Em regiões diferentes, separadas por cerca de três horas de carro, acabei por estar em duas cidades que tinham ambas comunidades cristãs que “sofriam” de uma síndrome que, na minha humilde opinião, todos corremos o risco de sofrer. A diferença entre aquilo que pensamos ser e aquilo que realmente somos.

 

 

Estamos prestes a entrar na reta final desta nossa jornada com a perfeita consciência de que para termos a série preparada para os ecrãs ainda há todo um oceano pela frente. Este somar de quilómetros, hotéis diferentes, quartos diferentes, cidades diferentes a cada dois dias, aproxima-se do seu final. Mas ainda aqui andamos.

 

 

Éfeso era uma cidade megalómana, imponente e incontornável e o mesmo se aplica ainda hoje caso queiramos fazer o roteiro das igrejas da antiga Ásia Menor. Um entreposto comercial que na época a que nos referimos tinha inclusive a sua maior avenida a acabar num porto que recebia navios vindos das mais diversas origens.

E é aqui em Éfeso que Paulo residiu durante dois anos e viu a comunidade cristã a desenvolver-se, apesar de todas as dificuldades e adversidades. É também em Éfeso que se dá um dos episódios mais polémicos de Paulo, neste caso com Demétrio, artífice de imagens de prata para a deusa Artemisa ou Diana, que conseguiu mobilizar o setor para tentar impedir que Paulo continuasse a pregar o Caminho e muito menos afirmar que não eram deuses aqueles bonecos feitos pelas mãos dos artesãos. Foi uma comoção que levou a um momento de absoluta histeria publica com muitos a gritar “Viva a grande Diana de Éfeso”.

 

 

A biblioteca continua a ser uma das grandes referencias arqueológicas da cidade e o teatro, que infelizmente estava encerrado para trabalhos, é de uma imponência consentânea com a importância da cidade.

 

 

Já a carta que João escreve, no exílio da ilha de Patmos, e que faz parte do compêndio das sete cartas, às sete igrejas da Ásia Menor, tem como enredo e drama o facto de pensarmos que somos uma coisa, mas, na imperfeição da nossa avaliação, sermos outra. Os cristãos de Éfeso faziam muito, dedicavam-se muito, trabalhavam muito, mas a imagem de um hamster numa roda ás voltas sem sentido nem razão é o que me vem à mente. Jesus coloca os cristãos de Éfeso em contacto com a realidade deles mesmo:

“Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor…”

Muito há para dizer acerca desta cidade e da palavra que Cristo deixou como linha orientadora, por isso é com expectativa que antevejo o trabalho de produção, pós-produção e voz-off que teremos pela frente.

 

 

Viagem de carro, talvez a mais longa da jornada e em três horas estamos em Pamukkale que significa Castelo de Algodão, e somos recebidos pela beleza branca das suas encostas, resultado da forte concentração de sais minerais destas águas termais naturais que ao longo dos séculos seduziram imperadores e imperatrizes para aqui vir.

 

 

Mas é um segundo plano. O nosso troféu nesta região é a igreja de Laodicéia talvez a mais rica. Prospera como a comunidade cristã de maior sucesso económico, o que poderíamos pensar que era bom. Pois bem. Não poderíamos estar mais enganados e Jesus faz questão de não ter qualquer tipo de contemplações.

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca…”

 

 

Em linguagem futebolística, Jesus Cristo entra a pés juntos em relação a Laodicéia, denunciando claramente que a prosperidade material havia dado lugar a uma falência espiritual. E não faça confusão, ainda hoje os mosaicos que compõem a igreja de Laodicéia impressionam pela sua qualidade e relevância. Mas Jesus não ficou por só por isso.

“Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu…”

 

 

A grande questão que devemos colocar é; qual das igrejas somos nós? Não a congregação ou comunidade onde partilhamos e vivemos a nossa Fé, mas dentro de nossos corações. Que igreja sou? Se uma destas cartas viesse para o meu correio qual seria? No final de contas, a realidade é mais importante do que a perceção.

 

JOÃO NUNO PINTO

 

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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA
CAPÍTULO V . DELFOS: PAGANISMO E PROPAGANDA
CAPÍTULO VI . CORINTO: UM APÓSTOLO QUE RACIOCINA?
CAPÍTULO VII . ATENAS SEDUZ
CAPÍTULO VIII . ADEUS EUROPA
CAPÍTULO IX . AINDA E SEMPRE: CONSTANTINOPLA
CAPÍTULO X . DE MALAS FEITAS PARA ESMIRNA
CAPÍTULO XI . BASE EM KUSADASI, OLHOS POSTOS EM PÉRGAMO
CAPÍTULO XII . TIATIRA E SARDE: AVISOS À NAVEGAÇÃO