Faz um ano que Keir Starmer e o Partido Trabalhista foram eleitos para governar o Reino Unido. Muito do que foi dito na altura soa agora vazio, até ridículo, seja a declaração do próprio Starmer em Downing Street de que lideraria um “governo de serviço” que “interferiria menos nas vidas” dos cidadãos, seja a opinião de Andrew Marr, um dos principais comentadores políticos britânicos, de que “pela primeira vez em muitas das nossas vidas, a Grã-Bretanha parece um refúgio de paz e estabilidade”. Mais perturbador ainda, Caitlin Moran, uma das principais redactoras do Times, escreveu que “Starmer aumentou muito o meu nível de excitação. Sinto-me florescida”.

Seguimos em frente com um arrepio e notamos o que agora é óbvio para todos: que o próprio Starmer não tinha sequer uma filosofia de governo. O líder trabalhista obteve uma vitória eleitoral inesperada e sólida (se não tivermos em conta a abstenção), mas sem consentimento real para fazer muito em termos económicos ou políticos. Assim, quando os eleitores começaram a perceber que tipo de homem ele realmente era — o que aconteceu logo em Agosto do ano passado, quando reprimiu a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, aceitou presentes de milionários —, o seu mandato sofreu uma crise de confiança da qual não recuperou e muito provavelmente não recuperará.

Um instituto de pesquisa perguntou aos eleitores na semana passada quais consideravam ser as principais conquistas do primeiro ano de Starmer. A nuvem de palavras resultante continha um termo gigante: “Nada”. Na verdade, o Partido Trabalhista parece ter acreditado genuinamente que tudo o que precisava fazer era remover os conservadores do poder e tudo ficaria bem novamente.

O próprio site de inquirição da opinião pública do governo, o Yougov, fez uma sondagem parecida que apresenta os mesmos resultados: 43% dos britânicos afirmam que este executivo não fez nada de positivo, sendo esta, de longe, a resposta que recolheu mais pareceres.

A gestão económica tem sido desastrosa. O primeiro orçamento do Partido Trabalhista, no Outono do ano passado, conseguiu a impressionante façanha de aumentar os impostos em quase 2% do PIB e, ao mesmo tempo, agravar o déficit ao aumentar ainda mais os gastos. A ministra das Finanças, Rachel Reeves, garantiu às empresas que não voltaria a fazê-lo. Mas na semana passada foi às lágrimas na Câmara dos Comuns, quando os planos do Partido Trabalhista de cortar os aumentos nas despesas com a segurança social ruíram sob a pressão da extrema-esquerda trabalhista, e o governo limitou-se a informar que não tem alternativa a não ser pedir ainda mais dinheiro emprestado e taxar ainda mais os britânicos.

O governo de starmer afirma que quer mais crescimento para ajudar a resolver o problema das finanças públicas. Mas quase todas as medidas que apresenta — como a regulamentação massiva do mercado de trabalho, novos controlos sobre o mercado de arrendamento imobiliário e a repressão aos investidores estrangeiros — agravam o problema em vez de o resolver. É como se acreditassem que o crescimento económico acontece por magia, ou que depende apenas do desejo, e não algo que pode ser incentivado com políticas económicas sensatas.

O Partido Trabalhista também não tem ideia de como resolver o problema da imigração ilegal. Desmantelou os planos de deportação para o Ruanda, tão dolorosamente construídos pelos seus antecessores, e, portanto, não tem nenhum impedimento para o fluxo interminável de pequenos barcos que atravessam o Canal da Mancha. Atribuindo a si próprios o mérito pela repressão tardia dos conservadores à imigração legal, que só agora aparece nos números; mas com meio milhão de pessoas ainda a chegar à Grã-Bretanha todos os anos, eles não chegaram nem perto de lidar com a dependência da economia britânica da onda de imigração de baixa qualificação e baixos salários, sem falar no seu efeito cultural no país.

Nas relações exteriores, o governo trabalhista não tem sido muito mais competente. Starmer parece ter gerido a relação com Trump melhor do que muitos esperavam, embora isso possa ser mais devido à ingenuidade de Trump e ao carinho que parece nutrir pela Grã-Bretanha e pela Família Real, do que às suas próprias habilidades. Fazendo uma breve pausa para entregar o Território Britânico do Oceano Índico, com a sua base militar, às Maurícias e pagando até por essa doação, o executivo de Starmer está a investir no processo de pilotar a Grã-Bretanha de volta à órbita da UE, e de aceitar as políticas de Bruxelas sem ter qualquer voz nelas. Responsabilidade sem poder, normalmente o papel dos administradores locais de uma potência derrotada e ocupada, parece ser o objectivo político real do Partido Trabalhista.

“As coisas só podem melhorar” era o mote de Tony Blair, antecessor de Starmer no Partido Trabalhista. Mas agora a sensação do o povo britânico é que as coisas estão más e só podem piorar, e enquanto contemplam a impotência do seu governo, a maioria sente-se desanimada em relação ao futuro. Eles podem ver que o colapso de até mesmo uma fraca tentativa de cortar os gastos com a assistência social deixa o Partido Trabalhista incapaz de implementar qualquer política que não seja de extrema-esquerda. Daí a expectativa generalizada de novos aumentos de impostos, talvez até mesmo um imposto sobre a riqueza pela primeira vez na Grã-Bretanha, e uma intensificação da actual corrida louca e onerosa para o zero líquido de emissões sob o comando do eco-fanático Ed Miliband. O Partido Trabalhista pode ter uma maioria esmagadora, a capacidade teórica de fazer o que quiser. Mas na prática, só pode usá-la para fazer coisas que agravarão todos os problemas do país. Não é de admirar que todos estejam tão pessimistas e deprimidos, ao ponto dos rumores de uma guerra civil estejam a aumentar de intensidade.

Há uma semelhança inquietante em tudo isto com os problemas da França e da Alemanha. O presidente francês Emmanuel Macron, por coincidência, foi ao Reino Unido na semana passada para uma visita de Estado. Toda a pompa habitual foi exibida, chá com o rei em Windsor, bandeiras hasteadas na Mall até ao Palácio de Buckingham, um discurso no Parlamento. Mas isso não escondeu o facto de que nem Macron nem Starmer conseguem governar de forma a resolver os problemas dos seus países. Ambos foram eleitos mais porque as pessoas não gostavam da alternativa do que por quaisquer qualidades que eles próprios tenham. E nenhum dos dois consegue implementar as políticas com base nas quais foram eleitos – partindo do princípio, discutível, que conseguimos perceber quais eram.

No final deste mês, a Grã-Bretanha também assinará um novo tratado bilateral com a Alemanha. Quando se encontrarem, Starmer e o chanceler Friedrich Merz terão muito com que se preocupar, numa solidariedade de misérias, pois Merz provavelmente concorda com Starmer na maioria dos assuntos, apesar de suas diferentes afiliações políticas. O chanceler também está preso pela sua própria circunstância política, incapaz de cumprir as promessas eleitorais que defendeu e agora que está institucionalmente comprometido com a esquerda.

Tudo isto são más notícias para a Europa. O que a Europa precisa é de desregulamentação massiva e de reformas baseadas no mercado, bem como de repressão à imigração. Não vai conseguir nada disso com Macron, Merz e von der Leyen. A Grã-Bretanha também não vai conseguir resultados com Starmer. Entretanto, a raiva e a pressão aumentam. A única questão é quem será o primeiro a ser derrubado pelos acontecimentos.

Há algumas semanas, Starmer, compreendendo de forma atípica o sentimento popular em relação à imigração, descreveu a Grã-Bretanha como uma “ilha de estranhos”. De forma muito mais característica, na semana passada, afirmou perante a imprensa que se arrependeu de ter dito tal coisa.

Considerando o descontentamento que enfrenta no país que dirige, não terá muito mais oportunidades para se arrepender seja do que for. Porque a sua margem de erro já está esticada para além da sustentabilidade.