Se há algo que não temos forma de contornar nesta viagem nem na vida é o inexorável passar do tempo, como uma regularidade assustadora e mais certo que muitas das previsões económicas destes novos oráculos que são os políticos, os atuais e os de outros tempos.
Vamos para a última das igrejas da Ásia Menor que estamos a visitar, no âmbito do futuro programa que vai abordar as viagens missionárias do Apóstolo Paulo, bem com a sua influência nestas coordenadas geográficas. Vamos igualmente a caminho da segunda igreja, a par de Filadélfia, que não recebeu nenhuma repreensão de Deus pela mão do exilado Apóstolo João, nas cartas que fazem parte do livro de Apocalipse.
Esmirna era uma das mais belas e importantes cidades da região e a sua localização, nas costas do mar Egeu, dava-lhe uma vantagem a nível comercial e cultural, que acompanhada por uma forte lealdade a Roma e já um culto ao Imperador, bem como presença de focos de paganismo, a tornavam influente bem para lá das suas fronteiras.
Com Éfeso a pouco mais de 80 quilómetros e tendo Paulo ficado na cidade de Artemisa por cerca de 2 anos, não é de estranhar que possa cá ter vindo e menos ainda que possa ter enviado Timóteo, Tíquico ou Epafras, e através destes discípulos evangelizar as pessoas para o Caminho.
O sítio arqueológico de Esmirna é dos que eu mais gosto por diversos motivos, mas o principal, tenho que admitir, são as sombras proporcionadas pelos túneis que serviam também de transporte de água, para além de forma de comunicação entre os diversos pontos da cidade.
Para falar à comunidade cristã de Esmirna, Jesus apresenta-se de forma absoluta e sem ambiguidades:
“E ao anjo da igreja em Esmirna, escreve: Isto diz o Primeiro e o Último, que foi morto, e reviveu…”.
Apocalipse 2:8
Simples, direto e com a autoridade de quem sabe quem é e o que diz.
E de seguida passa a descrever uma comunidade ou igreja, caso a queiram assim chamar, que era perseguida, caluniada, martirizada e ainda assim teve forças para se manter fiel. A perseguição vinha claramente do Império que não suportava esta nova ideia de um Deus que ama todos da mesma forma. A calúnia vinha da comunidade judaica desta cidade que pensava ter o monopólio do monoteísmo e que se via a perder fiéis nas suas sinagogas a um ritmo assustador. Martirizada por ter sido aqui que Policarpo, discípulo direto de João, foi queimado vivo por se recusar a negar Jesus Cristo em 155 d.C. Deixo-vos aqui aquelas que, segundo as fontes existentes, terão sido as suas últimas palavras;
“Há oitenta e seis anos o sirvo e Ele nunca me fez mal. Como posso blasfemar contra o meu Rei e Salvador?”
Se a carta a Esmirna pudesse ganhar carne e osso, seria Policarpo. Fiel até à morte, preso durante 10 dias.
“Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.”
Apocalipse 2:10
Tenho que concluir, pedindo que tenha sabedoria para colocar na série televisiva todas as histórias e curiosidades que esta viagem nos proporcionou, mas quero deixar-vos com alguns pensamentos de Esmirna que nos podem acompanhar na nossa vida cristã e de devoção a Deus.
Esmirna, pobre aos olhos do mundo, rica aos olhos de Deus. Onde o Império viu traidores, Deus viu mártires.
Quanto a nós, já começamos a vislumbrar Lisboa pelas janelas do nosso avião. Até já…
JOÃO NUNO PINTO
_________
JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA
CAPÍTULO V . DELFOS: PAGANISMO E PROPAGANDA
CAPÍTULO VI . CORINTO: UM APÓSTOLO QUE RACIOCINA?
CAPÍTULO VII . ATENAS SEDUZ
CAPÍTULO VIII . ADEUS EUROPA
CAPÍTULO IX . AINDA E SEMPRE: CONSTANTINOPLA
CAPÍTULO X . DE MALAS FEITAS PARA ESMIRNA
CAPÍTULO XI . BASE EM KUSADASI, OLHOS POSTOS EM PÉRGAMO
CAPÍTULO XII . TIATIRA E SARDE: AVISOS À NAVEGAÇÃO
CAPÍTULO XIII . ÉFESO E LAODICÉIA: DA PERCEÇÃO À REALIDADE.
CAPÍTULO XIV . PAMUKKALE E HIERÁPOLIS EM BALÃO
CAPÍTULO XV . FILADÉLFIA: UMA COLUNA NA CASA DE DEUS
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