Dias duros se aproximam. Chegamos a Corinto e temos a perfeita noção de que nos próximos dias, à medida que nos aproximamos de Atenas, uma onda de calor vai pairar sob a capital grega, e aqui a cerca de 1h30 de distância, já a sentimos no corpo. Mas nada que uma mudança de estratégia não resolva e nos permita gravar em espaços abertos de manhã bem cedo e ao final do dia, e dentro de locais como museus no pico do calor.

E talvez a linha condutora da crónica seja mesmo essa palavra. Estratégia.

 

 

Tenho a noção de que não estamos a fazer a sequência geográfica da viagem de Paulo, como tal devo imprimir alguma da frustração sentida por ele em Atenas onde os “iluminados pensantes”, apesar da abertura inicial ás boas novas, zombaram da ideia da ressurreição dos mortos.

Por outro lado, Corinto era já uma metrópole vibrante e economicamente capaz, e enquanto hub de carga usava a fantástica tecnologia de transportar barcos e mercadorias através de um sistema de carris com um pavimento e vigas de madeira, o “diolkos”, que poupava embarcações e tripulação a viagens bem mais perigosas pelo Peloponeso e permitia a passagem do mar Jónico para o Egeu de forma mais segura. Isto é estratégia.

 

 

Para Paulo este era um lugar ideal para espalhar aos ventos a mensagem do Caminho: mora na cidade, decide trabalhar na construção de tendas, e desta forma não tem que se preocupar com as oferendas das restantes comunidades, que por amor contemplam o crescer da Obra. Durante o ano em que se tem a certeza que aqui permaneceu sucederam os famosos Jogos Ístmicos, uma espécie de Jogos Olímpicos, só que estes são na cidade de Olímpia e os outros em Corinto. Sabendo das multidões que moviam estes eventos, sabendo que hotéis e albergues não eram propriamente abundantes, restavam a estes adeptos uma última opção. Comprar uma tenda e dormir nela durante os jogos. A intencionalidade de Paulo a vir ao de cima. Isto é estratégia.

Mas voltemos a Corinto. A cidade floresce resultado de uma série de fatores, que eu espero conseguir transmitir nos episódios desta fascinante série que estamos a construir, mas também é verdade que o tipo de “clientela temporária” não era a de maior qualidade. Todos sabemos o que buscam marinheiros quando chegam a algum porto depois de longos períodos de tempo no mar e nem vale a pena argumentar porque basta olhar para o nosso Cais do Sodré e lembrar o tipo de casas que existiam nos becos escondidos.

Sim estou a falar de sexo. Corinto era diversão, deboche e excesso. De tal forma que qualquer avanço do foro sexual era apelidado de “corintiar” (adaptação minha por falta de tradução literal). A cidade e seu povo crescia assim a normalizar estes comportamentos e hábitos destrutivos, que indexados ao paganismo local somente aumentava exponencialmente tais práticas. Então, 1 Coríntios 13:4-7 não é inocente, é intencional. E isto é estratégia.

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.“

 

 

Muito mais iremos saber, mas este foi o momento que me encontrei de novo com os pensamentos de Paulo, mas igualmente daqueles que contemporaneamente acreditam que Deus os vai ajudar, mas com insistência aguardam uma qualquer coluna de fogo, um anjo anunciador, ou uma sarça ardente no deserto. De algum modo a primeira linha de ajuda já existe, é um dom que o resto da Criação não tem, e para quem lê estas linhas e não acredita na Criação, é uma característica que os restantes animais não desenvolveram ao mesmo nível que nós. O raciocínio.

Paulo era um fervoroso crente, acreditava em milagres, acreditava na condução divina das nossas vidas quando colocadas nas mãos de Deus, mas pensava e pensou muito bem.

E tu? Quando é que foi a última vez que paraste para pensar?

 

JOÃO NUNO PINTO

 

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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA
CAPÍTULO V . DELFOS: PAGANISMO E PROPAGANDA