Esta é uma rubrica muito pessoal, que introduz a banda sonora de uma vida. Não há grandes regras a não ser a de seguir uma sequência (mais ou menos) cronológica, escolher não mais que um disco por banda ou autor e inserir não mais que um videoclipe por álbum, para que a coisa mantenha um tom adequadamente telegráfico.

 

The Colour Of Spring – Talk Talk

Esta banda bombou desde 1982, mas temos que chegar a 86 para que, no meu muito idiossincrático juízo, os excepcionais Talk Talk mostrem o seu melhor discurso. “The Coulour of Spring” apresenta à audiência uma profundidade lírica e melódica que é difícil menorizar. Enquanto a percussão segue por novos caminhos nas oito faixas desta pequena maravilha, os Talk Talk concedem que é suposto venderem discos apenas em três delas. O resto é uma espécie de Roxy Music num cabaret de jazz. O cool deste disco não conhece limites e sim, os Talk Talk viviam e vivem num mundo à parte, paraíso perdido para génios esquecidos.

 

Darklands – The Jesus And Mary Chain

1987. Os céus de Abril prometem sacrifícios e ameaçam com guitarras. O amplificador vai ter um ataque de coração, as colunas reverberam como condensadores eléctricos e o mundo fecha-se em trevas rebeldes, debaixo do sol. Que disco do caraças.

 

Sonic Flower Groove – Primal Scream

O desafio mais difícil até agora, nesta enciclopédia do meu gosto duvidoso, foi escolher um disco entre os cinco que conheço dos Primal Scream (eles editaram 11, entre 1987 e 2016). Do glorioso “Screamadelica” ao explosivo “Riot City Blues”, a banda grita groove! por todos os lados e é absolutamente por mérito próprio um calhau enorme na história das pedras rolantes.
Mais a mais, os Primal Scream são até responsáveis por dar génese à minha tese antiga que bandas com bons substantivos próprios são geralmente boas bandas. Que parvo sem talento nenhum é que se ia lembrar de chamar “Grito Primordial” ao seu agrupamento musical para a animação de casamentos? Só mesmo o bom do Bobby Gillespie é que seria capaz deste atrevimento, muito porque sabia bem o talento que guardava no sotão encefálico e aquilo que estava a fazer no panorama musical da altura.
Como sou um entusiasta inveterado destes senhores, decidi armar-me em purista (o que é raríssimo, como já devem ter reparado) e eleger o produto da primeira vez que os rapazes meteram os pés num estúdio para gravar decentemente qualquer coisinha gira. O resultado dessa iniciática aventura é “Sonic Flower Groove” uma experiência psicadélica e melosa, como um mezcal com duas minhocas de sexos opostos lá dentro.
Banda gigante.



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