O mercado de trabalho norte-americano está a revelar uma tendência alarmante: muitos recém-licenciados em Ciências da Computação estão a ter dificuldades em encontrar emprego. De acordo com um relatório do Federal Reserve Bank de Nova Iorque, quem tem diplomas em Ciência da Computação e Engenharia Informática (EC) enfrenta taxas de desemprego nos EUA de 6,1% e 7,5%, respectivamente — números que são mais do dobro das taxas observadas entre os recém-licenciados em áreas como História da Arte (3%) e Estudos Étnicos (2,6%), por incrível que possa parecer. Além disso, a Informática e a Computação estão entre a terceira e a oitava piores áreas em termos de desemprego entre as mais de 70 áreas analisadas pelo relatório.
Estes licenciados em Ciências da Computação desempregados têm razões convincentes para se sentirem frustrados, especialmente quando, durante mais de uma década, líderes tecnológicos, influenciadores, economistas e políticos lhes disseram que aprender a programar era o caminho certo para empregos bem remunerados e um futuro promissor.
Desde o início da década de 2010 que grandes empresas tecnológicas como a Microsoft e o Facebook têm manifestado preocupações com a falta de programadores qualificados. Em resposta, os gémeos Hadi e Ali Partovi, empreendedores e investidores do sector tecnológico, lançaram o Code.org em 2013 para defender o ensino da Ciência da Computação nas escolas primárias e secundárias. O seu site apresenta recomendações inspiradoras de figuras influentes como Bill Gates e Mark Zuckerberg, reforçando a importância das competências de programação para a próxima geração.
Poucas figuras políticas defenderam o apelo para que os jovens “aprendam a programar” com tanto fervor como o ex-presidente Barack Obama. Em 2013, deu início à “Semana de Educação em Ciência da Computação” do Code.org com uma mensagem em vídeo, incentivando todos os alunos a adoptar a programação, proclamando que “aprender estas competências não é apenas importante para o seu futuro — é importante para o futuro da América”.
No ano seguinte, as grandes empresas tecnológicas apoiaram uma campanha de 30 milhões de dólares para promover o ensino da Ciência da Computação nas escolas. Para demonstrar o seu apoio, Obama visitou uma sala de aula em New Jersey e tornou-se o primeiro presidente a escrever uma linha de código, inspirando uma geração a dedicar-se à programação.
Algumas vozes manifestaram preocupações já nessa altura. Alguns questionaram a alegada escassez de programadores informáticos, referindo que apenas cerca de dois terços dos licenciados em ciências da computação e da informação conseguiram empregos na sua área. Outros mostraram-se preocupados com a falta de investigação que comprovasse a eficácia dos currículos de ciência da computação do Code.org e a adequação do ensino básico e secundário focado principalmente nas necessidades das empresas tecnológicas.
Os defensores que viam o “aprender a programar” como uma panaceia para o sucesso profissional ignoraram estas preocupações. Em 2016, Obama lançou a “Iniciativa Ciência da Computação para Todos” (CS for All), cujo objectivo era oferecer a “todos os alunos aulas práticas de ciência da computação e matemática que os preparassem para o mercado de trabalho desde o primeiro dia”. Esta iniciativa incluiu 4 biliões de dólares para os estados e 100 milhões de dólares para os distritos escolares, para melhorar o ensino de ciência da computação. Obama continuou a defender o movimento “aprender a programar” mesmo depois de deixar o cargo.
O vice-presidente de Obama, Joe Biden, deu um passo em frente em 2019, ao sugerir pateticamente que os mineiros aprendessem a programar para fazer a transição para “empregos de futuro”. Biden enfatizou:
“Qualquer pessoa que consiga deitar carvão numa fornalha pode aprender a programar, por amor de Deus!”.
Comentários deste género alucinado foram no entanto levados a sério por muitos jovens. O número de estudantes universitários norte-americanos com especialização em áreas relacionadas com a ciência da computação mais do que duplicou na última década, atingindo os 170.000 no ano passado.
Alguns destes estudantes provavelmente financiaram os seus estudos com empréstimos. Infelizmente, muitos deles estão agora a lutar para encontrar os empregos bem remunerados na área da tecnologia para os quais foram formados e que lhes foram prometidos, devido às mudanças drásticas no panorama tecnológico, impulsionadas por dois vectores fundamentais:
– A tendência que as tecnológicas americanas manifestam para contratar programadores e engenheiros asiáticos;
– O surgimento das tecnologias de Inteligência artificial (IA).
Como os engenheiros asiáticos são mais baratos de contratar (até porque não carregam dívidas monumentais relativas ao investimento que fizeram nos seus estudos) e porque a IA realiza tarefas de codificação de forma muito mais rápida e económica, as empresas tecnológicas têm vindo a despedir funcionários nativos a grande ritmo, e também a reduzir o número de novas vagas para cargos de nível básico. Até Julho, mais de 130.000 profissionais de tecnologia perderam os seus empregos nos EUA, seja porque os seus empregadores os substituíram por estrangeiros, por sistemas de IA ou porque optaram por realocar fundos para investimentos relacionados com a IA. Além disso, as vagas de emprego relacionadas com tecnologia diminuíram 36% em Julho, em comparação com o início de 2020.
E o que está a acontecer nos EUA, vai acontecer de seguida na Europa.
Incentivar os jovens a “aprender a programar” pode ser um dos conselhos de carreira mais errados de sempre. Mike Rowe, um célebre consultor de carreiras norte-americano, afirmou a este propósito:
“Há 15 anos que dizemos aos miúdos para programarem. E, bem, a IA está a acabar com os programadores.”
O director de oportunidades económicas do LinkedIn, Aneesh Raman, alertou que os cortes de emprego impulsionados pela IA são apenas o início de um movimento inescapável rumo ao desemprego massivo no sector tecnológico, e não só. O sector financeiro será o próximo afectado, uma vez que as grandes empresas de Wall Street planeiam alegadamente cortar as contratações até dois terços, já que estão a substituír os analistas juniores e até os bancários por sistemas de IA. O CEO da Ford Motor, Jim Farley, fez recentemente esta previsão:
“A Inteligência artificial substituirá literalmente metade de todos os trabalhadores de colarinho branco nos EUA”.
Isto enquanto a robótica substitui os trabalhadores de colarinho azul. Como o Contra já documentou, a Amazon planeia ter a curto prazo o mesmo número de robôs que de seres humanos a trabalhar nos seus armazéns. São centenas de milhar de empregos que vão desaparecer rapidamente.
Ainda assim, nem todos os empregos serão para já vítimas dos avanços da IA. De facto, as profissões especializadas — como a soldadura, a canalização e a electricidade — estão a enfrentar uma procura notável agora e continuarão a ter nos próximos anos, de acordo com Rowe, que estima que só o sector automóvel americano esteja à procura de 80.000 técnicos de reparação de colisões. Mas isto são projecções para os próximos cinco a dez anos. Ninguém consegue na verdade imaginar como será o mercado de trabalho mais à frente no tempo, dada a forma vertiginosa como as tecnologias de IA e de robótica estão a integrar-se e a desenvolver-se.
Posto isto, é melhor ter alguma cautela quando se recomendam aos jovens disciplinas e carreiras promissoras. É impossível prever o futuro e não existe um conselho de carreira que sirva para todos. Às tantas, o melhor que podemos fazer é identificar as vocações dos nossos filhos, e deixar que eles as persigam.
E se não precisarem, para isso, de frequentar os medonhos centros de mediocridade e propaganda em que se tornaram as universidades ocidentais, melhor ainda.
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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