Tudo é incerto a partir de agora. A recente reunião em Washington, D.C., onde o “monarca” reuniu Estados e organizações “vassalas”, revelou mais encenação do que diplomacia. A bajulação de alguns líderes foi notória — Mark Rutte é talvez o exemplo acabado dessa atitude subserviente.

Cogita-se agora a possibilidade de uma reunião trilateral entre Trump, Putin e Zelensky. O simples facto de tal hipótese ser considerada é inédito: negociações entre dois contendores em guerra aberta, sem qualquer cessar-fogo prévio. Por outro lado, normalmente, os grandes acordos são preparados por meses (ou anos) de negociações discretas entre diplomatas, militares e especialistas, num processo árduo conhecido no jargão diplomático como “partir pedra”. Aqui, esse trabalho prévio parece ausente: tudo se concentra em cimeiras de líderes, num espetáculo político mediático, mais do que num processo de paz estruturado.

 

A incógnita russa

Resta saber se Putin aceitará sentar-se à mesa com Zelensky, a quem considera ilegítimo. Caso o faça, essa decisão não será apenas simbólica: representará uma cedência significativa, embora calculada, do presidente russo. Mas dificilmente a reunião será quadrilateral, ou seja, com a presença da União Europeia e do Reino Unido. Uma vez mais, a Europa aparece marginalizada e humilhada, reduzida ao papel de obedecer à Casa Branca e financiar o esforço de guerra.

Quer se queira ou não, goste-se ou não, é Trump quem surge como o verdadeiro obreiro de uma eventual paz. Esta realidade é, em si mesma, uma derrota estratégica para a Europa: abdicar da sua soberania diplomática deixou-a dependente da agenda norte-americana e incapaz de agir como sujeito autónomo nas relações internacionais.

 

A questão de fundo: “terra pela paz”

No cerne do problema está a velha fórmula da diplomacia de conflitos: terra pela paz. A incógnita reside em saber até que ponto as partes estão dispostas a ceder.

• Do lado russo, Putin nunca fechou totalmente a porta às negociações, mas deixou claro que não aceitará concessões unilaterais. Questões como o estatuto da Crimeia, a neutralidade ucraniana ou a situação do Donbass terão de ser abordadas.

• Do lado ucraniano, a dificuldade é dupla: aceitar perdas territoriais sem colapsar politicamente e enfrentar a pressão de setores radicais que rejeitam qualquer compromisso.

• Do lado europeu, a fraqueza é crónica: preferiu a comodidade da submissão a Washington à complexidade da diplomacia autónoma. O “agradecimento” a Trump, que muitos líderes expressam, traduz na verdade um alívio — ele assume o peso político que a UE nunca quis carregar.

 

Desafios futuros

O caminho não será fácil, e os obstáculos estão bem identificados:

1. Trump vs. neocons: a sua maior batalha será interna. O establishment belicista em Washington — generais, lóbis industriais e think tanks — prospera com a guerra. Enfrentá-los exigirá coragem política e uma rutura dentro do seu próprio governo.

2. Putin e o realismo estratégico: o presidente russo negociará a partir de posições sólidas, não de fraqueza. Qualquer solução exigirá concessões também da Europa e da Ucrânia.

3. Trump vs. a Europa obediente: a União Europeia aceitou uma posição de tutela, mas poderá haver resistências internas — Macron, por exemplo, pode tentar afirmar-se como voz dissonante.

4. A fragilidade do processo: como já reconheceu Friedrich Merz, é mais difícil negociar a paz do que alimentar a guerra. Um gesto mal calculado de qualquer lado — Europa, Rússia ou facções internas nos EUA — pode arruinar todo o esforço.

 

O essencial

No fundo, não estamos perante diplomacia, mas diante de um teatro geopolítico cuidadosamente encenado. A hipocrisia europeia é evidente: quem renunciou à sua soberania diplomática não pode queixar-se da sua irrelevância estratégica.

A prova decisiva será ver se Trump consegue:

• Domar os belicistas de Washington;
• Forçar a Europa a aceitar uma paz contrária aos seus dogmas;
• Convencer Putin de que os termos oferecidos são melhores do que o impasse atual.

A humilhação europeia é real, mas é secundária. O que realmente importa é saber se esta frágil abertura resistirá à força dos interesses que prosperam com a guerra. A partir de agora, o difícil começa — e será decisivo.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.