O Tour de France deste ano foi excessivamente previsível. Teve os seus momentos entretidos, os seus momentos aborrecidos, como quase sempre, e terminou como todos sabíamos que ia terminar: com a vitória do melhor ciclista do circuito profissional.

Está agora na moda – e já tinha acontecido com o Giro – desenhar as grandes voltas com as montanhas mais altas na segunda e, principalmente, na terceira semana. Isto, na minha opinião, é uma parvoíce de todo o tamanho porque torna as primeiras dez ou doze etapas das competições desinteressantes, ou – ao contrário, excessivamente decisivas.

O que aconteceu neste Tour é que, quando chegaram aos Alpes, os ciclistas estavam tão cansados e castigados que não houve ataques espectaculares, não houve emoção e, sobretudo, não houve incerteza: Pogacar, mesmo sem aquela que seria a sua perna direita – João almeida, que se partiu todo na primeira semana da competição – já tinha ganho a prova antes de lá chegar. Pela quarta vez em seis tentativas.

A última etapa porém, foi uma coisa de doidos. Contrariando a tradição, que “obriga” a etapas de champanhe e selfies, com dois minutos de competição entre sprinters, nos últimos 500 metros dos Campos Eliseos, a organização decidiu em boa hora montar uma corrida a sério em Paris, que incluiu três subidas difíceis ao Montmratre.

 

 

Com dezenas de milhar de adeptos histriónicos a emoldurar apoteoticamente o cenário urbano do circuito parisiense – o mesmo que deu a medalha de ouro a Remko Evenepoel, nas olimpíadas do ano passado – Pogacar decidiu que, mesmo apesar da chuva e dos riscos inerentes, queria ganhar pela quinta vez nesta edição do Tour e lançou-se numa correria maluca com um punhado de outros ciclistas de primeira água pelo empedrado encharcado a cima, com uma determinação tão bonita como insensata, já que tinha a prova mais que ganha.

Foi um momento épico, lindíssimo, que vai ficar para a história do Tour e do ciclismo profissional. Wout van Aert acabou por vencer a etapa, merecidamente, depois de deixar, na última subida, o campeoníssimo esloveno para trás.

De resto, há que celebrar o espírito combativo de Jonas Vingegaard, que teve energia para fazer sofrer Pogacar nos Alpes; há que sublinhar a falência anímica e física de Remko Evenepoel, que desistiu numa etapa de alta montanha, completamente vazio; e há que registar a evidência laboratorial de que Primoz Roglic deve começar a pensar na reforma, já que mesmo com as ausências de Evenepoel e Almeida, não conseguiu fazer melhor que oitavo à geral.

Seja como for, se não fosse a glória desta última etapa, o Tour de France deste ano se calhar nem merecia estes breves parágrafos.