“Posso ser considerado herético, mas sempre suspeitei que Alain tinha uma habilidade maior.”
Frank Williams, referindo-se a Alain Prost e Ayrton Senna
O Contracultura está ciente que Alain Prost não é um personagem muito simpático e que a maior parte dos fãs de Fórmula 1 não o têm como ídolo e que preferem eleger, dependendo da sua faixa etária, outros grandes campeões como Jackie Stewart, James Hunt, Niki Lauda, Ayrton Senna, Nigel Mansell, Michael Schumacher, Lewis Hamilton ou Max Verstappen.
Mas para defender o valor do piloto francês, basta enumerar os factos. Alain Marie Pascal Prost correu para as 4 principais equipas da F1 do seu tempo: Renault, McLaren, Ferrari e Williams. Ganhou títulos mundiais para duas dessas marcas. Na Renault, de que foi o grande responsável pelo futuro sucesso, venceu “apenas” 8 grandes prémios ao volante da marca que foi pioneira na introdução da tecnologia turbo na F1 e que por isso mostrava grandes problemas de fiabilidade. Os companheiros de equipa que teve nesse tempo foram René Arnoux, um piloto rápido e agressivo que sempre foi excelente a partir motores, e Jean Pierre Jaboille que deve ter terminado para aí duas provas na sua vida de azarado profissional. Nos dois anos que esteve na Ferrari foi vice-campeão em 1990 e quinto em 1991. É claro que a Ferrari desses dias não era bem uma equipa vencedora: a Scuderia não conseguiu ser campeã com ninguém entre 1983 e 1999.

Nas doze épocas que correu na categoria máxima do automobilismo, Alain Prost nunca fechou abaixo do top 5 e esteve na disputa pelo título em dez temporadas. Foi 4 vezes campeão do mundo, sendo um dos mais bem sucedidos pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos. Mas atenção: todos os seus títulos foram conquistados com pilotos que vieram a ser campeões do mundo como colegas de equipa: Niki Lauda, Ayrton Senna, Keke Rosberg e Damon Hill. Na época de 1984 perdeu o título para Nikki Lauda por meio ponto. Sim, meio ponto. Ainda assim e apesar de ter sido tantas vezes campeão do mundo como vice-campeão, os seus detractores lá lhe inventaram a deselegante alcunha de “eterno segundo”. A ter o epíteto alguma coisa de razoável, seria simetricamente justo que lhe chamássemos o “eterno primeiro”.

Na sua brilhante carreira, Prost disputou 200 grandes prémios, ganhando 51, subindo ao pódio por 106 ocasiões, partindo em primeiro lugar da grelha de partida por 33 vezes e batendo o recorde de volta em 41 corridas. Conhecido pela sua abordagem cerebral e estratégica a cada grande prémio; por saber, como ninguém, ajustar o seu automóvel às circunstâncias do circuito e da corrida, e por gostar de correr de trás para a frente, Prost será talvez o piloto que mais ultrapassagens executou na história da F1, encetando inúmeras recuperações espetaculares. Por isso, ficou para sempre conhecido como “o Professor” e até Nikk Lauda se lhe referia como o “fast sun of a bitch”.
Alain Prost foi eleito o desportista mundial do século XX, na categoria dos desportos motorizados.

É certo que o ás francês não corria riscos desnecessários, a sua condução era de uma precisão absolutamente extraterrestre e o seu entendimento dos limites do carro e da pista estava no plano cirúrgico. Alimentando um estilo lacónico e discreto envolveu-se apenas em situações mais polémicas e actos mais discutíveis com um piloto que, apesar do seu virtuosismo inegável, foi o rei das situações polémicas e dos actos discutíveis: Ayrton Senna. A rivalidade entre os dois é lendária e a história tem considerado Ayrton Senna como o piloto que saiu glorificado dessa contenda, embora tenha somado menos títulos mundiais e menos vitórias em grandes prémios. O ContraCultura discorda desse juízo retroactivo. Considerando os rivais com quem teve que se bater, a natureza selvática dos automóveis desse tempo, os sucessos que conquistou e a forma elegante, limpa e cavalheiresca como corria, o ContraCultura considera que o Professor foi o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos. E daí, este tributo.

Porque os donos da Fórmula 1 não deixam que se partilhem os seus vídeos e fazem tudo o que é possível para interditar documentos publicados por outras partes com imagens, mesmo que antigas, da competição; porque estamos a falar de corridas que sucederam há mais de 30 anos; e porque Prost não é o mais amado dos pilotos; não abundam registos fílmicos com qualidade aceitável que possibilitem a ilustração desta opinião, embora os dados estatísticos falem por si. Seja como for e porque esta série é fundada na documentação vídeo de momentos épicos do automobilismo, deixamos aqui uns poucos registos espectaculares da carreira de Prost.
1981: em Hockenheim um dos mais belos duelos da Fórmula 1.
Começamos por um momento em que não é Prost que brilha mais, sendo Alan Jones que resplandece à custa do francês. Depois de vinte e tal voltas de um duelo que ficou para os anais da modalidade, o piloto australiano faz algo de absolutamente virtuoso. Uma ultrapassagem tão bela que é difícil de transcrever em palavras. Um momento olímpico, retirado do tempo em que a Fórmula 1 era um espectáculo emocionante. Do tempo em que os pilotos conduziam os automóveis em vez de serem conduzidos por eles.
1988: Os dois rivais num confronto eterno.
No Autódromo do Estoril, Prost e Senna, os dois ao volante do célebre Mclaren MP4/4 de motor Honda, aquele que é considerado por muitos o melhor carro de F1 alguma vez construído, batem-se durante uma boa parte da corrida. Logo nas primeiras voltas, o brasileiro tenta intimidar o francês, encostando-o aos rails da recta da meta, mas Prost mostra que, apesar da sua reputação de piloto cauteloso, também tinha nervos de aço, mantendo o pé na tábua e ultrapassando o seu adversário.
Umas semanas mais tarde, encontrando talvez inspiração na grande maldade que Alan Jones lhe fizera 7 anos antes, Alain Prost aproveita o momento da dobragem de um piloto atrasado para passar Senna com toda a classe deste mundo, em Paul Ricard. Mais que a vitória na corrida, os dois disputavam o campeonato do mundo desse ano, que o brasileiro viria a conquistar.
1990: de décimo terceiro a primeiro, no México.
Alain Prost sai de décimo terceiro na grelha de partida para levar o seu Ferrari à vitória. E fê-lo com uma classe incomparável, em que cada ultrapassagem se plasma como um momento de génio. Infelizmente, em vídeo publicável aqui no Contracultura, só podemos assistir a um breve documentário em francês sobre este feito. O resumo da épica corrida pode ser visto aqui.
O professor explica como se faz.
Ao volante do Williams FW 15C, o tetra-campeão do mundo abre o livro e explica como negociar o mítico ring de Hockenheim. Momentos de pura pedagogia, ideais para fechar este tributo.
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