No primeiro aniversário do ‘Conversas no D. Carlos‘, o Embaixador Francisco Henriques da Silva foi ao Guincho apresentar o seu mais recente trabalho editorial, que publicou em Maio, “Guerras Culturais e as Ameaças Woke“.

O Contra foi honrado com o convite para proferir umas palavras preambulares à palestra do Embaixador. Aqui fica o documento vídeo do encontro e, em baixo, a sinopse da apresentação do autor.

 

 

Guerras Culturais e as Ameaças Woke

Vivemos uma fase de declínio civilizacional e cultural, em que está em jogo uma questão existencial, ou seja: a da própria civilização ocidental.

Para além do confronto externo com outras culturas de origem distinta, o problema é igualmente, intra-muros, na medida em que o inimigo interno revela uma autofagia suicidária que, presumivelmente, suplanta a ameaça do exterior .

A preservação da cultura sobre a evolução dos tempos e das políticas do momento é posta em causa, sendo ameaçado o encontro estruturante da nossa cultura entre Jerusalém, Atenas e Rom.a

Se o legado moral e espititual do Ocidente é posto em causa, são igualmente descartados

– O Iluminismo
– A Ciência
– A Tecnologia

Praticando-se uma verdadeira política de terra queimada, única via de criação de um “Admirável Mundo Novo”

Portugal, parte integrante do Ocidente, está envolvido nas guerras culturais em curso, não pode menorizá-las ou descartá-las, como modismos de importação, ou tendências naturalmente efémeras.

Em síntese, o que se  considera ser politicamente correcto contém, em potência, todos os ingredientes do que identificamos como wokismo (o movimento do “despertar”) e a cultura de cancelamento..

Para o historiador Rui Ramos, “o activismo woke não consiste numa qualquer libertação mas na mais audaciosa proposta de aumento de poder do Estado no Ocidente desde os totalitarismos dos anos 30.”

Uma questão política de fundo: pretende-se o assalto ao Poder, através da utilização cínica de princípios ditos de equidade e de compaixão, que escamoteiam a prática inescrupulosa de métodos totalitários. É assim em todo o Ocidente e Portugal não foge à regra.

O termo woke pode ser entendido como a designação de um movimento que promove a justiça social a partir de uma perspectiva radical de esquerda, alimentado por um hiperliberalismo irrestrito. Abrange temas como o racismo, sexismo, homofobia, transfobia, ambientalismo, vegetarianismo, entre outros, assumindo uma postura militante contra todas as formas de discriminação.

Esse combate implica um corte com o passado, porquanto se visa a criação de uma nova cultura e daí o cancelamento de qualquer voz dissonante. Nessa ordem de ideias, o wokismo será contra a liberdade de expressão?

É claro que sim.

 

ORIGENS DO ‘POLITICAMENTE CORRECTO’

Surge na segunda metade da década de 1960, na sequência do “Free Speech Movement” (1964-65) – Universidade de Berkeley (Califórnia) e conectado com a “New Left” americana.

Tem conexões e influências da pseudo-revolução francesa de Maio de 1968. Ganha visibilidade e implanta-se na década de 1970.

Génese do Woke – Pode-se dizer que nasce em 2014, na sequência do assassinato do jovem negro Michael Brown pela polícia em Ferguson Missouri.

Woke é uma palavra que no vernáculo, utilizado pela minoria negra, significa ”acordado” ou “alerta”.

Inicialmente está focado nas questões de discriminação racial e de justiça social

 

A GUERRA AO OCIDENTE

A acção do wokismo concentra-se na área sócio-cultural e o objectivo principal consiste na destruição deliberada da sociedade ocidental e dos respectivos valores ético-políticos civilizacionais que a enformam.

Marxismo Cultural ou wokismo? Será o que se designa por marxismo cultural uma teoria da conspiração, que radica numa corrente de pensamento e de acção sócio-política, cujo objectivo consiste na destruição da cultura ocidental?

3 escolas de pensamento podem caber na definição de marxismo cultural ou wokismo, com uma influência decisiva na sociedade actual, a saber:

– Antonio Gramsci
– Escola de Frankfurt
– Pós-modernismo

Gramsci, ideias-força – A transição para o socialismo processa-se através da “hegemonia cultural” (domínio de uma classe social sobre as demais). Controlo da cultura para o efectivo exercício do poder nas igrejas, no ensino, nos jornais, na literatura, na música, no teatro, no cinema e, por extensão, nos dias de hoje, mutatis mutandis, na televisão e na internet.

Escola de Frankfurt, ideias centrais – Combinação de teses marxistas com a psicanálise de Freud. Defesa da chamada “Teoria Crítica”. Criticismo destrutivo de todos os principais elementos da cultura ocidental, incluindo o cristianismo, o capitalismo, a autoridade, a família, o patriarcado, a hierarquia, a moralidade, a tradição, a moderação sexual, a lealdade, o patriotismo, a convenção e o conservadorismo

Pós-modernistas, pontos-chave – Não há objectividade, a verdade é relativa. A realidade é uma construção mental. Na atribuição de significados, recusa-se a respectiva estabilidade e, por essa via, fazendo da realidade uma construção que depende sempre do posicionamento daquele que a apreende. As explicações sobre o mundo e a vida não são válidas para todos os grupos, culturas e raças. A teoria crítica que propugnam pretende combater as ideias universalistas, a realidade dita objectiva, a moralidade, a linguagem, a mentalidade burguesa

 

WOKISMO, EM SÍNTESE

O wokismo é justiça social, sem fronteiras em termos de espaço e de tempo. A cultura ocidental e tudo o que representa é a principal responsável, pelo status quo iníquo, vigente nessas duas dimensões. As demais culturas estão ausentes de pecado.

A “interseccionalidade” é o reconhecimento de que cada um tem das suas próprias experiências únicas de discriminação e opressão e devemos tomar em consideração tudo o que possa marginalizar as pessoas – género, raça, classe, orientação sexual, nacionalidade, capacidade física. Tal pressupõe a interligação e a sobreposição.

Opressores vs. Oprimidos. Dominadores vs. Dominados. A vitimização permanente, i.e., verdadeiras Olimpíadas da vitimização que se disputam em permanência.

– A História é um constructo da cultura dominante sobre as demais.
– Os ocidentais têm de se auto-flagelar pelos erros cometido no passado
– Os factos não interessam, mas apenas a narrativa politicamente correcta.
– Os géneros são constructos. Os géneros podem proliferar, porque variáveis. Dependem da auto-percepção. A biologia é irrelevante.
– O patriarcado prevalece na cultura ocidental.
– A mulher é marginalizada. A família é um constructo derivado de uma concepção patriarcal.
– O relativismo moral e a ideologia de género têm de ser implantados desde a mais tenra idade na sociedade.
– A sociedade deve ser multicultural e tolerante, mas o multiculturalismo não nos pode levar à apropriação cultural .
– A cultura de cancelamento pune o discurso de ódio e o desrespeito pelo ideário woke.

 

RADICALISMO MILITANTE NEGRO

TCR (Teoria Crítica da Raça) – legislação, normas sociais moldadas pela raça e etnicidade. Estruturas sociais e legais têm que ver com o racismo. Interseccionalidade.

BLM (Black Lives Matter) – Pôr-se fim ao “racismo sistémico”. Anti-colonialismo. Anti-escravatura. Compensação pelo passado. Reescrever a História, reconstituir a literatura, apear as estátuas. Marxismo assumido.

Projecto 1619 – Não é jornalismo, nem história, mas uma iniciativa política divisiva.

 

DEI – DIVERSIDADE, EQUIDADE, INCLUSÃO

Promover a diversidade (raças, géneros, origens, capacidades, etc.), i.e., características físicas visíveis. Todavia, não fomenta a diversidade de opiniões e de ideologias num espírito de tolerância.

Equidade deveria significar que somos todos diferentes, mas com oportunidades iguais. Contudo, o DEI redunda na igualdade de resultados, o que é iníquo e contra a meritocracia.

A Inclusão consiste na criação de ambientes que valorizem, respeitem e incluam todos. Não obstante conduz a ressentimentos por deficiente integração e opõe-se à “política de identidade”, minando a unidade social

 

IMIGRAÇÃO. INTEGRAÇÃO. MULTICULTURALISMO. ASSIMILAÇÃO

Porquê a imigração? E o que fazer?

Problema demográfico (taxas de fertilidade muito baixas).
Necessidade de mão-de-obra (agricultura, indústria e serviços).
Sistemas de Segurança Social deficitários ou à beira da insolvência.

Não se podem abrir portas sem critério discerrnível e politicamente aceitável.
Desfasamento sócio-cultural e factor religioso dos expatriados.
Problema identitário: país de acolhimento não se pode descaracterizar.
Aumento da insegurança e da criminalidade.

 

FEMINISMO

Feminismo é um movimento social e político que visa a igualdade entre os sexos (homens e mulheres) e a eliminação da “opressão das mulheres” em todas as suas formas, numa luta contra a discriminação, o sexismo, a misoginia e o combate contra um patriarcado dito tirânico.

4 vagas do feminismo:

1ª vaga – sufragistas, direitos de voto e de propriedade
2º vaga – contra desigualdade: direito ao aborto, igualdade salarial, violência contra mulheres
3ª vaga – contra diferentes formas de opressão: racismo, sexismo, homofobia, diferentes origens étnicas.
4ª vaga – cultura da violação, assédio on-line, igualdade de género em espaços digitais

 

LGBTQIA+

No estudo mais recente da Gallup (2021) , o número de norte-americanos que se auto-identificam como Lésbicas, Gays, Bissexuais ou Transgéneros, ou seja, algo que não se conforma com os padrões da heterossexualidade é 7,1% (mais do dobro do que se verificava em 2011).

Relativamente aos transgéneros, a dra. Helen Joyce comenta:

“As suas feridas mais óbvias são físicas: mastectomias; castração; corpos moldados por hormonas cruzadas. Mas as feridas mentais são ainda mais profundas. Aderiram a uma ideologia incoerente e em constante mudança, e onde o mais pequeno desvio é ferozmente punido. “

Nos transgéneros, a infertilidade está quase garantida – e o desenvolvimento sexual e o potencial para o orgasmo podem ser excluídos.

Em suma: não se pode admitir que estas minorias, que representam 6 a 8% da sociedade dominem ou tentem dominar os restantes 94 ou 92%, à revelia dos princípios democráticos e do mero bom senso.

Em Portugal: uma situação escandalosa

Integração de transgéneros e não binários nas FAs (portaria 318/23)

Acesso às “casas de banho do sexo oposto por aluno ou aluna que declare identificar-se com o género oposto ao sexo natural”… O mesmo se aplica aos balneários. Presença nas escolas de Organizações LGBTI para acções de informação e sensibilização (não promulgada).

“Quem submeter outra pessoa a atos que visem a alteração ou repressão da sua orientação sexual, identidade ou expressão de género, incluindo a realização ou promoção de procedimentos médico-cirúrgicos, práticas com recursos farmacológicos, psicoterapêuticos ou outros de caráter psicológico ou comportamental, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa, se pena mais grave não lhe couber por força de outra disposição legal.”
(lei 15/2024)

Por conseguinte, a família não é ouvida nem achada.

 

WOKE: UMA RELIGIÃO OU UM MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO?

Wokismo é uma mescla da Revolução Cultural Chinsa, por ora sem sangue e atrocidades, com uma religião intolerante e fundamentalista , com laivos do puritansimo calvinista, que visa, entre outras coisas, não só restringir a liberdade de expressão, mas, inclusive, abolir o humor..

 

CONCLUSÕES

Uma questão óbvia: as sociedades democráticas não podem, em circunstância alguma, ser prisioneiras de uma minoria ditatorial que representa quando muito 7% da população. Não podem, pois, impor a ideologia de género, nem o ideário woke e isso tem de ser impedido.

Temos que barrar o caminho a esta Nova Esquerda totalitária, interseccionalista e niilista que por comodidade e facilidade de expressão designamos por wokismo.

Temos de fazê-lo numa estratégia em 4 partes que tem de ser implementada:

– Quais são as nossas forças?
– Que debilidades manifestamos?
– Que oportunidades se nos oferecem ?
– Que ameaças teremos de enfrentar ?

Quais são as nossas forças?

O Ocidente representa as sociedades mais livres, mais ricas e mais saudáveis do planeta e da História. Os conceitos essenciais da liberdade, do Estado de Direito, de respeito pelo individuo constituem os pilares da sociedade ocidental.

12 linhas de força fundamentais:

– Os valores e princípios judaico-cristãos
– O legado greco-romano
– A igualdade e a dignidade da pessoa e da vida humanas. A defesa da família. A responsabilidade individual pelas nossas acções.
– O amor à Pátria
– O humanismo e o individualismo
– O iluminismo, o triunfo da ciência, da racionalidade e do mérito
– O primado da lei
– A democracia liberal, os direitos humanos, e as liberdades fundamentais.
– A separação entre o Estado e a Igreja.
– A tolerância e o respeito pelo outro
– A economia de mercado e a justiça social estado de direito, a democracia liberal e os direitos humanos
– Os avanços da ciência e da tecnologia

A questão identitária do Ocidente:

– Deus/ Ordem
– Pátria/Nação
– Família

Quais são as nossas debilidades?

Ao visar-se a mudança de matriz cultural, tudo o que consideramos serem os nossos pontos fortes são postos em causa ou relativizados pelo movimento woke.

Assim, como pontos fracos, são apontados:

– O imperialismo e colonialismo
– Racismo e a discriminação
– Desigualdade económica
– Impacto ambiental
– Hegemonia cultural
– Intervenções militares
– Perda de valores tradicionais (Deus, Pátria Família)
– A alegada falta de democracia

O que interessa é o “despertar” para as novas causas (anti-racismo, anti-misoginia, anti-xenofobia, pró-imigração, anti-feminismo, anti-homofobia, anti-transfobia, anti-machismo, etc ), a que a sociedade convencional é alheia.

Que oportunidades?

As oportunidades residem precisamente no reforço consistente dos pontos fortes, maxime: na inovação tecnológica, na educação e na investigação científica, no intercâmbio cultural, na ajuda humanitária e no apoio ao desenvolvimento, no empreendedorismo e na inovação em termos económicos e financeiros.

Ocidente tem de se concertar em acções comuns a nível internacional (políticas comuns, intercâmbio de informação, actuações policiais conjuntas) e não pode transigir, porque a prazo os riscos de confrontação física são enormes.

Começar a eliminar e combater toda a legislação que vá contra os princípios fundamentais da nossa cultura, da actual constituição da Républica e das traves mestras da Portugalidade.

Impedir que a história seja reescrita

Impedir a prática da transgeneridade, em crianças e adolescentes, por anti-científica e criminosa

 

Que ameaças?

Declínio dos valores tradicionais. Visa-se o fim do trinómio Deus-Pátria-Família que constitui um valor fundamental para a própria consciência da cultura ocidental .
Muitos países confrontam-se com uma crescente polarização política, verificando-se crescimento da direita radical e, por outro lado, da Nova Esquerda e do wokismo.
Subsistem riscos sérios de confrontação entre facções adversas.
A coexistência multicultural, a não integração dos imigrantes e seus descendentes pode ter consequências perigosas para a estabilidade social.
O triunfo da ditadura do relativismo é a sentença de morte do mundo Ocidental e disso não há a menor dúvida. Esta é a grande ameaça donde derivam todas as outras.
Antes do mais, a Ordem tem de ser mantida a todo o custo e é prioritário mantê-la em casa, sem desfalecimento. Esta é a regra de ouro.
Impedir a ameaça pendente que uma ditadura das minorias se imponha ao sentir e pensar da maioria da população. As minorias têm de ser respeitadas, mas não mandam.

”O primeiro passo para liquidar um povo é apagar a sua memória. Destruir os seus livros, a sua cultura, a sua história. Então, ponha alguém a escrever novos livros, a fabricar uma nova cultura, inventando uma nova história. Muito antes a nação começará a esquecer o que ela é e o que ela era. O mundo à sua volta esquecer-se-á ainda mais rapidamente. A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”
Millan Kundera