Esta obra renascentista de virtude duvidosa chama-se A Virgem e o Menino com os Santos Luís e Margarida, uma pintura que a National Gallery acaba de adquirir por 16,4 milhões de libras — ou cerca de 22 milhões de euros. A Coisa tem alguns detalhes estranhos, o primeiro dos quais é que ninguém sabe quem a pintou.

Existem indícios na pintura que permitiram à National Gallery estimar que foi criada por volta de 1510 e que é francesa ou holandesa. Quando o trabalho apareceu pela primeira vez nos registos históricos, em 1803, foi atribuído a Jan Gossaert. Mas, com o tempo, os estudiosos começaram a ter dúvidas. Foi também dito que a pintura poderia ter sido criada por Jean Hey, mas ninguém sabe ao certo.

E mesmo que soubéssemos, dificilmente ficaríamos mais esclarecidos sobre os engimas que a obra esconde. Se não, vejamos.

Somos colocados no que parece ser uma capela ao ar livre. Os nossos olhos são imediatamente atraídos para a Virgem Maria, que está sentada no centro da pintura e no que parece ser um trono (mesmo sentada é mais alta que os restantes figurantes), e segura o menino Jesus no colo. O menino, cuja representação facial não é muito feliz (para não sermos mauzinhos com o anónimo mestre) olha para um homem que veste uma túnica azul à esquerda do quadro. Este será o Rei Luis IX de França, canonizado pelo papa Bonifácio VIII em 1297 e a parti daí mais conhecido por São Luís. O rei francês não parece muito satisfeito com o facto de ter sido destronado por Maria, mas as suas feições são tão específicas que os historiadores de arte acreditam que este é um retrato realista do monarca, embora possa ter sido pintado dois séculos depois da sua morte. Luís usa um colar da ordem real francesa de São Miguel e a sua túnica é bordada com uma flor-de-lis dourada, um símbolo histórico da monarquia francesa, mas o ceptro, onde foram esculpidas diversas formas humanas que parecem atropelar-se uma às outras numa escalada apocalíptica, não tem interpretação fácil.

A ladear a Virgem e o Menino, estão dois anjos. O anjo da direita segura uma pauta aberta com o cântico “Salve, Rainha do Céu, Salve, Senhora dos Anjos” — um conhecido hino católico dedicado a Maria. Também aqui encontramos um detalhe esquisito, porque se bem que seja possível interpretar a música lendo as notas que lá estão representadas, essa música não corresponderia ao cântico que é indicado. Para aumentar o índice enigmático da composição, o anjo à esquerda da pintura toca um berimbau, uma instrumento que não é propriamente adequado ao esplendor aristocrático de todo o quadro, nem à interpretação de um cântico católico, seja ele qual for.

A riqueza de detalhes com que o autor presenteou a posteridade continua quando olhamos para cima, para as figuras esculpidas nos pilares. Cada uma contém diferentes histórias do Antigo Testamento, se bem que algumas destas pequenas representações, que podem passar despercebidas ao primeiro olhar, não fazem qualquer sentido, religioso ou simplesmente narrativo.

Mas o que realmente cria dissonância nesta obra é que Santa Margarida está ajoelhada sobre um monstro que supostamente representa Satanás. Segundo a lenda, Santa Margarida foi aprisionada por se recusar a renunciar à sua fé quando Satanás apareceu sob a forma de dragão e a engoliu. Mas como ela segurava uma cruz (neste caso segura uma flor), as entranhas do dragão revoltaram-se de tal forma que acabaram por rebentar — e até podemos ver a fenda resultante na carapaça do bicho, onde a santa está ajoelhada.

Acontece que o dragão diabólico, se o sujeitarmos a uma análise mais atenta, é repulsivo, mas não parece lá muito perigoso. A mão direita do Rei francês parece aconselhar calma à besta, mas a besta parece completamente pacificada. E se o substituíssemos por um cão, por exemplo, talvez o conjunto fizesse mais sentido. Apesar de Margarida estar com os joelhos apoiados no seu dorso, ou talvez por isso mesmo, o monstro manifesta mais sinais de sofrimento do que de insubmissão – e até é digno de pena.

Mas para além de tudo o mais, a sua representação contrasta de forma deveras intrigante com tudo o resto: a composição respira solenidade, tranquilidade, santidade e tem preocupações claramente realistas. Mas choca completamente com o retrato caricato e bizarro, dir-se-ia característico de uma vinheta de banda-desenhada, do dragão, que está claramente a mais, no conjunto. É como se sobre uma fotografia oficial da família real britânica fosse colocado digitalmente um orc do Senhor dos Anéis.

Resta-nos especular sobre a reacção do patrono que encomendou a obra a este mestre desconhecido. Na melhor das hipóteses, pagou e calou por uma peça que lhe foi decorar o sótão.