No contexto da vaga imensa de informadores, a maior parte deles ligados às forças armadas ou aos serviços de inteligência americanos, que, nos últimos dois ou três anos, para além de partilharem contactos e experiências diversas com engenhos anómalos e entidades aparentemente não humanas, têm também revelado alegados programas de resgate de naves e tecnologia alienígena, a administração Trump tem dado sinais contraditórios sobre a sua vontade de transparência nesta matéria.

Logo no princípio do seu segundo mandato e depois de prometer em campanha que diria a verdade sobre os “drones de New Jersey“, Donald Trump seguiu o manual de normas da anterior administração e tentou encobrir a verdade sobre o caso, afirmando laconicamente que os engenhos que infestaram os céus da costa nordeste americana tinham autorização da FAA para voar e “não eram o inimigo”.

Mas nas últimas semanas têm circulado rumores que o próprio Presidente pretenderá utilizar este dossier como contrapeso político, contrariando as críticas de que está a ser alvo pela opacidade da sua praxis governamental noutras matérias, através de algum tipo de revelações que possa fazer sobre o fenómeno OVNI (ou UAP).

Por seu lado, a Subcomissão de Supervisão da Câmara sobre Segurança Nacional realizou várias audições dedicadas ao assunto. Representantes de ambos os partidos manifestaram interesse em aumentar a transparência e desclassificar a informação sobre UAPs. Mas estes inquéritos não têm produzido resultados palpáveis.

O Pentágono,  depois de fornecer ao New York Times, em 2017, a história que terá sido, hipoteticamente, o motor de arranque para uma eventual revelação futura sobre o fenómeno, mostra um comportamento também dual, negando sucessivamente alegações sobre o seu envolvimento com alegadas entidades e tecnologias não humanas, enquanto, a conta gotas, vai deixando escapar informação que contraria a sua narrativa oficial.

Em 2022, 1.500 páginas de investigação relacionada com OVNIs foram desclassificadas pelo comando militar norte-americano, revelando que os encontros com veículos de origem e natureza desconhecidas têm deixado as testemunhas com queimaduras por radiação, danos cerebrais e perturbações do sistema nervoso.

No ano passado, o director do AARO, a agência que analisa ocorrências OVNI do Pentágono, testemunhou perante o Congresso que observou e registou “objectos anómalos” que desafiam qualquer explicação. Também em 2024, ficámos a saber que um programa secreto do alto comando militar americano, destinado à recuperação e supressão de dados relativos a OVNIs, tem sido escondido da supervisão do Congresso desde 2017.

Por outro lado, informadores como David Grusch, Luis Elizondo e Jacob Barber não poderiam vir a público com revelações sobre matérias classificadas sem a autorização das forças armadas americanas e/ou dos seus serviços de inteligência, sob o sério risco de sofrerem penalizações legais assustadoras. Muitos dos informadores já confirmaram inclusivamente que estão a revelar aquilo que foram autorizados a revelar e não tudo o que sabem sobre o fenómeno.

Ora, a partir do momento em que este assunto entra nas agendas do Pentágono, do Congresso e da Casa Branca, teremos sempre e inevitavelmente que considerar tudo o que os seus intérpretes possam dizer com a mesma e substancial quantidade de cepticismo que aplicamos a qualquer outro tópico do discurso político contemporâneo.

É neste cenário – já turvado pela dualidade, pela dúvida e pela suspeita – que Tulsi Gabbard, a Directora de Inteligência dos EUA, declarou esta semana acreditar que existe vida extraterrestre. Sublinhando que deve ser cautelosa ao discutir informações confidenciais, Gabbard fez estes comentários durante uma participação no podcast Pod Force One, apresentado pela jornalista do New York Post Miranda Devine (a mesma que em 2020 denunciou o escândalo do computador portátil de Hunter Biden).

 

 

Quando questionada directamente se acredita em alienígenas, Gabbard respondeu:

“Tenho os meus próprios pontos de vista e opiniões. Nesta função, preciso de ter cuidado com o que partilho”.

Logo a seguir, a entrevistada confirmou a sua crença pessoal na existência de extraterrestres e objectos voadores não identificados.

Gabbard observou que, embora o seu gabinete “não tenha actualmente provas concretas prontas a serem divulgadas”, continua empenhada na transparência:

“Continuamos a procurar a verdade e a partilhar essa verdade com o povo americano”

A conversa também abordou as questões não resolvidas sobre os “drones de New Jersey” e avistamentos concomitantes noutras partes do país, momento em que a alta funcionária da administração Trump afirmou:

“Eu, pessoalmente, ainda tenho muitas perguntas sem resposta”.

 

 

A ambiguidade destas declarações é gritante: Gabbard dá nitidamente a entender que possui dados de inteligência que confirmam a sua opinião, mas que são de tal forma sensíveis que não os pode simplesmente despejar no domínio público. E não deixa de ser curioso que tenha colocado em questão a própria versão dos acontecimentos que a Casa Branca fabricou sobre os “drones de New Jersey”.

Se está a ser sincera, ou se está a fazer o jogo político que lhe foi encomendado pela ala oeste da Casa Branca, só o tempo o dirá. Mas uma coisa é certa: qualquer iniciativa de ‘disclosure’ que provenha da actual administração será sempre encarada com suspeita, dado o seu insistente comportamento falacioso e a tendência que tem mostrado para gasear as massas com desinformação e narrativas fraudulentas, desde que tomou posse.

E qualquer pessoa que tenha investido algum tempo no estudo desta matéria sabe que informação fidedigna e factual relacionada com o assunto não será nunca acessível à esfera dos políticos, simples representantes eleitos do povo e – por isso – de baixa fiabilidade para aqueles que têm mantido diversas e insondáveis camadas de secretismo, durante décadas, sobre o fenómeno.