“Estaline foi um produto do seu tempo, e há diferentes opiniões sobre ele, desde demonizá-lo até reconhecer o seu papel na luta contra o nazismo. A história inglesa tem Cromwell. Ele chegou ao poder durante a revolução e tornou-se um tirano sanguinário, mas os seus monumentos estão por toda a parte no Reino Unido. Napoleão é quase um deus em França. Ele também chegou ao poder após a revolução e não só reinstaurou a monarquia, como se auto-proclamou imperador e levou a França ao desastre nacional. Há muitas figuras como essas na história mundial.
Demonizar excessivamente Estaline é uma forma de atacar a União Soviética e a Rússia. A Rússia mudou radicalmente. Mas é claro que algo ainda permanece nas mentes, mas isso não significa que tenhamos de esquecer todos os horrores do estalinismo, os campos de concentração e a destruição de milhões de compatriotas.”

Vladimir Putin . 2017

 

Um dos problemas centrais daqueles que acordaram subitamente, ou não tão subitamente, para a grande fraude liberal do Ocidente é que quanto mais sabemos sobre a farsa, mais difícil é acreditar seja no que for e seja em quem for.

Com exclusão de Jesus Cristo e dos evangelhos, claro.

Ora, o redactor deste texto deve assumir que nesta altura do campeonato é céptico sobre quase tudo o que pensava que sabia com algum grau de certeza, há, digamos, dez anos atrás; céptico sobre quase todos os dogmas que lhe ensinaram as academias e que lhe venderam na comunicação social; e céptico em relação às suas próprias ideias e avaliações sobre qualquer figura política, histórica ou contemporânea.

A este propósito vem à conversa uma interessantíssima e corajosa dissertação do Academic Agent (também conhecido por Neema Parvini) sobre a baixa fiabilidade do que sabemos, do que nos foi ensinado, do que nos foi doutrinado sobre… José Estaline.

Sim, é uma chatice, mas aquilo que nos ensinaram sobre Estaline tem muito de pura propaganda.

No vídeo em baixo, Neema Parvini coloca diversas reticências à historiografia oficial sobre o ditador soviético, tendo como fundamento do seu revisionismo o trabalho publicado sobre esta matéria por Grover Furr, um professor formado na Ivy League e docente da Universidade de Monclair, especializado em literatura medieval e na Rússia estalinista.

 

 

Para que não haja equívocos, é imperativo dizer que, como qualquer regular leitor do Contra sabe muito bem, esta publicação não nutre qualquer simpatia pela ideologia comunista ou por sistemas totalitários, venham eles de onde vierem. E é claro que Estaline foi certamente um tipo detestável (é dizer pouco). Um genocida da pior espécie, sem dúvida. Junto com Mao Ze Dong e Adolf Hitler, um dos mais sinistros ditadores da história. Mas acontece isto: não pode ter mandado matar 60 milhões de desgraçados, ou 30, ou mesmo 10, como temos sido constantemente formatados a aceitar como verdadeiro.

E por uma razão muito simples:

 

Este é o gráfico da evolução demográfica na Rússia, desde 1927 até aos dias presentes. A quebra que vemos entre 1940 e 1946 deve-se obviamente aos milhões de russos que morreram na guerra (~20 milhões). O reinado de Estaline prolongou-se entre 1922 e 1953, mas tanto antes como depois da guerra não há quebras demográficas que justifiquem os números abismais que são repetidamente anunciados pelos historiadores, pelo contrário. Tanto mais que a Rússia nesse período nunca chegou a ter mais de 120 milhões de habitantes. Qualquer genocídio com a escala que foi propagada depois da sua morte seria inevitavelmente reflectido na curva demográfica.

Além disso, há que considerar que a Rússia estalinista registou números de crescimento económico que em alguns anos atingiram os 10%, e de crescimento industrial de 400%. Como é que é possível, na primeira metade do século XX, em que a mão de obra era imprescindível para o cumprimento destes objectivos altamente ambiciosos, um crescimento assim, se Estaline estava a matar fatias substantivas da população (e, logo, do operariado)?

 

 

A credibilidade das fontes, pertinentemente evocada por Parvini e Furr, também deixa muitas dúvidas. Como é que foi propagada a tese do gigantesco morticínio estalinista? Parvini montou um gráfico simplista, mas interessante e meio divertido, sobre esta questão:

 

 

Na verdade, tudo começa com Trotsky, que é exilado, como sabemos, por ter uma visão internacionalista do comunismo, enquanto Estaline defendia uma abordagem nacional, que muito jeito lhe deu quando depois foi preciso mobilizar a Rússia para a guerra. Foi Trotsky, já no México, que propagou a imagem de Estaline como um tirano grosseiro, paranoico e genocida. Considerando as divergências ideológicas, a rivalidade pessoal e o ressentimento do exilado, a fonte não tem grande credibilidade (de certa forma, o mesmo acontece com as denúncias de Solzhenitsyn, que derivam da sua dissidência e de ter sido condenado pelo regime ao jugo do gulag), mas foi logo aceite como válida em certos sectores da esquerda bem pensante do tempo, e pela imprensa ocidental, tanto nos EUA como no Reino Unido.

 

 

Depois da morte de Estaline, Nikita Krushchev recuperou essa visão trotskista do ditador russo para proveito próprio, considerando a forma caótica – e maquiavélica – como ascendeu ao poder. Nessa altura, a narrativa entrou definitivamente nas academias ocidentais, principalmente por mão de Robert Conquest, um académico que começou por ser membro do Partido Comunista Britânico para depois fazer carreira pela condenação dos horrores do comunismo em geral e do estalinismo em particular.

O problema é que os números da mortandade estalinista nunca passaram de estimativas, que derivaram das acusações não documentadas de Trotsky e do recurso a dados altamente especulativos, até porque a informação sobre mortos e presos na União Soviética não era propriamente do domínio público, como é óbvio.

Até mesmo a narrativa da grande fome do Holodomor, contada no Ocidente como um acto intencional de Estaline, é hoje abertamente discutida por historiadores como R. W. Davies e Stephen Wheatcroft, que contrapõem que o regime não tinha qualquer vantagem em matar por inanição dez milhões de ucranianos (sendo que mesmo este número tem sido posto em causa por investigações recentes que apontam para 3 a 4 milhões de mortos), e que o cataclismo decorreu de circunstâncias naturais (climáticas e de fertilidade do solo) ou por incapacidade de previsão das consequências da colectivização da propriedade agrícola.

Parvino pergunta-se, a certa altura do seu vídeo, se é plausível que os russos contemporâneos, com Vladimir Putin à cabeça, mantenham apesar de tudo uma imagem moderadamente favorável, ou pelo menos respeitosa, de Estaline, ao ponto de ainda hoje lhe erguerem estátuas. Um homem que assassina 30 milhões ou 40 milhões de compatriotas não pode ser visto por eles como um estadista digno de homenagem. Mesmo considerando o intenso sentido patriótico dos russos e alguma nostalgia que certos sectores da sociedade russa alimentam pelas “glórias” soviéticas.

Outro caso em que há razões sólidas para considerar que o relato que nos chegou da era estalinista é de carácter francamente propagandístico refere-se aos famosos – ou infames – Processos de Moscovo. A história que nos foi contada relata uma série de julgamentos de fachada, criados apenas para conduzir ao cadafalso apparatchiks que Estaline considerava indesejáveis. Porém, os arquivos desses processos, recentemente tonados públicos e estudados por Furr, permitem concluir que a maior parte dos condenados conspiravam de facto contra o regime, e correspondiam-se activamente com Trotsky. Ou seja, foram, no quadro legal que imperava na União Soviética do tempo, justificadamente condenados por traição.

Mais uma vez, sublinho que não se legitima aqui um regime que condena à morte os dissidentes políticos (será preciso dizê-lo?). Mas vale a pena percebermos que a versão dos acontecimentos que nos foi apresentada durante décadas é, no mínimo, discutível e, claramente, fruto de uma operação de propaganda. Por muito que nos custe.

O trabalho de investigação de Grover Furr e a análise de Neema Parvini levam-nos mais longe, para uma narrativa diferente do Tratado Molotov–Ribbentrop e até da invasão soviética da Polónia, mas, para não tornar este texto exaustivo, aconselho que os interessados neste assunto façam a sua própria pesquisa e consumam com atenção a conversa que entretanto o Academic Agent gravou com Furr.

 

 

Seja como for, serve este texto para alertar a gentil audiência: tudo o que julgamos saber deriva de uma visão liberal do mundo, altamente politizada, na qual fomos implacavelmente formatados. A imagem que abre este texto é claramente propagandística e foi escolhida precisamente por causa disso. Representa Estaline como um carinhoso pai, que transporta num abraço protector a sua filha Svetlana ao colo. Esta era a imagem que o regime soviético queria propagar sobre o seu líder. Mas do outro lado, o regime liberal ocidental quis propagar a imagem inversa, do genocida sem paralelo, imagem do mal absoluto. A verdade será, necessariamente, divergente dessas narrativas, sendo que a novela ocidental foi fabricada nas academias em que hoje não confiamos, pela imprensa corporativa que hoje desprezamos, e por políticos que hoje desconsideramos.

E se hoje pensamos diferente do que pensávamos no século XX sobre a credibilidade destas máquinas de formatação da opinião pública, não devemos talvez considerar que também nessa altura, já trabalhavam activamente para nos desinformar?

Temos a obrigação moral, para connosco e para com o legado que vamos deixar aos nossos filhos, de colocar tudo em questão. Inquirir criticamente as narrativas que nos foram impingidas, por muito que nos custe. E pensar pelas nossas próprias cabeças. Foi para isso que Deus nos deu estes cérebros magníficos.