Para quem enxerga o movimento MAGA apenas pelos olhos da imprensa liberal, ele parece uma massa uniforme, pastosa, comandada por um homem só. Nada mais longe da realidade. O trumpismo, de fato, é hoje a expressão política mais fragmentada e plural da direita americana em décadas — e sua mais recente fratura exposta atende por dois nomes: Jeffrey Epstein.
Quando Donald Trump resolveu tratar o caso Epstein como assunto encerrado, a reação não veio apenas da imprensa ou da velha esquerda. Veio de dentro. Veio da base America First, dos que não estão dispostos a passar pano para o sistema mesmo quando o sistema veste boné vermelho.
Thomas Massie, Matt Gaetz, Marjorie Taylor Greene, o Freedom Caucus inteiro e gente como Steve Bannon e Alex Jones sabem bem disso. Para esse grupo, America First não é retórica de palanque: é código de conduta. E não há America First real enquanto a podridão dos bastidores — representada por nomes, listas e vídeos sumidos — continuar encoberta por conveniência.
O episódio Epstein é tratado por essa ala como a chave simbólica do estado profundo: uma rede de chantagem moral que atravessa partidos, governos, bilionários e oligarquias globais. Para os institucionais do MAGA, aqueles mais preocupados em aprovar pacotes e manter cargos, é preferível deixar o tema para lá. Para o Freedom Caucus, é questão de princípio.
A contradição se tornou mais aguda com a aprovação do Big Beautiful Bill. Trump orquestrou uma manobra ousada: uniu reforma fiscal, controle de fronteiras e política industrial num só projeto-relâmpago — uma blitzkrieg legislativa concluída às vésperas de 4 de Julho. Vitória objetiva? Sem dúvida. Mas ao custo de conter, por ora, as pautas mais disruptivas do movimento.
E é aí que a base cobra. Não adianta reconstruir tarifas ou fechar fronteiras enquanto se ignora que as instituições continuam a proteger elites culpadas dos piores crimes. Não basta frear a China e reindustrializar o Rust Belt se os mesmos cartéis corporativos e de inteligência que chantageavam políticos via Epstein continuam intocados.
Bannon, Jones, Massie, Greene e Gaetz vocalizam esse incômodo. Sabem que o eleitor MAGA não é feito só de pragmáticos cansados da inflação. Ele é feito de americanos que acreditam que o sistema inteiro precisa ser derrubado — das agências à Suprema Corte, da grande mídia às universidades.
O MAGA não é um partido. É uma guerra civil interna permanente entre acomodação e ruptura. E mesmo Trump, com todo seu instinto político, sente a pressão: ou assume de vez o papel de líder revolucionário, ou arrisca se tornar apenas mais uma engrenagem.
Epstein não foi um detalhe. Foi o sinal. E quem finge que não viu, não entendeu nada.
MARCOS PAULO CANDELORO
__________
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. Escreve em português do Brasil.
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
Relacionados
17 Jul 26
O poder já não pede permissão.
Sonhávamos que a tirania viria com botas e bandeiras, precedida por tambores, para que pudéssemos pelo menos reconhecê-la e resistir. Ela chega, pelo contrário, sem rosto e sem som, pedindo apenas que aceitemos os termos de uso. A crónica de Marcos Paulo Candeloro.
17 Jul 26
Sobre o ‘Chat Control 2.0.’
O 'Chat Control' da UE refere-se a 2 processos legislativos: um já aprovado, temporário, que não inclui comunicações protegidas por encriptação de ponta a ponta, e outro, em preparação e com regime permanente, que abrange todas as plataformas digitais. A crónica de António Justo.
16 Jul 26
A Censura à Vida: Quando Defender o Inocente se Torna Crime
A decisão da ERC de multar os canais de televisão que passaram o filme pró-vida de Miguel Milhão é totalitária. É o Estado a decidir, segundo um ideário político, que ideias podem e não podem ser expressas em praça pública. O protesto de Maria Helena Costa.
15 Jul 26
Bruxelas empenhada em reduzir a cultura europeia a instrumento de guerra.
A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico. A crónica de António Justo.
15 Jul 26
Remigração: compreender o conceito que está a polarizar o debate europeu.
O debate sobre a remigração obriga as sociedades europeias a confrontarem uma questão decisiva: como conciliar controlo migratório, coesão social, Estado de direito e respeito pela dignidade humana? A análise de Francisco Henriques da Silva.
14 Jul 26
O ‘Chat Control’ chegou (mesmo) para ficar? O que a votação de Estrasburgo muda na sua vida.
Enquanto grande parte dos portugueses se preparava para as férias, no Parlamento Europeu aprovava-se, a coberto de uma manobra de bastidores, a maior ameaça à privacidade digital dos últimos anos. A crónica de António Justo.





