O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra e não habita em santuários feitos por mãos humanas.
Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas.
De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar.
Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós.
Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dos vossos poetas: ‘Também somos descendência dele’.
Assim, visto que somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante a uma escultura de ouro, prata ou pedra, feita pela arte e imaginação do homem.
Atos dos Apóstolos 17:24-29
E tal como esperado Atenas não desiludiu. Temperaturas absurdamente altas, sensação térmica superior e aquela inescapável convicção de que o sol ateniense persegue quem se arrisca a decidir passear pela capital helénica. É quase como que um curioso jogo de gato e rato. Mas não nos enganemos, Atenas seduz.
Estamos na etapa final antes da Turquia, mas a passagem de Paulo por Atenas, apesar de aparentar pouco frutuosa, contém momentos de contundência por parte do Apóstolo, numa cidade que consigo imaginar que ele teria enormes expectativas de causar impacto e iniciar uma comunidade que poderia ser um eixo para as restantes cidades dentro desta zona geográfica. É que com as suas fontes de pensamento, filosofias, crítica, matemática, e uma miríade de outras vertentes, Paulo esperava encontrar “mentes brilhantes”. Afinal de contas, Atenas seduz.
Temos quatro dias para aqui estar e se for para contar história da cidade, são poucos, mas se for para a passagem do Paulo por aqui, então parecem substancialmente demasiados tendo em conta os poucos registos que temos da sua passagem por estas bandas. Temos que tomar decisões e vamos aproveitar para fazer o trajeto histórico possível e tentar enquadrar o melhor que formos capazes com o pulsar ateniense nos dias em que Paulo por aqui andou. Fervilhante, vibrante e algo curiosa, a pagã Atenas é um mistério para Paulo, uma vez que apesar de pensadores profundos os atenienses também acreditam em deuses, e não poucos. E isso, racionalidade e espiritualidade em Atenas, seduz.
Juntamente com os colegas de equipa palmilhamos, com toda a certeza, cerca de 10 quilómetros diários a filmar aqui e ali e aguentamos cada grau de temperatura, cada degrau a subir e cada palete de água que o nosso corpo absorve como uma esponja de banho ressequida, sem água faz tempo.
Como curiosidade, hoje filmámos dois momentos de grande impacto para cada um de nós. O primeiro foi o discurso de Paulo no Areópago, cena para a qual acordámos ás 05.00h para lá estar ás 06.00h e ter a tranquilidade do nascer do dia e estar por lá sem ninguém a incomodar os planos de filmagem. Mas se pensam que é assim tão fácil a vida em Atenas, pensem outra vez.
Primeiro 29ºC antes das 06.00h da manhã é algo que eu nunca tinha experimentado na vida, mas não é nada ao pé de tentar arranjar um táxi. Quando finalmente conseguimos, se acham que foi para onde lhe tínhamos dito, achem outra coisa. Eu já frustrado mandei parar o tal táxi e como conhecia algumas das ruas paralelas ao sopé da Acrópole, lá fomos nós. 40 minutos de atraso só assim a abrir o dia. Mas ao chegar ao topo do Areópago e ver o cenário com que vamos brindar cada um de vocês quando a série estiver completa, lembramo-nos que Atenas seduz.
Faço o take à primeira e começo a chorar copiosamente. Não sei se foi nervos, se a mensagem, se o privilégio desta aventura, não vos sei dizer, mas como “sou o que sou”, assumo que chorei.
O segundo momento foi o finalizar da série. Um por do sol filmado a partir do Monte Lycabetos a terminar de forma redonda a segunda viagem missionária do Apóstolo e pensar onde e o que passou Paulo, e ainda hoje na Atenas que dele se burlou existirem avenidas e ruas em sua homenagem. Só em Atenas, porque ela seduz.
Atenas de facto seduz, mas tortura com o seu calor, subidas íngremes e solo irregular. Seduz, mas magoa com a sua insensibilidade nuns dias e hipersensibilidade noutros. Seduz porque tem um mundo para visitar, mas leva-nos à loucura porque a entrada dos locais a visitar hoje é aqui e amanhã é não sabemos onde.
Ainda falta, mas estamos todos prontos para deixar Atenas em paz, ou melhor, termos paz porque deixamos Atenas.
JOÃO NUNO PINTO
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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA
CAPÍTULO V . DELFOS: PAGANISMO E PROPAGANDA
CAPÍTULO VI . CORINTO: UM APÓSTOLO QUE RACIOCINA?
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