O nome da crónica de hoje talvez seja dos menos conseguidos, menos criativo ou apelativo, mas reflete o sentimento que fui desenvolvendo ao longo deste dia tão semelhante quanto contrastante, e por este aparente paradoxo já vê aquilo que foi esta jornada.
Fizemos um último take em Tessalónica, onde recordei Aristóteles, e mais do que o contributo do homem quis assinalar as contradições dos homens. Senão diga-me se o que lhe vou relatar em seguida faz algum sentido; o dito filósofo é um dos desbravadores do pensamento, ligando o teórico com o pratico e a sua aplicação no dia a dia. Como filósofo anseia e busca conhecimento, pensamento critico, acumulação de saberes entre tantas outras coisas. Buscou aprender, procurou ensinar e tudo o fez para que as futuras gerações fossem mais preparadas. Filmávamos perto de uma estátua que o homenageia e de repente comecei a notar algo estranho na mesma. O dedo grande do pé tinha um brilho especial.
Se a estátua era, e é verde, talvez cobre, não sei nem procurei enquanto escrevo este artigo, o dedo grande do pé esquerdo tinha uma cor dourada. Faço algo que o próprio seguramente me aconselharia, indaguei. Espantosamente, a resposta é que os visitantes esfregam o dedo grande do pé da estátua de Aristóteles para que fiquem com parte do conhecimento e da sabedoria do mesmo. Honestamente…daqui para a frente nem sei o que diga. Esfreguem, esfreguem e não abram livros e leiam e já vão ver o que vos espera. E a culpa não é de Aristóteles, mas sim de quem se seguiu.
Comecemos então por lugares altos. Bereia tão mais pequena que Tessalónica e, no entanto, com corações tão mais abertos e mentes tão mais preparadas. Paulo vai com Silas, busca a sinagoga e começa a falar, mas é positivamente surpreendido pela atitude dos habitantes desta cidade, algo que fica registado no Livro de Atos 17:11-12
“O povo de Bereia tinha um espírito mais aberto que o de Tessalónica, ouvindo de boa mente a mensagem e examinando dia após dia as Escrituras, para ver se o que Paulo e Silas diziam era exato. O resultado foi que muitos creram, incluindo várias senhoras gregas muito respeitadas, e também não poucos homens.”
Vitória, pensará Paulo, mas é sol de pouca dura uma vez que com Tessalónica ali tão perto, não demorou nada até alguns dos que ajudaram a “correr” com Paulo da cidade subissem a Bereia para tentar uma nova agitação social. Paulo nem perde tempo com isso. Dotado de sabedoria que claramente vinha do Alto, deixa Sila e Timóteo naquela comunidade e a passo acelerado avança para Atenas. E se hoje já leu algumas palavras acerca de filósofos não são nada comparadas com o que esperava Paulo. Os tontos dos seus perseguidores não conseguem entender que quanto mais o perseguem, mais as Boas Novas vão longe e depressa.
Mas voltei a tentar entrar na cabeça deste homem e se pudesse dizer-lhe alguma coisa talvez tivesse sussurrado “Tu foste igual ou pior, mas foi a graça de Deus que te resgatou…” ou algo assim.
Avançamos até ao próximo destino e se não fosse possível lá chegar fisicamente, íamos utilizar os recursos técnicos que temos á nossa disposição para filmar a elevação mais tremenda, mais temida e a que maior ansiedade causava aos cidadãos das cidade-estado destas regiões. O Monte Olimpo, a casa dos deuses gregos.
Não posso deixar de pensar no que estaria na mente de Paulo quanto à ideia de que um monte é a casa de deuses, mas deixo aqui alguma margem pois foi numa montanha que Moisés recebeu as tábuas da Lei, a arca de Noé ficou depositada em cima de um monte e o maior de todos os sermões da história tem por nome “Sermão da Montanha”. Mas avanço curioso com estes meios pensamentos em movimento livre pela minha mente.
Bom, a crónica vai longa, a noite igual e amanhã vamos ter mais um desafio pela frente, mas não me despeço sem antes comentar que terminámos o nosso dia em Meteora a ver mosteiros que parecem suspensos no ar, que tresandam a reclusão voluntária, busca incessante e comunhão íntima com o Criador.
Agora sim posso ir descansar. É que esta crónica, estes parágrafos diários são o meu compromisso com vocês, que cumpro pleno de intencionalidade e determinação. Afinal de contas basta imitar Paulo.
JOÃO NUNO PINTO
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JOÃO NUNO PINTO NA ROTA DE PAULO
INTRODUÇÃO: UM INTINERÁRIO SAGRADO, ENTRE A GRÉCIA E A ÁSIA MENOR
CAPÍTULO I . A JORNADA COMEÇA: PORTA DA EUROPA
CAPÍTULO II . FILIPOS: A AMADA E GENEROSA
CAPÍTULO III . TESSALÓNICA A TODA A VELOCIDADE, MAS COM PROPÓSITO
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