessam à política.

O ContraCultura concorda com Donald Trump quando diz que “uns gostam de bife e outros de esparguete” e ninguém tem nada que ver com isso. Mas, ao contrário do que parece pensar James Kirchick, aconselha que a vida íntima de cada um, na política como em tudo o resto, continue a pontificar pela discrição. E desconfia de aparatchiks como Charles Moran, que gostam de usar as suas inclinações sexuais como “uma ferramenta” política.

E para que fique claro: seríamos os primeiros a criticar qualquer heterossexual que fizesse o mesmo. Seria ou não ridículo um clube de A-Straights, constituído por heteressoxuais que trabalham na actual administração americana?

A defesa e representação dos interesses dos cidadãos, que é – ou deveria ser – o motivo primeiro da actividade política, não depende – ou não deveria depender – das preferências de cama de quem exerce o poder. Ou como escreveu certa vez Marco António, numa carta dirigida a Octávio Augusto:

“Que importa, realmente, onde e por quem o teu sexo se arrebita?”

Além do mais, é duvidoso que o eleitorado de Donald Trump projectasse um protagonismo assim tão visível da comunidade gay na administração que elegeu. Segundo um estudo da neo-liberal UCLA,  5,5% da população dos EUA identifica-se como LGBT. Mas dá claramente a sensação de que a comunidade homossexual está sobre-representada na actual administração (acontece exactamente o mesmo com a comunidade judaica e a sua influência nas esferas do poder da federação americana).

Vasculhando apenas os cargos de topo, que excluem os soldados LGBT como Moran, e para além dos já citados Peter Thiel, Scott Bessent (considerado o funcionário assumidamente gay de mais alto nível na história dos EUA); Ric Grennel, Tony Fabrizio, Trent Morse e Jacob Helberg; encontramos Tammy Bruce, a nova porta-voz do Departamento de Estado, Bill White, embaixador na Bélgica e Art Fisher, embaixador na Áustria.

E pelo menos outros 10 americanos LGBT proeminentes ocupam cargos importantes na administração, segundo o New York Post. Lindsey Graham, o falcão da guerra que será o senador com maior influência na Sala Oval, também é homossexual.

Mas na verdade não era de esperar outra coisa, porque como não nos cansamos de repetir há muitos anos, Donald Trump é e será sempre um típico liberal de Nova Iorque.