Sê vigilante, e confirma os restantes, que estão para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus.
Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.
Apocalipse 3:2-3

 

Se em Pérgamo o culto aos imperadores e o altar de Zeus traziam dissabores e cedências doutrinárias aos cristãos, Tiatira ganhava contornos distintos pois a carta à Igreja contém um nome claro e sem ambiguidade alguma, Jezabel.

 

 

Tiatira andava bem: “conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras…” mas algo minava este jardim que florescia.

Esta, eventualmente auto-proclamada, profetisa ensinava e enganava de tal forma que os homens da comunidade cristã de Tiatira se deixavam levar por práticas do foro sexual que eram imorais e estavam fora dos ensinamentos de Cristo que os apóstolos tentavam implementar no coração das pessoas.

 

 

Os vestígios arqueológicos desta cidade não são muitos, mas esperamos contar mais alguns detalhes nos episódios desta série que estamos a preparar. Ainda assim há aqui uma certa ironia – se por um lado Jezabel tenta desviar os fiéis em Tiatira, por outro, é igualmente uma mulher de Tiatira que vai servir de porta de entrada do Evangelho na Europa, Lídia.

Seguimos que se faz algo tarde para outra cidade contemplada com uma carta no livro de Apocalipse, mas não sem antes uma paragem tática para almoço. Apesar de contentes, o sol e as altas temperaturas depressa nos vão fazer arrepender de tal repasto antes de filmar.

 

 

A próxima visita é a Sardes e em termos de local arqueológico estamos quase a falar nos antípodas de Tiatira.

Sardes é imponente, tem uma vastidão e abrangência que nos faz pensar duas vezes se vamos a todos os lados ou ficamos só em alguns sítios específicos, mas o que nos faz sentir minúsculos é a entrada do gymnasium e que não cessa de surpreender independentemente dos ângulos e pontos de vista. Foi a primeira cidade a cunhar moeda, era rica, poderosa, centro de comércio incontornável e achava que era autos-suficiente e não precisava de mais ninguém.

 

 

Talvez com estes detalhes possamos entender melhor as advertências contidas na carta de que João foi veículo de transmissão “conheço as tuas obras; tens nome de que vives e estás morto…” não é dos melhores diagnósticos que uma comunidade cristã ou outra qualquer quererá receber.

Sardes pode ter deixado raízes de onde alguns cristãos da atualidade podem ter copiado tais práticas. Boa reputação no exterior, mas silêncio absoluto para com Deus. Aparência de espiritualidade, mas sem realidade espiritual.
E num mundo de aparência, superficialidade, imediatismo, quer queiramos quer não, uma vida espiritual “á la Sardes” dá um jeito tremendo. O cristão do faz de conta, das boas obras aqui e ali, mas sem contacto algum com o Criador. Sardes deixou-me pensativo. Cuidar da nossa relação com Deus sem nos deixarmos assoberbar com as tarefas diárias, incluindo as que são para Deus. Afinal até Jesus disse “Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas…”

 

 

Qualquer uma destas cartas chama ao arrependimento, mas também à vigilância. Não podemos ser cristãos de constantes cuidados paliativos quando podemos estar atentos, guardar a Fé e acima de tudo guardar o nosso coração.

Hoje é noite de preparar as malas. Amanhã de manhã, Éfeso, e depois viagem para Pamukkale. Seguimos juntos.

 

JOÃO NUNO PINTO

 

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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA
CAPÍTULO V . DELFOS: PAGANISMO E PROPAGANDA
CAPÍTULO VI . CORINTO: UM APÓSTOLO QUE RACIOCINA?
CAPÍTULO VII . ATENAS SEDUZ
CAPÍTULO VIII . ADEUS EUROPA
CAPÍTULO IX . AINDA E SEMPRE: CONSTANTINOPLA
CAPÍTULO X . DE MALAS FEITAS PARA ESMIRNA
CAPÍTULO XI . BASE EM KUSADASI, OLHOS POSTOS EM PÉRGAMO