Depois da excursão dos poderes instituídos na Europa que escoltou Zelensky na sua visita à Casa Branca, na sequência do encontro do Alasca entre Donald Trump e Vladimir Putin, nada na verdade mudou.

Donald Trump parece (parece, apenas) estar a fazer um esforço, não no sentido da paz, que todos sabemos ser neste momento um objectivo inalcançável, mas talvez na direcção de retirar os EUA do conflito na Ucrânia.

Tudo o resto será teatro. Se não vejamos:

No fim do encontro com o toxicodependente que a CIA em má hora colocou à frente dos destinos dos ucranianos, o Presidente norte-americano não descartou a possibilidade de enviar tropas para a Ucrânia, depois de firmado um eventual acordo de paz, como parte de uma garantia de segurança que no fundo se assemelha a uma adesão do país NATO. Trump afirmou a este propósito:

“Vamos dar-lhes uma protecção muito boa, uma segurança muito boa. Isso faz parte.”

Questionado especificamente se isso significava tropas norte-americanas no terreno, Trump respondeu:

“Vou informar sobre isso mais tarde. Também nos vamos reunir com sete grandes líderes de grandes países e falar sobre isso. Todos estarão envolvidos, mas haverá muita ajuda em termos de segurança, haverá muita ajuda, será bom. Eles são a primeira linha de defesa, porque estão lá, são a Europa, mas também os vamos ajudar, estaremos envolvidos.”

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo reagiu prontamente, divulgando um comunicado que rejeita previsível e categoricamente esta ideia de forças da NATO ou dos EUA (haverá diferença?) servirem como forças de manutenção da paz na Ucrânia:

“Confirmamos a posição expressa mais do que uma vez sobre a nossa rejeição categórica de qualquer cenário que envolva o surgimento de um contingente militar ucraniano com a participação de países da NATO (o que seria uma escalada descontrolada do conflito com consequências imprevisíveis).”

A ideia é completamente desajustada da realidade, já que um dos principais motivos que levaram Moscovo à acção militar na Ucrânia foi precisamente o de evitar a presença de forças ocidentais no país vizinho.

Por outro lado, Trump tem sugerido que a Ucrânia poderá aceitar um acordo de paz baseado em troca de terras com a Rússia, argumentando que esta será a forma mais eficiente de acabar com a guerra. Acontece que ninguém sabe que terras são estas que os russos estão disponíveis para trocar e essa circunstância, que nunca foi assumida por Moscovo, parece deveras improvável.

Entretanto, a União Europeia, sempre pronta a intensificar as hostilidades, está a preparar uma nova ronda de sanções contra a Rússia, nada mais, nada menos que a 19ª. Porque as anteriores 18 tiveram resultados espectaculares, não foi?

Em Anchorage, Vladimir Putin terá convencido Donald Trump que um eventual processo de paz dispensaria um cessar-fogo prévio, que só beneficiaria a Ucrânia. Na segunda-feira, o inquilino da Casa Branca reiterou essa convicção, afirmando:

“Não creio que seja necessário um cessar-fogo. Se olharmos para os seis acordos que fechei este ano, todos estavam em guerra – não fiz nenhum cessar-fogo. Sei que pode ser bom ter [um cessar-fogo], mas também compreendo, estrategicamente, que um país ou outro não queira. Tens um cessar-fogo, e eles reconstroem, reconstroem e reconstroem, e, sabes, talvez [os russos] não queiram isso. Gosto do conceito de cessar-fogo por uma razão: deixaria de matar pessoas imediatamente, em vez de em duas semanas ou uma semana, ou o que for preciso. Mas podemos chegar a um acordo, estamos a trabalhar num acordo de paz enquanto eles estão a lutar”.

Acontece que logo depois destas afirmações, o chanceler alemão Friedrich Merz, sempre pronto a complicar qualquer processo que possa alcançar um acordo de paz, por muito improvável que seja essa perspectiva, insistiu que a Rússia precisa de concordar com um cessar-fogo antes que as conversações de paz possam avançar.

Durante o encontro entre Trump e os líderes europeus, Merz contestou directamente a insistência do líder americano de que não era necessário um cessar-fogo antes da aprovação de um acordo formal de paz entre a Rússia e a Ucrânia, afirmando:

“Não consigo imaginar que a próxima reunião se realize sem um cessar-fogo. Por isso, vamos trabalhar nisso e tentar pressionar a Rússia, porque a credibilidade destes esforços que estamos a empreender hoje e o início das negociações sérias depende de, pelo menos, um cessar-fogo”.

A verdade é que, excluindo todas estas dissonâncias, a única conclusão a que esta gente chegou é que estarão de acordo quanto à necessidade de um encontro trilateral entre Zelensky, Putin e Trump.

O Kremlin, porém, não se comprometeu com essa reunião de líderes anunciada por Trump, declarando laconicamente à agência TASS que observa favoravelmente a “continuidade das negociações directas entre as delegações da Federação Russa e da Ucrânia.”

Isto é muito mais cauteloso do que a publicação de Trump no Truth Social, afirmando que iniciou “os preparativos para um encontro” entre Putin e Zelensky, com Merz a afirmar até que tal aconteceria dentro de duas semanas.

A resposta evasiva do Kremlin sugere que ainda existem lacunas significativas entre o calendário optimista de Trump e a posição de Moscovo. E não se vislumbra uma solução que possa conciliar posições tão diversas entre russos, ucranianos, europeus e americanos.