Não foi uma má revolução, aquela que levou os media independentes ao poder. Mas os efeitos secundários não são propriamente salubres. Se um alienígena que não soubesse muito da realidade ontológica do planeta Terra tivesse acesso à minha conta do Youtube ia ficar assustado. Mas a verdade é que todos estes apelos ao click são espúrios, exagerados, erróneos, falsos ou meramente circenses. Reparem bem:
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Da política às ciências, dos alienígenas ao pop rock, nada nem ninguém escapa ao apocalipse sensacionalista e quase temos saudades da CNN.
Para além da fealdade gráfica e do miserabilismo tipográfico (que me ofende os ossos do ofício), o que choca aqui é que todos estes youtubers já são mais que milionários. Não precisam na verdade destes truques de banha da cobra feita com gordura de lagartixa para viverem muito acima daquilo que alguma vez sonharam. Mas continuam a insistir neste ritual dantesco para somar aos milhões que já ganharam mais milhões ainda, até que fiquem só com os milhões e falidos de qualquer vestígio de credibilidade.
Porque o mundo não pode acabar todos os dias; porque a verdade sobre este ou aquele assunto não será revelada de meia em meia hora por rapazinhos que programam jogos vídeo; porque todo o ser humano com um mínimo de sensibilidade percebe que não é uma simulação de computador (pelo simples facto de ter uma alma?); porque o Joe Rogan não vai desmascarar culto nenhum e o informador #1897 não vai revelar nada de significativo sobre o “controlo extraterrestre” e o Tucker Carlson, por muito que tente, não vai desmascarar os mascarados que puxam pelas rédeas do poder global em cinco minutos de um clip tirado fora do contexto; porque o terror das elites está muito para além do que o Russel Brand, que aqui há seis anos atrás era um frequentador assíduo de orgias elitistas, pode imaginar; e é claro que a boa da Sabine Hossenfelder sabe perfeitamente que a nossa galáxia não está enfiada em nenhum buraco negro; e toda a gente com um frágil neurónio a funcionar percebe que ninguém vai prender o Barak Obama; e não é preciso esconder o rosto de Benjamin Netanyhau para sabermos que é um louco furioso que tem como objectivo permanecer no poder, mesmo que para isso seja preciso reduzir o Médio Oriente a cinzas; e não é de certeza o Tim Pool, dono de um QI de 52 pontos e senhor de um instinto jornalístico que projecta a redacção do Correio da Manhã para o Olimpo da ética mediática, que agora vai trazer às massas a verdade sobre o caso Epstein (e muito menos a sobrinha do financeiro/pedófilo); e nem o bom do Rick Beato escapa à tentação de publicar um vídeo sobre os músicos que mais o impressionam no Instagram.
No Instagram, essa gloriosa pátria da música contemporânea.
Por amor de Deus.
Vão chamar-me ingénuo, vão até, calculo, acusar-me de invejas. Mas muito sinceramente, eu acho apenas que quando chegam a um certo patamar de sucesso, a um certo paradigma de fama, a uma certa posição de poder, todas as pessoas são Fausto.
E é esse o problema do Ocidente: a invariável queda moral e espiritual dos seus protagonistas.
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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