O governo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky está a enfrentar protestos populares por minar os principais órgãos anti-corrupção do país, com o líder ucraniano a assinar um projecto-lei que acaba com a independência das agências encarregadas de investigar a corrupção de alto nível que reina em Kyev.

Na semana passada, Vitalii Shabunin, um importante activista anti-corrupção e crítico frequente do governo de Zelensky, foi acusado de evasão ao serviço militar e de fraude, acusações que ele e dezenas de grupos da sociedade civil dizem decorrer de motivações políticas.

 

 

Josh Rudolph, do German Marshall Fund, classificou assim a perseguição judicial de Shabunin:

“Este processo contra o Sr. Shabunin é o tiro de misericórdia. Uma campanha descarada para minar todo o ecossistema construído para erradicar a corrupção”.

A 21 de Julho, os serviços de segurança ucranianos lançaram ataques abrangentes ao Gabinete Nacional Anti-corrupção da Ucrânia (NABU) e ao Gabinete Especial Anti-corrupção (SAPO), alegando infiltração russa. As autoridades detiveram um funcionário do NABU, embora a agência tenha dito que não foram apresentadas provas em discussões anteriores com as autoridades de segurança.

No dia seguinte, o parlamento ucraniano, dominado pelo partido de Zelensky, aprovou legislação que dava ao procurador-geral nomeado pelo presidente um maior controlo sobre estas agências anti-corrupção. O director do NABU, Semen Kryvonos, alertou que a lei iria desmantelar os esforços para “combater a corrupção de alto nível”, instando Zelensky a não a assinar.

Os críticos argumentam que estas medidas sinalizam uma repressão mais ampla da dissidência. Daria Kaleniuk, chefe do Centro de Acção Anti-Corrupção, co-fundado por Shabunin, afirmou:

“Este é o momento em que Zelensky e a sua administração ultrapassaram claramente a linha vermelha.”

 

 

A reacção contra o regime incluiu editoriais nos grandes meios de comunicação ucranianos e uma carta aberta de 59 ONGs, classificando as acusações contra Shabunin como um “ataque deliberado para o pressionar”. O Grupo dos 7 também manifestou “sérias preocupações” sobre as incursões e alterações legislativas.

Svitlana Matviienko, directora executiva da Agência Ucraniana sem fins lucrativos para as Iniciativas Legislativas, comparou a nova legislação à corrupção do ex-Presidente Viktor Yanukovych, deposto no golpe Euromaidan de 2014, apoiado pelo Ocidente.

Os protestos eclodiram poucas horas depois da votação no parlamento — as primeiras grandes manifestações contra Zelensky e o seu regime desde o início da guerra com a Rússia. Alguns afirmam que milhares participaram em protestos em Kiev, bem como em grandes cidades como Lviv e Dnipro.

Num apogeu da ironia, circulam agora rumores que a organização criminosa que espoletou na Ucrânia o Euromaidan, popularmente conhecida pelo acrónimo CIA, está também envolvida nestes protestos, procurando mais uma vez uma mudança de regime em Kiev, já que Zelensky parece agora desagradar àqueles que o colocaram no poder.

Porque a primeira interferência da agência na vida política ucraniana, que resultou numa guerra que já matou mais de um milhão de jovens russos e ucranianos, correu mesmo bem, não foi?