O governo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky está a enfrentar protestos populares por minar os principais órgãos anti-corrupção do país, com o líder ucraniano a assinar um projecto-lei que acaba com a independência das agências encarregadas de investigar a corrupção de alto nível que reina em Kyev.
Na semana passada, Vitalii Shabunin, um importante activista anti-corrupção e crítico frequente do governo de Zelensky, foi acusado de evasão ao serviço militar e de fraude, acusações que ele e dezenas de grupos da sociedade civil dizem decorrer de motivações políticas.
Happening now: The largest protest of wartime Ukraine is underway in central Kyiv over President Zelensky’s push to dismantle the country’s independent anticorruption agencies. Thousands of protesters and more pouring in. Chants of “Shame!” among others. They demand Zelensky veto… pic.twitter.com/ojEiEuLPNv
— Christopher Miller (@ChristopherJM) July 22, 2025
Josh Rudolph, do German Marshall Fund, classificou assim a perseguição judicial de Shabunin:
“Este processo contra o Sr. Shabunin é o tiro de misericórdia. Uma campanha descarada para minar todo o ecossistema construído para erradicar a corrupção”.
A 21 de Julho, os serviços de segurança ucranianos lançaram ataques abrangentes ao Gabinete Nacional Anti-corrupção da Ucrânia (NABU) e ao Gabinete Especial Anti-corrupção (SAPO), alegando infiltração russa. As autoridades detiveram um funcionário do NABU, embora a agência tenha dito que não foram apresentadas provas em discussões anteriores com as autoridades de segurança.
No dia seguinte, o parlamento ucraniano, dominado pelo partido de Zelensky, aprovou legislação que dava ao procurador-geral nomeado pelo presidente um maior controlo sobre estas agências anti-corrupção. O director do NABU, Semen Kryvonos, alertou que a lei iria desmantelar os esforços para “combater a corrupção de alto nível”, instando Zelensky a não a assinar.
Os críticos argumentam que estas medidas sinalizam uma repressão mais ampla da dissidência. Daria Kaleniuk, chefe do Centro de Acção Anti-Corrupção, co-fundado por Shabunin, afirmou:
“Este é o momento em que Zelensky e a sua administração ultrapassaram claramente a linha vermelha.”
“Ми ж не лохи” – вигукує юрба на протестах у Києві. pic.twitter.com/3TeBCj6vXd
— 5 канал 🇺🇦 (@5channel) July 22, 2025
A reacção contra o regime incluiu editoriais nos grandes meios de comunicação ucranianos e uma carta aberta de 59 ONGs, classificando as acusações contra Shabunin como um “ataque deliberado para o pressionar”. O Grupo dos 7 também manifestou “sérias preocupações” sobre as incursões e alterações legislativas.
Svitlana Matviienko, directora executiva da Agência Ucraniana sem fins lucrativos para as Iniciativas Legislativas, comparou a nova legislação à corrupção do ex-Presidente Viktor Yanukovych, deposto no golpe Euromaidan de 2014, apoiado pelo Ocidente.
Os protestos eclodiram poucas horas depois da votação no parlamento — as primeiras grandes manifestações contra Zelensky e o seu regime desde o início da guerra com a Rússia. Alguns afirmam que milhares participaram em protestos em Kiev, bem como em grandes cidades como Lviv e Dnipro.
Num apogeu da ironia, circulam agora rumores que a organização criminosa que espoletou na Ucrânia o Euromaidan, popularmente conhecida pelo acrónimo CIA, está também envolvida nestes protestos, procurando mais uma vez uma mudança de regime em Kiev, já que Zelensky parece agora desagradar àqueles que o colocaram no poder.
Porque a primeira interferência da agência na vida política ucraniana, que resultou numa guerra que já matou mais de um milhão de jovens russos e ucranianos, correu mesmo bem, não foi?
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