A grande tragédia do nosso tempo talvez não seja a ascensão dos perversos, mas a passividade barulhenta dos estúpidos. Bonhoeffer, teólogo alemão assassinado por resistir ao nazismo, entendia isso como poucos: o perigo real não é o mal consciente, mas a estupidez sistêmica — aquela que se dissemina como fé cega, que não pensa, não duvida, apenas repete.

O estúpido, dizia Bonhoeffer, não é alguém com baixo QI, mas alguém moralmente anestesiado, intelectualmente capturado, incapaz de confrontar a realidade com independência. Sua ignorância é proativa: ele prefere não saber. Age como massa de manobra, convencido de estar do lado certo, ainda que esteja aplaudindo o totalitarismo de amanhã.

Essa figura domina o cenário atual. Não é um idiota no sentido clássico — é um operador ideológico. Usa hashtags, repete mantras, censura sem entender e se ofende por reflexo. É um produto do adestramento educacional, da mídia pasteurizada, da cultura de cancelamento. Ele se julga ilustrado porque assina uma newsletter progressista. Ele tem certeza, e isso o torna impermeável ao pensamento.

Não se corrige a estupidez com estatísticas. Não se combate com fatos. Como já dizia Olavo: não se vence uma ideia com censura — vence-se com ideias melhores. E, como lembrava Molière,

“não existe tirania que resista a uma gargalhada”.

O estúpido teme o riso porque ele desarma seu dogma.

No fim, a estupidez não é apenas um fracasso cognitivo, mas uma condição moral. E quando ela se torna maioria, torna-se sistema. E um sistema estúpido — ainda que democrático — é apenas a fachada polida de uma tirania.

 

 

MARCOS PAULO CANDELORO

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Marcos Paulo Candeloro  é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.

As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.