Há dias que são substancialmente diferentes daqueles que temos vivido nesta saga de tentar caminhar nas pegadas do Apóstolo Paulo ao longo de muitas das suas viagens. Sabemos que o nosso roteiro não segue criteriosamente a segunda viagem missionária deste pequeno grande homem, mas há motivos de ligação e curiosidades em alguns locais onde não existe registo da passagem de Paulo, mas de certeza que no mínimo ele teria ouvido falar neles, e alguns dos seus discípulos podem mesmo ter visitado e levado a mensagem de Salvação a alguns indivíduos que lá residiam.

 

 

Hierápolis é um desses sítios, considerado por muitos como o terceiro vértice desta região juntamente com Laodicéia e Colossos: a cidade tinha como característica principal ser um centro de tratamento com águas termais, centro de cuidados paliativos e também uma importante necrópole onde pessoas de todos os estratos sociais e um pouco de todo mundo conhecido vinham e eram, em caso de morte, enterrados e homenageados.

 

 

A fama destas águas cruzava continentes de tal forma que até Marco António preparou uma piscina para a sua Cleópatra, rainha do Egito, trazendo inclusive areia do Nilo para completar a experiência. Enfim, extravagâncias.

 

 

Mas não sei porque é que vos estou a falar disto porque o nosso dia começou com uma recolha no hotel ás 04.55h da madrugada para irmos para os locais onde os balões de ar quente iam levantar voo. Foi com os olhos ainda meio fechados que nos aproximamos desta aventura, mas rapidamente abrimos bem a pestana porque um balão destes não é propriamente o Airbus ou o Boeing nos quais temos voado ultimamente. É hora de levar a coisa a sério.

 

 

E foi mesmo inacreditável, com um cenário digno de um conto qualquer que apreciámos melhor não só a região, mas mais especificamente o porquê desta zona ter por nome Pamukkale, que significa Castelo de Algodão. A concentração de sais nestas águas é tal que parecem gelo ou neve, e ainda cria piscinas naturais que com algum cuidado devem ser desfrutadas. E ver tudo isso daqui de cima é um privilégio.

 

 

Voltámos a ter os pés assentes no chão e fomos então filmar de forma mais “normal” os locais com a pequena frustração de saber que as piscinas de Cleópatra estavam fechadas, mas se algo domina em termos estéticos Hierápolis é o seu teatro. De uma beleza única, está acima de tudo bem cuidado e ainda mantém intacto parte do seu cenário e da zona da orquestra. Isto só é possível não só pela qualidade da construção, mas porque existem concertos que ainda são feitos aqui e que originam recursos financeiros para restauro e manutenção deste singular teatro. Parabéns.

 

 

Aqui também jaz um mártir e uma figura do cristianismo do primeiro século. No topo de uma montanha está o túmulo do Apóstolo Filipe, responsável da conversão de tantos pagãos terá encontrado a sua paz final ás mãos de Domiciano ou Trajano, crucificado com a idade de 87 anos. E aqui paro para pensar. Se fizermos uma comparação aos tempos atuais, temos em algumas sociedades onde criminosos com doenças terminais são indultados para ir passar os seus últimos dias de vida com as famílias, mas não com Filipe. Imagina o que é ter um poder de influência tal que os teus adversários sentem a necessidade de acabar com a tua vida aos 87 anos de idade. E não de uma maneira qualquer. Crucificado publicamente, para que todos tenham a certeza de que com ele morria a mensagem. Quão enganados estão.

 

 

O dia termina tão de repente quanto começou e fomos brindados por uma chuva ao final da tarde que teve como condão baixar alguns pontos a temperatura que continua a ser ideal para assar frangos. Mas não nos podemos queixar. Afinal de contas se Paulo conseguiu também nós iremos conseguir.

 

 

JOÃO NUNO PINTO

 

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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA
CAPÍTULO V . DELFOS: PAGANISMO E PROPAGANDA
CAPÍTULO VI . CORINTO: UM APÓSTOLO QUE RACIOCINA?
CAPÍTULO VII . ATENAS SEDUZ
CAPÍTULO VIII . ADEUS EUROPA
CAPÍTULO IX . AINDA E SEMPRE: CONSTANTINOPLA
CAPÍTULO X . DE MALAS FEITAS PARA ESMIRNA
CAPÍTULO XI . BASE EM KUSADASI, OLHOS POSTOS EM PÉRGAMO
CAPÍTULO XII . TIATIRA E SARDE: AVISOS À NAVEGAÇÃO
CAPÍTULO XIII . ÉFESO E LAODICÉIA: DA PERCEÇÃO À REALIDADE.