Nas adversidades só nos resta Fé e Perseverança. Talvez seja uma das grandes lições que o homem de Tarso nos deixa disponível, porque à medida que nos aproximamos de cidades como Atenas ou Corinto, assinalando assim o meio da nossa viagem, fui acometido de uma série de sintomas que mais além do desconforto, e não quero parecer queixinhas, me afetam a voz e a capacidade de acompanhar os colegas nas filmagens exteriores com a mesma disponibilidade física. O calor está cada vez mais avassalador e a previsão para os próximos dias não me deixa animado.

Então, ponto de situação: febre, dores no corpo, tosse, congestionamento nasal, dores no joelho direito acompanhado de uma valente bolha de água no dedo mindinho. Espero que não seja uma vingança aristotélica por causa de eu ter feito pouco do dedo grande da estátua do filósofo em Tessalónica.

Mas como dizem os homens do mar “ao mau tempo, boa cara”.

 

 

Viemos visitar uma cidade na qual Paulo nunca esteve, pelo menos com as fontes que temos à nossa disposição, mas duvido que não tenha ouvido falar dela, até porque é um dos ex-libris daquilo que o Apóstolo abomina e na sua incessante caminhada tenta a todo o custo abolir do coração das pessoas. O paganismo.

 

 

Para entendermos a dimensão que Delfos teve tenho que usar as mesmas comparações que gravei para a série, uma vez que não existe outra forma de fazer-vos imaginar o poder que deteve.

Se pudesse conceber uma cidade com a influência política de Washington, Bruxelas ou Pequim ao mesmo tempo; se pudesse conceber uma cidade com o poder económico de uma Wall Street, da City de Londres ou dos bancos suíços; se pudesse conceber uma cidade com a influência religiosa de Roma e Meca ao mesmo tempo, essa cidade era Delfos.

A culpa de tal designação recaí nos ombros do Oráculo de Apolo, que debitava previsões e profecias ao ritmo de boletins meteorológicos, mas pior que isso é o facto da cidade estar “brilhantemente construída para moldar a mente do visitante. E não sei se vou conseguir colocar em palavras tal experiência.

Quem chega a Delfos é conduzido pela cidade. É ela que nos diz o que sentir, o que pensar. Apesar da grandiosidade de algumas das suas construções, elas vão-se mantendo escondidas só para no momento certo saltarem à vista do visitante e num estranho bailado emocional nos levarem a aceitar o “desígnio dos deuses”.

 

 

O visitante é recebido de forma normal em cidades da época, o fórum ou ágora, lá está para nos dar as boas vindas e de imediato o facto de vermos pessoas de todos os cantos do mundo “conforta-nos”, faz baixar a guarda, afinal de contas tantos outros também aqui estão. Mas quanto a normalidade é tudo.

No passo seguinte a cidade faz-te passar pelos seus heróis e feitos míticos que marcaram a humanidade. As tarefas de Hércules, o cavalo de Tróia, a batalha de Maratona, está lá tudo para que te sintas parte deste passeio da fama dos heróis, para que te recordes que “os deuses” têm estado com estes heróis e também querem estar contigo.

Seguem-se os tesouros. Sim agora que viste os heróis estás preparado para trazer a tua oferenda a Apolo mas na verdade o que eu vi e senti foi que as diferentes cidades tentavam superar as oferendas umas das outras num frenesim competitivo, que mais do que devoção e amor tresanda a orgulho e extorsão. Por volta de 560 a.C., Naxos, a rica ilha das Cíclades, enviou uma magnífica oferenda a Apolo em Delfos. Trata-se da estátua da mítica Esfinge, cujo tamanho colossal, forma imponente e posição no santuário (próximo ao rochedo de Sibila) destacam a predominância política e artística de Naxos durante o período Arcaico. A criatura demoníaca, com rosto e sorriso enigmático de mulher, corpo de leão e plumagem de pássaro, foi colocada no capitel de uma altíssima coluna, considerada o exemplar mais antigo da ordem jónica em Delfos. Seu tamanho colossal e a altura da qual domina toda a paisagem délfica devem ter sido motivo de admiração para os peregrinos do período Arcaico.

Há que não esquecer o emblemático e majestoso tesouro dos atenienses tão bem guardado numa estrutura que salta aos nossos olhos. Do mesmo período, são os renomados ex-votos criselefantinos representando Apolo, Ártemis e Leto, atualmente no Museu de Delfos.

No entanto, os presentes mais famosos, descritos em detalhe por Heródoto (A, 51, 1-5), são as oferendas votivas do rei lídio Creso. Estas incluem, entre outras, duas crateras enormes, uma de ouro e outra de prata, quatro jarros gigantescos de prata, dois perirrhanteria (recipientes para purificação ritual), também um de ouro e outro de prata, e uma estátua de ouro de uma mulher, aparentemente aquela que costumava amassar o pão de Creso.

 

 

O mais extraordinário é que estamos quase no templo de Apolo mas praticamente ainda nem o vemos. Mas de repente… lá está ele em toda a sua imponência. Parece que está suspenso no ar e nenhuma das montanhas que pintam o cenário lhe faz sequer sombra.

 

 

Não vou alongar-me muito mais com a cidade, mas a mim claramente pareceu que quem a fez tinha uma intenção; moldar, condicionar e doutrinar os visitantes. Fico com a sensação de que o que não faltam por aí são Delfos modernas e visitantes desejosos de “agradar aos deuses”.

O texto de hoje não ficaria completo sem mencionar os anjos que me acompanham e que no meio destas minha debilidades e contrariedades físicas têm sido suporte e fonte de tranquilidade no sentido de encontrar soluções para levar a bom porto esta viagem. Paulo tinha Silas e Timóteo, eu sou um abençoado e felizardo por ter a Mara, o David e o Alexandre. Vocês tornaram o difícil suportável e a ansiedade em paz. Obrigado.

 

 

JOÃO NUNO PINTO

 

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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
CAPÍTULO IV . NOS LUGARES ALTOS DA HISTÓRIA